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Olhares de (apenas) uma latino-americana

sábado, 7 de março de 2009

Viajeros – Mudança de tempo

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 Viajeros   Mudança de tempo
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Primeira vista da Cordilheira dos Andes.

Hoje, pela primeira vez, vimos montanhas na Argentina. E não se tratam de simples montanhas: tivemos o prazer de vislumbrar a Cordilheira dos Andes delineada pelo por do sol. Em dois dias de estrada praticamente cruzamos o país horizontalmente. Faltam menos de 300 km para chegarmos ao nosso destino, uma cidadezinha andina rodeada por neve, quase no Chile.

Acordamos em Buenos Aires às quatro horas da manhã. Pegamos três ônibus urbanos até alcançarmos o ponto da estrada indicado para pedir carona. Depois de algumas caronas curtas, chegamos à cidade de Cochabuco. Mais um fim de tarde, mais uma expectativa de dormir na estrada. Estávamos decidindo onde nos abrigar quando um carro com dois senhores de uns 50 anos parou. Iriam a Junin, a uns 50 km dali. Aceitamos a carona – ao menos avançaríamos um pouco mais.

Eles faziam o tipo de quem nunca se espera uma carona – meia idade, um bom carro e roupa social. Mas os dois pareciam ser boa gente. Beto, que estava no volante, combinava um churrasco com seus amigos através do celular. Conversa vai, conversa vem, ele nos convidou para o churrasco. É claro que aceitamos de imediato, apesar de sermos vegetarianos. Abrem-se exceções. Beto ficou espantado com a rapidez com que eu aceitei, sem nem pensar muito. “É que eu gosto muito quando as coisas acontecem por si só, sem planejamento”, eu disse. “Você deve gostar muito de churrasco, isso sim”, gracejou Beto.

O fato é que, com churrasco ou sem churrasco, não conseguiríamos mais caronas – a noite já vinha chegando. Teríamos que pernoitar em Junin. “Onde vocês pensam em dormir?”, perguntou Beto. “Não sei, se tiver um albergue, um hotelzinho barato, um camping, não sei”, meio que perguntei, meio que respondi. No fim das contas, ele ligou para seu irmão, dono de um hotel que funciona na antiga casa da família de Beto, onde ele passou sua infância. “Pronto, consegui um lugar para vocês essa noite, e sem pagar nada”.

Não podíamos acreditar. Iríamos a um churrasco – asado, como dizem por aqui -, a mais típica comida argentina, dormíriamos num hotel, tudo assim, de repente, do nada. Mas o mais tocante foi a atenção que recebemos. Beto nos mostrou a cidade, nos levava e buscava do hotel e, por sua insistência, acabamos ficando mais uma noite. Conhecemos sua família, seus amigos, até fui ao mercado com ele e sua filha. Pegaram dois carrinhos: enquanto ela fazia compras para casa, ele comprava comida para uma senhora a quem ajuda. Abandonada pelo marido, desempregada e com cinco filhos pequenos para criar, ela se mantém às custas de caridade. O carrinho dele estava cheio de carne, leite, queijo, frutas e besteirinhas para as crianças. “Pai, você vai gastar demais”, advertiu a filha. ”Quando a gente morre não leva nada junto, nem o dinheiro, não é verdade?”, disse Beto, com seu jeito bonachão.

No incidente “feira de artesanato na Plaza de Francia” fiquei muito decepcionada com o ser humano. Em momentos como aquele me pergunto se vale a pena tentar construir uma sociedade melhor, dedicar a vida a isso. Às vezes parece que o ser humano é um animal escroto por essência, que é essa a condição humana. Mas quando encontro pessoas como Beto, sua família e seus amigos, me encho de esperança, passo a acreditar que só precisamos de uma forcinha, que a bomba está prestes a explodir (se é que já não explodiu), que encontramos a escada, é só começar a subir. Brilha uma estrela no céu nublado.

 

Esse texto faz parte do livro Viajeros, que foi publicado em posts nesse blog.

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