Parte do coletivo Soylocoporti

Olhares de (apenas) uma latino-americana

domingo, 4 de outubro de 2009

A cidade vazia

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Um espirro. Marcelo, constrangido, tira o lenço do bolso e assoa o nariz. A senhora ao lado, um pouco temerosa, mas muito arraigada aos costumes, põe a máscara de lado e lhe deseja saúde. Uma mulher, com uma criança dormindo ao colo, puxa seu filho mais velho bruscamente pelo braço, enquanto o homem guarda o lenço. O menino faz um pouco de manha, mas resigna-se. Ninguém ousa cruzar olhares.

A enfermeira entra na imensa recepção e chama dez nomes, pelo sistema de som, seguindo a lista que tem nas mãos. Marcelo levanta-se, junto com os outros – são conduzidos pelos corredores assépticos do hospital. Ele não quer ir. Sente-se um covarde. Ele sabe que não deveria estar ali, ninguém deveria estar ali.

Ouvem-se somente passos, que ecoam pelas paredes lisas. O barulho da borracha das solas em atrito com o piso aumenta o desconforto. Param em frente ao “Centro de Vacinação”: as portas se abrem. A enfermeira aciona o projetor 3D, que executa uma didática apresentação sobre os possíveis efeitos devastadores da gripe láctea, um vírus mutante que ameaça a estabilidade social. Números atrás de números são apresentados – dados de atingidos e mortos pela doença, seguidos de previsões catastróficas. “É dever de todo cidadão prevenir-se”, conclui o informe virtual.

Os pacientes são convocados a alinhar-se no balcão de vacinação. Um ao lado do outro, eles seguem as instruções e inclinam seus braços sobre o sinalizador. Marcelo desvia o olhar – ele nunca gostou de injeções. Levanta a vista para o teto para não ter que olhar a agulha; alguma coisa chama sua atenção, na extremidade da sala. Checa os cantos – tudo monitorado. A “imprensa b” fala em terrorismo de Estado, sob pseudônimos, protegendo-se do que chama de “caça aos esclarecidos”. Fontes atestam que a vacina é altamente prejudicial e sua distribuição segue interesses da indústria farmacêutica, outras afirmam que tal política de saúde faz parte de um programa mundial de rastreamento liderado pela CIA. Dizem que tal vírus surgiu das péssimas condições de criação de vacas leiteiras e da negligência no tratamento de seus excrementos. Mas a mídia de massa, que atinge cada celplayer do mundo inteiro, não discute causas, nem pesa polêmicas. O pânico gerado se alastra, derrubando qualquer ameaça de reflexão.

A enfermeira responsável pela vacinação inicia o procedimento. Após a esterilização, as dez injeções, alinhadas no mesmo mecanismo, iniciam o movimento para baixo. Precisamente, com um suave ruído, os tubos de Teroclox aproximam-se das veias, seus destinos.

– Moça, moça, por favor – chama Marcelo, interrompendo a angústia resignada do silêncio com a inquietude do desespero. A enfermeira o olha com desconfiança, paralisa a operação e vai em sua direção.

– Pois não?

– Me desculpa, mas é que eu tenho pressão baixa, tô me sentindo mal, preciso sair pra tomar um ar…

– Senhor, o procedimento será concluído em trinta segundos, se o senhor cooperar. Venha, eu ajudo o senhor.

– Não, você não está entendendo…

– Por favor, eu o ajudo – e, guiando-o até o balcão, discretamente colocou uma de suas mãos no bolso do jaleco e emitiu um alerta pelo comunicador interno.

Ela foi guiando-o pelo braço, ele desnorteado, sem ter a menor ideia do que fazer, mas com a certeza de ter que se mandar imediatamente. Procurou janelas, mas não havia – a enfermeira, numa situação patética, o sentava na cadeira, conduzia todos os seus movimentos, pegava seu braço e ele lá, estúpido, hesitante.

A enfermeira reposicionou Marcelo e acionou novamente o mecanismo. Mais uma vez, a máquina macabra de dez injeções descia lentamente, precisamente, inexoravelmente. Num impulso de pavor, ele se levantou, esbarrou na enfermeira e correu em direção à porta. Ele alcançou a saída ofegante, mas não conseguiu ultrapassá-la: seu rosto encontrou o peito de um dos seis seguranças robotizados que cercavam a sua saída.

Nas ruas, não havia ninguém. Escolas, museus, praças – tudo parado. Contraditoriamente, somente os centros de consumo e de produção, além do setor de saúde, continuavam girando sua engrenagem, irredutíveis. E ele nesse cenário deprimente, sem vida – carcaças de civilização – sendo transportado como se fosse uma ameaça à sociedade.

No caminho para a Casa de Cura Psíquica e Ordem Social, ele lembrou de um livro muito antigo que havia lido. Contava que no início do século XX houve uma epidemia de varíola. Os suspeitos de ter a doença eram levados pela segurança pública a cárceres imundos; depois disso, ninguém nunca mais sabia deles. Teve um ímpeto de gritar, mas o que saiu foi um profundo suspiro. Não havia ninguém para ouvir.

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