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Olhares de (apenas) uma latino-americana

quinta-feira, 20 de maio de 2010

Agroecologia em contraposição ao agronegócio

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Texto e imagens por Michele Torinelli

de Francisco Beltrão

Debate com Plínio de Arruda Sampaio e Letícia Silva abre o segundo dia da Jornada de Agroecologia

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O primeiro painel da 9ª Jornada de Agroecologia, que acontece em Francisco Beltrão (PR), denuncia o modelo do agronegócio e apresenta a agroecologia como alternativa sustentável. Com o auditório lotado, Plínio de Arruda Sampaio, presidente da Associação Brasileira de Reforma Agrária (ABRA), indica logo ao que veio: explicar como o capital atua na agricultura. Já Letícia Silva, gerente de normatização e avaliação da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (ANVISA), apresentou um panorama do comércio de agrotóxicos no país.

O capitalismo é caracterizado pela propriedade privada e pela busca do lucro. Contudo, não necessariamente o que dá lucro é o que satisfaz as necessidades da sociedade. “A gente tem que entender como o capitalista pensa. A cabeça dele funciona assim: onde eu coloco meu dinheiro para obter mais capital?”, ilustra Sampaio.

Na agricultura, a lógica é a mesma. O objetivo é obter lucro, e o que mais rende para o agronegócio é a exportação. “Está dando mais lucro vender para fora”, resume o presidente da ABRA. A técnica utilizada é a monocultura, que segundo o painelista, não convive bem com a pequena propriedade. A agroecologia vem justamente contrapor essa concepção. Seu objetivo é produzir alimento de qualidade, respeitando o ambiente e o próximo.

Agronegócio: cultura de morte

“O capital na agricultura é muito perigoso – ele precisa ser controlado”, alerta Sampaio. Os dados são alarmantes. Seis empresas controlam 80% do mercado brasileiro de agrotóxicos, o maior mercado mundial do produto. Foram comercializados mais de 790 mil toneladas de agrotóxicos no país em 2009, de acordo com o relatório da ANVISA, considerando somente o peso dos componentes (sem os produtos aos quais são agregados). “Isso dá uma média de 3 kg por habitante”, esclarece Letícia Silva.

Segundo a gerente da ANVISA, o capital dessas empresas transnacionais é maior que o PIB da maioria dos países da ONU – só no Brasil elas obtiveram 6,8 bilhões de dólares em 2009. Comparando com dados de 2008, o país consumiu mais que o dobro de agrotóxicos no período. “O relatório acaba com a lenda de que a liberação dos trangênicos diminuiria o uso de agrotóxicos”, contesta Letícia.

Escoamento de veneno

Mais do que lucrar no Brasil, empresas como Monsanto, Syngenta e Bayer enviam para cá produtos que foram proibidos nos EUA e na Europa por motivo de saúde pública. Além disso, outros agrotóxicos que já não eram mais utilizados no Brasil voltaram à circulação, pois as pragas estão cada vez mais resistentes.

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Letícia Silva, da Anvisa, durante sua fala. Ao lado, Plínio de Arruda Sampaio

Letícia conta que foi aprovado na União Européia o “direito à informação”, obrigando o agricultor que utiliza agrotóxicos a informar aos vizinhos a quantidade utilizada e respeitar a distância necessária para impedir a contaminação. Já no Brasil, não existe regulamentação semelhante.

Além de causar danos ao ser humano, os agrotóxicos são uma ameaça ao ecossistema. “O aquífero Guarani pode ser afetado e não há ninguém monitorando isso”, denuncia a gerente. “Podemos estar contaminando a maior reserva de água doce do mundo”, complementa.

Mudança de modelo

Ao final de sua fala, Letícia cobrou da sociedade civil que pressione o poder público , que diga “queremos que a ANVISA cuide de nossa saúde e não fique liberando veneno”. Em relação à propriedade da terra, Sampaio acredita em uma lei que restrinja o agronegócio. “É que nem um boi bravo; tem que cercar. Isso até agente poder acabar com ele”, provoca.

Os painelistas apontaram os dois principais pontos de uma renovação no campo: desconcentração da propriedade da terra, por meio de uma reforma agrária, e mudança no modo de cultivo, trocando a monocultura pela agroecologia. “Gente, precisamos da ajuda de vocês”, disse Letícia, convocando as 3 mil pessoas presentes.

“Hoje nós dependemos desse modelo. Mas num país socialista, o que vai valer é ter o povo alimentado e a natureza em equilíbrio”, acredita Sampaio. O objetivo, além da justiça entre os homens, é cultivar uma relação de integração com o meio. “A terra é nossa mãe. Dela nós viemos e para ela nós vamos voltar. A agroecologia é a sabedoria da vida”, acrescenta.

Veja mais sobre a Jornada de Agroecologia aqui

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