Parte do coletivo Soylocoporti

Olhares de (apenas) uma latino-americana

segunda-feira, 10 de março de 2014

Paranoia

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Bater as botas.

Comer capim pela raiz.

Vestir o paletó de madeira.

Partir dessa pra uma melhor.

 

Morrer.

 

Aconteceu. Antes de dormir, no escuro, deitada na cama.

Em algum momento eu percebi, realmente, que sim, eu vou morrer.

Eu não vou mais existir.

E eu simplesmente não sei o que vai acontecer.

 

E pode ser a qualquer momento.

 

Pela primeira vez tive clareza disso, senti, soube. E tive medo. Muito medo.

Raul entende da morte. Engraçado que quando rolam esses revelações pessoais tão profundas sobre algo tão óbvio mas tão obscuro, normalmente Raul tem alguma coisa pra dizer sobre isso.

(Quando era criança eu achava muito esquisito imaginar que sempre tinha alguém vendo fazer tudo o que se faz dentro do banheiro.)

 

E pensei, sim, talvez o óbvio – mas o difícil óbvio -, que há de se conviver com a virtualidade da morte.

Até que ela se materialize. E o ciclo dessa individualidade se encerre.

 

Como?

Não sei.

 

Vivamos.

Ninguém morreu.

 

Dizem que um mestre espiritual conhece, de antemão, o momento de sua morte.

E consegue não enlouquecer com sua inexorabilidade.

 

 

Outro dia aconteceu outra coisa. Deitada na cama. Antes de dormir.

(Será essa a hora em que tudo acontece?)

Dessa vez a luz tava acesa.

 

eu ontem tive a impressão

que deus quis falar comigo

não lhe dei ouvidos

quem sou eu para falar com deus?

ele que cuide dos seus assuntos

eu cuido dos meus.

 

Paulo Leminski

 

 

Deus quis falar comigo, no teto do meu quarto.

Era como um pequeno redemoinho, uma tênue energia que girava.

Se movia, era vivo, ali, no teto do meu quarto, ao lado da luminária chinesa.

Ela se mexeu como se houvesse vento. Mas todas as portas e janelas estavam fechadas.

 

E eu tive medo. E não quis ver.

 

Ele que cuide dos seus.

 

 

 

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