Parte do coletivo Soylocoporti

Olhares de (apenas) uma latino-americana

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terça-feira, 29 de dezembro de 2009

O Pré-Sal e a soberania nacional

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Caminhantes e convidados debatem o Pré-Sal no segundo dia da Expedición Donde Miras

No seu quarto trecho, que compreende a região de Santos (SP) a Paraty (RJ), a Expedición Donde Miras caminha sobre terras peculiares: a região do Pré-Sal. A reserva petrolífera, mapeada recentemente, constituiu-se na separação da Pangéia – a imensa massa terrestre que separou-se e formou os atuais continentes – entre a América e a África. Algas azuis soterradas debaixo de sal foram amalgamadas ao longo dos milênios e resultaram em imensas aglomerações de petróleo de qualidade. O sal serviu como uma “tampa”, o que permitiu a maturação do petróleo. A camada está a 7 km de profundidade a partir do solo marinho e consiste em um volume monstruoso de óleo, principalmente na bacia de Santos (que vai desde Florianópolis ao Espírito Santo). A partir dessa descoberta, o Brasil pode passar a constar entre os três principais produtores de petróleo mundial.

Anderson Mancuso, diretor do Sindicato dos Petroleiros do Litoral Paulista, foi convidado pela expedição para fazer uma apresentação sobre o tema. O encontro ocorreu no alojamento dos caminhantes em Santos e resultou num interessante debate. Anderson defende que o Pré-Sal não é uma discussão restrita – deve ser feita por todos os brasileiros; e não é isolada, por ser transversal a diversos temas estruturais, entre eles a soberania nacional, questões ambientais e sociais. “Esse é um momento ímpar, pois fomenta a questão da soberania nacional: continuaremos entregando nossas riquezas?”, provoca Mancuso.

O diretor acredita que hoje a geração de energia está voltada para a produção de lucros, não para suprir as necessidades sociais. Essa é uma oportunidade para revermos a lógica de exploração dos recursos e o investimento público resultante. A descoberta do Pré-Sal faz do Brasil um alvo internacional, por isso é necessário desenvolver um projeto político de gestão das nossas riquezas naturais como um todo.

A legislação e a soberania

O atual modelo de exploração do petróleo brasileiro data de 1997, quando o governo de Fernando Henrique Cardoso quebrou o monopólio estatal. Tal postura bate de frente com os princípios da campanha O Petróleo é Nosso, que em 1954 resultou na fundação da Petrobras. O modelo de concessão de FHC consiste no mapeamento dos blocos petrolíferos e sua venda por meio de leilões, cuja dinâmica é controlada pela Agência Nacional de Petróleo (ANP). A empresa vencedora deve cumprir uma série de etapas, mas grande parte da produção fica para o capital privado – pouquíssimo vai para o Estado.

A contradição é que o petróleo é um bem público, não privado. Por isso o modelo atual não condiz com a histórica luta popular pela soberania energética. Mancuso explica que Lula perpetuou o modelo de FHC – o governo petista afirma que na época a lei era apropriada (apesar de que a contestava naquele momento), mas que agora deve ser aprimorada devido ao Pré-Sal. “O filé mignon do Pré-Sal, concentrado em 30% de suas reservas, já foi entregue para multinacionais”, denuncia o sindicalista.

Alguns projetos de lei que buscam avançar na questão da soberania energética já passaram pelo Congresso Nacional. Um deles estabelece o modelo de partilha (“modelo híbrido”), no qual a empresa que ganha a concessão é aquela que cede mais para o Estado – uma espécie de barganha. Contudo esse modelo valerá somente para as áreas ainda não exploradas. Mancuso acredita que esse sistema mantem a lógica de entrega das nossas riquezas naturais. Já Bruno Tarsis, militante do movimento estudantil e participante da caminhada, defende que o modelo de partilha já é um avanço. “O ideal seria que a Petrobras voltasse a ser 100% estatal e obtivesse o monopólio de exploração do petróleo nacional. Mas como isso não é possível na atual conjuntura, o modelo de partilha ao menos direciona parte dos recursos ao poder público”, argumenta.

Construção de um novo projeto

O debate comprovou o que Mancuso havia dito: a discussão do Pré-Sal é transversal a diversos temas e diz respeito a toda a sociedade. Ana Estrella Vargas, socióloga e caminhante Donde Miras, questionou inclusive se devemos explorar o petróleo. “O que acontece quando tiramos essa substância tão profunda que está há tanto tempo sendo produzida pela terra? Quais os efeitos colaterais disso?”, indagou.

O fato é que os danos ambientais são irreversíveis, por isso temos que repensar nossa lógica e encarar o Pré-Sal como um recurso estratégico a ser explorado com responsabilidade. “Temos que transpor a visão produtivista e pensar em novas formas de energia, inclusive utilizando os recursos advindos do próprio Pré-Sal para desenvolver novas tecnologias”, indica o sindicalista.

A crise que enfrentamos não é somente econômica, mas estrutural. Por isso a urgência de construirmos novas formas de relação entre os seres humanos e destes com o meio. Existem várias pessoas se dedicando a criação de um projeto alternativo. A Expedición Donde Miras alimentará esse debate ao longo da caminhada, pois também entende que esse tema diz respeito a todos nós. Todas as formas de conscientização podem fazer parte desse projeto – o desafio é conseguir de fato dialogar e construí-lo coletivamente.

Veja mais sobre a Expedición Donde Miras aqui

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domingo, 27 de dezembro de 2009

Donde Miras – Pé na estrada

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Onze horas da noite do dia 26 de dezembro na rodoviária de Curitiba. Malas, corpos, confusão e ansiedade. Para onde vão todas as pessoas? Sonhos, obrigações, reencontros, destino e vontade. O limbo daqueles que ainda não foram.

Minha ansiedade mira. Os andarilhos já haviam saído de São Paulo para a largada oficial de mais uma caminhada da Expedición Donde Miras, o quarto trecho, agora de Santos a Paraty. Ânsia de passos, versos, cores e timbres. Será um mês de caminhos percorridos, saraus, poesia, fotografia, cinema e teatro – cultura a cada passo.

Meu ônibus percorreu as horas mortas paranaenses e paulistas. Pinga lá, pinga cá, desembarco às seis da matina em Santos. Minha referência é o alojamento cedido pelo Sindicato dos Bancários – silêncio matutino, o descanso dos que caminharão. “Abre a porta pra mim, Donde Miras”. Luan sonolento me recebe – a cidade dorme.

Barracas, colchões e cozinha improvisada. Eu descanso da viagem conturbada enquanto aos poucos os caminhantes despertam – feliz reencontro. É o início de mais um ciclo de troca e mutação. As trilhas da América Latina se abrem.

Veja mais sobre a Expedición Donde Miras aqui.

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quarta-feira, 11 de fevereiro de 2009

Donde Miras – Macaco louco

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Bruno macaqueando. Itu, janeiro de 2009.

 Donde Miras   Macaco louco

 Donde Miras   Macaco louco

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segunda-feira, 26 de janeiro de 2009

A minha liberdade é real enquanto os meus pés não tocarem o chão

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Arte urbana de DW. Tatuí, interior paulista, janeiro de 2009.

 A minha liberdade é real enquanto os meus pés não tocarem o chão

 A minha liberdade é real enquanto os meus pés não tocarem o chão

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terça-feira, 20 de janeiro de 2009

Impressões caminhantes (Cabreúva – Porto Feliz)

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De Pirapora do Bom Jesus fomos para Cabreúva, caminhando pela rodovia. Saindo da cidade, o percurso foi se mostrando cada vez mais agradável. Árvores margeando a estrada, pouco movimento de carros, muitas curvas,  sitiozinhos, vira-latas, bicicletas e moradores da região, quase sempre dispostos a ouvir um boa tarde e responder um tarde!

Andei muito tempo sozinha, cantando pelas estradas, e sozinha cheguei em Cabreúva. Indicações: Suvacão, perto da matriz e da Santa Casa. Suvacão? Na hora de pedir informação, fiquei receosa. Ééé, você sabe me dizer onde fica o… Suvacão?  Podia ser pegadinha da galera da produção. Mas não era, Suvacão é como chamam o ginásio da cidade. Adivinha por que?

Feliz Ano Novo

Era 31 de dezembro. Todos cansados da caminhada – aliás, das caminhadas, dos saraus, das informações, da intensidade das experiências. Num consenso calado, foi decretado dia de descanso. E os caminhantes passaram o dia estirados sob a sombra de uma árvore.

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Romeu cochilando, Jaime e seus amigos filhotinhos – Suvacão, Cabreúva.

Foi no Suvacão que comemoramos o ano novo e conhecemos Jaime, o caminhante canino. No dia seguinte realizamos mais um sarau - as pessoas sentadas na escadinha da matriz, o senhor cabreuvano contador de história, a jovem cantora de pop/rock e os dondemirantes, terminando com a tradicional ciranda.

Itu

Mais um dia, mais uma caminhada. Desta vez o destino era Itu, a cidade conhecida por suas coisas grandes. Estrada de asfalto, chuva e, na barragem da hidrelétrica, um tapete infecto de espumas brancas que só o Tietê proporciona para você. Fomos recebidos na Biblioteca Comunitária Prof. Waldir de Souza Lima, que abriu suas portas para a nossa bagunça. O espaço é agradável e estruturado, porém não foi planejado para alojar 25 pessoas. Mas agente sempre dá um jeitinho. Empilha!!!

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Praça da matriz em Itu, local do sarau.

Itu é uma cidade média, com ar de interior, que teve relevância histórica e econômica durante o ciclo do café.  De grande, somente monumentos como o orelhão e o semáforo gigante. Essa fama pegou com um humorista da televisão que dizia que tudo em Itu era grande.

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Gunnar, Zinho, Manu e Franja mandando o som em Itu.

Foi muito gostoso caminhar pelas ruas tranqüilas da noite ituana. Mas sem sombra de dúvidas o ponto alto de nossa passagem pela cidade foi o sarau. Bruno encarnou o macaco louco, subindo em árvores e macaqueando. Paula nos deu o prazer de ouvir sua incrível voz, à capela e acompanhada por Gunnar. Os poetas Serginho, Binho, Laureate, Luan, Toninho e a poeta-mirim Potyra recitaram seus versos, numa noite em que tudo pareceu confluir. Tânia cantou suas raízes chilenas, David gritou, Dani declamou. Nossos anfitriões da biblioteca comunitária participaram com poesia e rap. Manu, Franja, Zinho e Peu levaram a roda para o coreto e a dança pegou fogo. Manuel, inclusive, fez uma oficina espontânea de coco em plena praça. E Nana surpreendeu a todos, cantando os versos que ouvimos no sarau em Pirapora - ai mataram meu carneiro, ô/ ai, cortaram os quatro pé, os quatro pé/ não quero saber de nada, quero o meu carneiro em pé.

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Samba no coreto - Luan.

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Platéia do sarau em Itu.

Caminho encantado do Jacu

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Toninho Poeta, o calango flash, na estrada do Jacu.

No dia seguinte, fomos para Porto Feliz. Após um impasse se iríamos pela rodovia Castelo Branco ou pela Estrada do Jacú, optamos pela segunda opção, felizmente. Temíamos atoleiros e muita lama, mas a estradinha estava perfeita para caminhar. Fazendinhas, cana e muitos, muitos parreirais. Estávamos eu, Bruno e Camilla, caminhando entre a floresta encantada das uvas. Não resistimos. No segundo vendem-se uvas batemos palma, e fomos convidados a entrar. O senhor, de cerca de quarenta anos, nos deixou experimentar as uvas, nos deu água e contou um pouco de sua história. Há trinta anos ele mora naquele sítio com sua família; antes, morava em outro sítio nas redondezas. Perguntamos onde ficava o Tabarro, ponto de encontro da expedição e ele nos indicou o caminho. Mal sabíamos que estávamos  no caminho errado – distraídos, não seguimos as indicações e demos a maior volta. Fomos os últimos a chegar ao Tabarro e estavam todos preocupados. Mesmo assim resolvemos caminhar os quilômetros que faltavam, junto com Manu, Paula e Potyra. Caminho florido de conto-de-fadas e manga no pé.

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Potyra colhendo manga.

Em Porto Feliz, nos alojamos no centro de exposições, algo como um ginásio. Nesta noite de domingo, 05 de janeiro, a expedição comemorou um ano. Mesmo exaustos, comemoramos com bolo, também com uvas e vinho comprados no caminho. A caminhada tem alma, que cresce, cresce, contaminando o coração daqueles que caminham. Cuidado: é irremediável.

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Um ano de Donde Miras em Porto Feliz - risadas de Nana e Zinho.

Segunda-feira, com a expedição reduzida, conhecemos o museu e o parque da cidade. Abaixo segue um pouco do que aprendemos nessas visitas:

No ano de 1693, nas terras de Antônio Cardoso Pimentel, um povoado começou a se formar junto à margem esquerda do Rio Anhemby (atual Tietê), num ponto distante pouco mais de 100 Km de São Paulo. O local era conhecido como “Araritaguaba” (que significa: “lugar onde as araras comem areia”) – nome dado pelos índios guaianazes que habitavam a região, em virtude da freqüência com que bandos dessas aves bicavam um salitroso paredão ali existente.
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O tal do paredão salitroso.

O povoamento teve início quando o dono das terras resolveu habitá-las, juntamente com seus familiares e empregados, numa época em que vários sertanistas decidiram abandonar o Bandeirismo pela Agricultura. Era uma comunidade simples, que cultivava o solo apenas para a sua subsistência. No entanto, quando a notícia da descoberta de ouro em Mato Grosso (1719) e Goiás (1725) espalhou-se pelos quatro cantos, a movimentação no vilarejo e o seu conseqüente progresso foram inevitáveis. Por sorte, ele havia-se desenvolvido em torno de um estratégico porto natural junto ao primeiro trecho navegável do rio depois de Salto. Um local que serviria de ponto de partida, ainda no século XVII, de inúmeros bandeirantes, em busca das riquezas anunciadas. No século XVIII, partiriam também as famosas monções – expedições comerciais e científicas. Todos se aventuravam pelo grande manancial, repleto de perigosas corredeiras e obstáculos, rumo ao desconhecido oeste.

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Do museu, as torres da igreja - Porto Feliz.

Essas informações foram retiradas do site http://www.explorevale.com.br/roteirodosbandeirantes/portofeliz/historia.htm, que possui informações históricas mais detalhadas.

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Zinho passeando no parque - Porto Feliz.

À noite, o sarau não contou com muitos participantes, tanto da cidade quanto da expedição. No dia seguinte caminharíamos para Boituva, com os pés calejados e o espírito donde miras.

Não sou daqui nem sou de lá, eu sou de qualquer lugar
Meu passaporte é espacial, sou cidadão da terra
E a minha vida é toda verdade e eu não tenho mais idade
E o meu passado é o meu futuro,
E o meu tempo é o infinito
A minha língua é o pensamento, só falo com o olhar
Minha fronteira é o coração de todos meus irmãos

E a minha vida é toda verdade
E eu não tenho mais idade
E o meu passado é o meu futuro
E meu tempo é o infinito…

Sérgio Dias/Liminha

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quinta-feira, 15 de janeiro de 2009

Impressões caminhantes (Barueri – Pirapora)

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A Expedición Donde Miras partiu em seu terceiro trecho, rumo a Botucatu, no dia 27 de dezembro. Nos encontramos no metrô do Campo Limpo e seguimos de trem até Barueri, onde realizamos o primeiro sarau da caminhada. Muitos rostos sorridentes, apreensivos, de quem dá o primeiro passo rumo ao desconhecido.

Luan, Toninho Poeta, Zinho Trindade, Dessa, Binho e Gunnar, entre outros, conduziram o sarau com música e poesia, contando também com a participação de um músico da cidade. Após o sarau, a companhia de teatro carioca Tumulto, da Cidade de Deus, contagiou a praça com sua apresentação, um chocante desabafo da contradição da vida na periferia.

De lá fomos para Santana do Parnaíba, passando por uma linda estrada em Aldeia da Serra. Incrível como é tênue a fronteira entre cidade e interior – de uma hora para outra estávamos com os pés na terra e sob a sombra das árvores. Entre a cruz e o despacho na beira da estrada dançava o sincretismo religioso, tão marcante em nossa cultura latino-americana.

Chegando em Santana do Parnaíba, sentamos para descansar no bar e pesqueiro Lago Azul e fomos surpreendidos por um casal e sua filha numa apresentação de roda de viola. Definitivamente, a metrópole havia ficado para trás. Crianças soltando pipa indicavam que não é preciso ter pressa, necessário é usufruir.

Nesta cidade, o sarau não ocorreu na praça central, como costuma ser – foi na quebrada, mais precisamente na Vila Esperança. Na tarde do dia 28, saímos com a bicicloteca pela periferia, e surgiu a idéia de fazermos um sarau por lá, afinal nem o sistema de lixo lembra que aquele lugar existe, quanto mais as (escassas) políticas culturais. Dona Maria abriu as portas de sua casa, com muito amor e atenção, e a criançada tomou conta do sarau. Tonho, o macaquinho de Penha, teve sua noite de glória.

 

As sinistras espumas do Tietê

A caminhada para Pirapora do Bom Jesus foi sofrida, sol estalando na cabeça em plena rodovia. Desviamos por uma estradinha de terra em busca do oásis – sombra, sorvete e lago. Chegando em Pirapora não resisti à mangueira, para surpresa da senhora que lavava sua calçada. Ficamos alojados na casa do samba, uma delícia de lugar. Infelizmente não chegamos a conhecer o samba de roda de Pirapora,  pois o grupo local está parado por desentendimentos internos.

Ainda não havia visto o Tietê cortando a cidadezinha, mas ele é onipresente. Seu fedor está em todos os lugares, não adianta fugir, não adianta se esconder. Rondando a cidade vi suas sinistras espumas branco-acizentadas, consequência da depuração do rio que tenta se limpar dos vestígios da megalópole, mas ufa!, é imundície demais meu deus!

O sarau reuniu muita gente da cidade – teve blues com viola, poesia de Carlos Drummond sobre as fétidas espumas de Pirapora, clown, dança do ventre, samba… estava bom demais. Após o sarau, a interação continou na praça paralela, mesclando piraporenses e dondemirantes num só som.

 

Milagreiro

Pirapora do Bom Jesus, assim como Santana do Parnaíba, faz parte da rota religiosa, devido às romarias que ocorrem na região em busca das graças do Bom Jesus de Pirapora.  Essa história dos milagres surgiu no século XVIII, quando pescadores encontraram no rio uma imagem de Jesus em tamanho original, conservada até hoje na igreja da cidade. A estátua foi guardada num paiol, que durante a noite pegou fogo. Enquanto tudo ao redor ardia e se transformava em cinzas, a imagem permaneceu intacta.

Após esse primerio milagre, tentaram levar a estátua para a igreja matriz em Santana do Parnaíba, que na época abarcava o atual município de Pirapora. Colocaram a imagem no carro de boi e seguiram caminho. Quando estavam prestes a deixar Pirapora, o carro de boi empacou. Não teve santo – nem homem, nem cavalo, nem boi – que fizesse a roda girar. Nesse momento um surdo-mudo soltou a voz dizendo “a imagem do Bom Jesus deve ficar em Pirapora”. Após mais esse milagre, a devoção pelo Bom Jesus atingiu em cheio o coração dos fiéis e muita gente passou a vir de longe para fazer suas ofertas e pedidos. Muitos casos de milagres são contados desde então.

Os senhores devotos se alojavam de um lado da cidade – os  escravos tinham de ficar do outro lado do rio, que só podia ser atravessado a barco. Acontece que os negros davam um jeito de atravessar o rio para cultuar a imagem (seja por devoção ou por esperto disfarce), até que a primeira ponte foi construída e o samba invadiu a cidade.

Pirapora é uma cidadezinha agradável –  casinhas coloridas, coreto, clima de interior. Para ser perfeita, só faltava o rio ser limpo. O nome Pirapora tem origem guarani e significa “peixe que pula”. Pulava. Até algumas décadas atrás podia-se pescar e tomar banho no rio. Hoje, sobre as águas, boiam as nuvens podres, prova acusatória contra nossa civilização.

Assim como em Santana do Parnaíba, em Pirapora o que não falta é polícia. Um exagero visual, viaturas por todos os lados. E a cidade pacata, indiferente às armas e às luzes vermelhas-azuis. Em contraponto, poesias, poesias ao vento, surfando os ares, navegando as terras desse interior caipira-pora.

 

Currtura

E onde está a cultura caipira? O que é essa cultura? A música que se ouve no interior não vem do canto da viola, é aquela massificada, a mesma da capital. Putz, putz, vou atolar. A cultura de raiz não está escancarada e perde espaço, se desidentifica, mas ainda se conserva na tranquilidade, no sorriso frouxo, na hospitalidade, no tempero, na estrada de chão margeada por suas vaquinhas. Fruta, criança no pé, formigueiros colossais, árvores majestosas e gente que olha no olho e diz bom dia, normalmente seguido de algum comentário espontâneo, livre.

Gunnar comentou que o caipira é o vencido, o bandeirante que largou mão de sua missão de desbravar. Mas a palavra “vencido” não me convenceu. Imaginem se todos os bandeirantes tivessem olhado o límpido rio Tietê, com seus peixinhos pulando, fumado um cigarro de palha e resolvido viver em paz, sem subjugar índios ou escravizar negros. Vencido não. Plácido, plácido caipira.

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quarta-feira, 7 de janeiro de 2009

Donde Miras São Paulo – Botucatu

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A Expedición Donde Miras está em sua terceira edição, promovendo música, teatro de rua, performance, poesia e cultura popular. São cerca de 25 pessoas, entre elas atores, escritores, cineastas, artistas plásticos, músicos, dançarinos, produtores culturais, poetas, educadores, fotógrafos e caminhantes interessados em arte e cultura, comprometidos ativamente com a produção e difusão cultural na cidade de São Paulo, principalmente em suas regiões periféricas. O objetivo da caminhada é conhecer e construir um quebra-cabeça da cultura latino-americana, trocando experiências artísticas e resgatando a cultura popular.

A expedição partiu de São Paulo no dia 27 de Dezembro passando por Barueri, Santana do Parnaíba, Pirapora do Bom Jesus, Cabreúva, Itu, Porto Feliz e agora se encontra em Boituva. Os caminhantes devem chegar a Botucatu, destino final desta caminhada, no dia 20 de janeiro.

Esta é a 3ª edição da caminhada, seguindo os trechos São Paulo-Curitiba e São Paulo-Cananéia, realizados em janeiro e julho de 2008.

Em breve, fotos.

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quinta-feira, 18 de dezembro de 2008

Donde Miras – Meigo

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Kátia cuidando das madeixas do Mascote. Peruíbe, julho de 2008.

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segunda-feira, 15 de dezembro de 2008

Donde Miras – O mendigo e as madames

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Dramatização poética de Toninho Poeta, com participação de Cissa, Joana e Marivone. Peruíbe, julho de 2008.

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segunda-feira, 10 de novembro de 2008

Donde Miras – Eles

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Gil, Bruno, Primo e Kátia. Barra do Ribeira, julho de 2008.

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