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sexta-feira, 25 de abril de 2014

Índice: Viajeros – nos fluxos da América do Sul

fluxos.mi .cerrado Índice: Viajeros   nos fluxos da América do Sul

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Introdução

Questão de desordem

A vagabundagem em extinção

Borboletas no estômago

Pobre (e rico) Paraguai

Troca de pele

Malabares

Ruínas e “progresso”

Patriotismo multinacional

A lenda do ñanduti

Amém

O país da informalidade

Haciendo dedo

Vida de mochileiro

Admirável mundo novo

Homem primata

As várias faces de Buenos Aires

Mudança de tempo

Considerações finais sobre uma nação

El gaucho y el tango

Uma espiadinha no Chile

De Cochabamba à cidade mais alta do mundo

Sabedorias ancestrais, Oruro e deserto de sal

Entre passeatas e cachoeiras

Bolívia: um outro mundo

Peru andino

Um circo armado pra me convencer

As ruínas de Ollantaytambo

De volta ao Brasil

Vilarejo

Percepções culturais

No caminho de volta ao lar

Aquela tal malandragem não existe mais?

 

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quarta-feira, 12 de setembro de 2012

A vagabundagem em extinção

o cego tocador de sanfona. brueghel A vagabundagem em extinção
“O cego tocador de sanfona”, Brueghel

O sonho original do vagabundo nunca foi definido melhor do que nesse adorável poeminha citado por Dwight Goddard em sua Bíblia budista:

Oh, por esse raro acontecimento
Eu alegremente daria dez mil peças de ouro!
Um chapéu na cabeça, uma trouxa às costas,
E minha companhia, a brisa refrescante e a lua cheia.

Na América houve sempre (…) uma idéia especial e definida da liberdade que significa andar a pé. (…) Acampar é considerado um esporte saudável para escoteiros, mas é crime para homens maduros que fizeram disso sua vocação. – A pobreza é tida como virtude entre os monges das nações civilizadas – na América você passa a noite no xadrez se for pego desprevenido, sem seus trocados para vagabundear (da última vez que ouvi falar nisso eram quinze centavos, parceiro – quanto é agora?).

No tempo de Brueghel, as crianças dançavam ao redor do vagabundo, ele vestia roupas imensas e rotas e olhava sempre em frente, indiferente às crianças, e as famílias não se importavam que as crianças brincassem com o vagabundo, era algo normal. – Mas hoje as mães abraçam os filhos com força quando um vagabundo cruza a cidade por causa daquilo em que os jornais o transformaram – o estuprador, o estrangulador, o comedor de criancinhas. – Fique longe de desconhecidos, eles lhe darão doces envenenados. Embora o vagabundo de Brueghel e o vagabundo de hoje sejam o mesmo, as crianças são diferentes. – Onde se meteu o vagabundo chaplinesco? O antigo vagabundo da Divina Comédia? O vagabundo é Virgílio, ele foi o precursor. – O vagabundo penetra no mundo infantil (como no famoso quadro de Brueghel onde um enorme vagabundo cruza solenemente pela vila de tina de lavar roupa e os cães latem e as crianças riem, St. Pied Piper), mas o mundo hoje é adulto, não é mais um mundo infantil. – O vagabundo hoje é forçado a agir furtivamente – todos ficam assistindo aos heróis policiais na TV.

Trecho do Viajante solitário, de Jack Kerouac

Tava lendo meu TCC esses dias, o livro-reportagem Viajeros. Ele contava com uma parte teórica, e esse trecho do Viajante Solitário constava nela. Vai ser incorporado à nova versão do livro. Será que um dia sai??

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terça-feira, 10 de janeiro de 2012

Viajeros – Aquela tal malandragem não existe mais?

Às vezes queria ter nascido em outras épocas. Poder explorar o mundo como o alucinado Jack Kerouac, desbravando Méxicos, Marrocos, Europas e sinistros rincões do Tio Sam na sua vagabundagem evolutiva. Aldous Huxley, Humboldt, Mário de Andrade, eles sim sabiam o que era o choque de culturas, o inesperado, novo, rico, e acima de tudo, a troca. Agora não. Os postos de fronteira decidem quem entra e quem fica, determinam um prazo limite de permanência no país. Isso sem falar da Interpol. Ninguém merece. Um organismo internacional que perde seu tempo na caça de inofensivos artesãos que só querem ter o direito de trabalhar em paz enquanto as quadrilhas de tráfico internacional e os criminosos de colarinho branco continuam alvoroçando o mundo.

O turismo deturpou as culturas, transformando-as em produtos embalados segundo as tendências do mercado. Os dólares são gastos pelos turistas, disputados pelos nativos miseráveis e a troca já era. O nativo não tem nada para falar com o turista playboy e o turista se sente explorado pelo exótico nativo. Dois mundos se cruzam, porém não interagem para além do comércio. Business.

Aí surgem os rótulos: boliviano preguiçoso, argentino petulante, peruano trambiqueiro, brasileiro folgado. Ninguém se entende e nem quer se entender. As coisas são simples e resumíveis a rótulos.

É, às vezes parece que o tempo do mochileiro livre acabou. Os caminhoneiros não podem mais dar carona, seus caminhões são controlados por satélite e cada porta aberta é monitorada. O medo se infiltra em cada ângulo das situações sociais. Terrorismo, narcotráfico, homicídios, assaltos – e o viajante no meio desse cenário caótico recebendo olhares desconfiados.

Mas ainda é possível. Tem que ter jogo de cintura, mas a experiência ensina. Há muito o que conhecer, apesar de a globalização impor seus padrões em nome de um pretenso desenvolvimento. O sol ainda nasce no Atlântico e se põe no Pacífico. Os argentinos tomam mate e os bolivianos mastigam coca. Ainda há resquícios de originalidade, e a dinâmica global se adapta de diferentes formas aos contextos locais. Nem precisa procurar muito – é uma questão de abrir (ou fechar) os olhos.

Jack Kerouac, no final da década de 50, nos anos pós-guerra da radiante aurora da sociedade do bem-estar, viu o final do vagabundo – o verdadeiro vagabundo, não o vadio. “Malandro é malandro e mané é mané”, já dizia Bezerra da Silva. Chico Buarque eternizou a decadência da malandragem. Já não existe mais. A polícia, o padre, a família, o mercado de trabalho, tudo isso matou o malandro de Chico e o vagabundo de Kerouac, que subvertiam os valores predominantes.

É cada vez mais difícil acordar da Matrix – os programas se refinam mais e mais. O vagabundo vê que nada disso faz sentido. “Eu queria ser burro, não sofria tanto”, lamentou Raul Seixas. Mas se fosse burro não seria genial. A mudança dói. Mas a dor é inerente à metamorfose, e acaba virando serenidade, apontando novos caminhos. O covarde dá meia volta. O viajante vai.

 

Esse é o último texto do livro que apresentei como TCC em 2007: Viajeros – nos fluxos da América do Sul. Revisei o livro nesse blog por meio de posts. Essa vida de estrada é muito viva. Dá saudade.

Veja o post anterior.

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sexta-feira, 23 de setembro de 2011

Viajeros – No caminho de volta ao lar

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Após aproximadamente um ano de viagem estou de volta a Blumenau, cidade onde nasci e vivi até os dezessete anos. É um estranho processo – voltar à casa onde morei por tanto tempo, rever meus pais, o clima e a vegetação que falam tanto de mim mesma. A palavra voltar não faz jus a essa experiência. Ao mesmo tempo em que tenho algumas características e padrões de comportamento que parecem ser eternos e sólidos como raízes, já não sou a mesma pessoa que entrou num ônibus para Assunção cerca de um ano atrás. O mesmo em relação às outras pessoas e lugares e aos dias. É sempre a mesma coisa, só que tudo diferente.

A última carona

Deixamos Porto Velho com o objetivo de pegar carona até Cuiabá; de lá eu seguiria para Teresina de Goiás, Thiago passaria por Campo Grande e depois me alcançaria em Goiás. O plano de carona não foi muito bem sucedido – em uma semana na estrada, acampando em postos de gasolina, só conseguimos uma carona longa, mas não o suficiente. Chegamos até Comodoro, no Mato Grosso, mais ou menos na metade do trajeto até Cuiabá. Nessas horas as economias são uma bênção. Decidimos nos separar ali mesmo, cada um seguindo de ônibus para o seu destino.

Anos depois, lembro do caminhoneiro que nos deu carona. Se não me engano o apelido dele era Tyson, e já tinha sido professor de alguma arte marcial. Ao entrar no caminhão ele pediu pra gente tirar os sapatos, falou que não era por mal e que já ficava como dica: o caminhão é como se fosse a casa do caminhoneiro. Ele ofereceu pagar rango pra gente, quando paramos pra descansar um pouco num boteco de estrada. Quase todos que nos deram carona, nas rodovias argentinas e brasileiras, ofereciam alguma coisa. Dessa vez não precisei aceitar, em outras foi a salvação. Ele contava histórias de namoradas, da família, da vida na estrada e de outros caminhoneiros. Falou muito da filha, e resolveu dar uma passada na sua casa, que era meio que no caminho, só para dar um abraço nela. Entramos na casa, tarde da noite, acho que a mãe dele que abriu o portão, alguém mais velho. Ele foi acordar a filha só para abraçá-la. Foi rápido, ele tinha que cumprir o prazo de entrega da carga. De volta ao caminhão, eu e Thiago capotamos – o caminhoneiro também estava cansado e deu uma indireta forte, que um dos motivos para dar carona era ter alguém para conversar e ajudar a tapear o sono. Endireitamos a coluna e nos esforçamos.

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segunda-feira, 20 de dezembro de 2010

Viajeros – Percepções culturais

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percepçoes culturais 1024x679 Viajeros   Percepções culturais

 

O que é cultura? Essa pergunta sempre surge quando queremos organizar as percepções culturais em nossos arquivos cerebrais. Mas talvez o inconsciente saiba a resposta para esta pergunta, ou ainda, nem se preocupe com ela. Ele simplesmente sente, vive, assimila ou não, faz associações com nossas experiências anteriores, nossa carga emocional, de uma maneira que vai além de nossas concepções racionais. Mas somos viciados nas palavras, nos conceitos. E através deles nos comunicamos. Por isso, me propus a transmitir minhas recentes sensações culturais em palavras, por mais limitadas que estas sejam.

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domingo, 22 de agosto de 2010

Viajeros – Vilarejo

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internet2 Viajeros   Vilarejo

Sítio Arco-íris. O por do sol daqui é lindo – nuvens de algodão doce de Rondônia amareladas e rosadas. O fiel súdito vento anuncia a chuva, dando uma noção prévia do seu poder, trazendo consigo nuvens densas e promessas de vida. Ela, a Majestade, vem pelo lago – do outro lado as árvores já estão envoltas numa espécie de névoa aquática. Quando todos estão preparados para recebê-la, a chuva chega – momento de paz e quietude.

Porto Velho estava um saco. A paradoxal cidade amazônica onde não há árvores. Muito trabalho, pouco dinheiro. No auge do tédio, escrevi um poema-desabafo:

O tédio me envolve
com paredes de azulejos brancos,
conversa de novela vindo da sala de um hotel barato,
vestígio de goteira,
cheiro de mofo.

O tédio amarra meus pés e mãos na cama,
hipnotiza minha cabeça para achar tudo um saco.

Porto velho, novo, morto e eterno.
Eterno tédio que se faz vapor,
calor, gotas de suor.

Calypso infernal amolece minhas pernas,
aborta a sede do novo,
me tranca num quarto com as mãos nos ouvidos.

O tédio me tece um ninho, me faz cafuné,
minha musa, meu carrasco,
meu bicho de pé.

Até que um dia, enquanto trabalhávamos, um menino veio falar conosco. O nome dele era Alan, disse que vivia num sítio e que seríamos muito bem-vindos lá. A história é a seguinte: Jackson, um cara que já foi artesão-viajante e percorreu muita estrada, sempre buscou algo, estudou várias religiões e linhas esotéricas, até que decidiu morar num sítio, primeiramente sozinho. internet3 Viajeros   VilarejoDepois de uns anos sua mulher, Cláudia, e seus filhos, que viviam na cidade, também foram para lá. Eles se sustentam com a cerâmica e os tapetes que produzem, e recebem quem quer que seja, é só contribuir com comida, colaborar nos afazeres e respeitar a harmonia do lugar. Também vivem lá o acreano Leandro, a argentina Veronica e Valéria, irmã de Cláudia. Há quatro ou cinco dias Valéria deu à luz a uma criança linda, o Ba’aruda, que trouxe mais alegria e paz ao sítio.

Nasce Ba’aruda

O Santo Daime

O pessoal do sítio freqüenta uma igreja do Santo Daime. Trata-se de uma corrente cristã que utiliza em seus rituais uma bebida elaborada a partir de plantas que altera a consciência e que, segundo Jackson, desbloqueia um mecanismo de censura do nosso cérebro. Essa bebida é conhecida no Peru e na Bolívia como ayahuasca, parte de uma tradição indígena, usada até hoje em rituais de auto-conhecimento e purificação física e espiritual. A bebida foi legalizada no Brasil depois de estudos comprovando que ela não oferece riscos à saúde.

“Sabe aquela sujeirinha debaixo do tapete, que só você sabe que tá lá? Vem tudo à tona”, me disse um maluco brasileiro no Peru sobre a experiência com o ayahuasca. Jackson e Alan dizem que o Daime aponta um caminho, faz compreender os processos que ocorrem na vida e leva além desse mundo físico espacial-temporal que conhecemos.

Ao contrário do que algumas pessoas podem pensar, a igreja do Santo Daime é bem careta – eles usam farda, uma roupa cerimonial que mais parece roupa social, e os homens têm que estar com cabelo cortado e barba feita. Nas cerimônias eles cantam os hinos, que falam de Deus, do Daime, do Mestre Irineu – o fundador do Santo Daime -, entre outras coisas.

O Daime é feito do jagube, que é plantado por membros da igreja, num processo de muito cuidado desde o plantio até a preparação. Os fardados elaboram a bebida na cerimônia do feitio.

Retiro espiritual

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Valéria nos últimos dias de gravidez

Aqui no sítio encontrei sossego, pessoas tranqüilas que trilham um caminho de aperfeiçoamento e ar puro. É um lugar lindo, repleto de árvores, às margens de um lago. O único infortúnio foi o desenvolvimento de uma doença no meu pé. Uma bactéria, o estafilocócus, se instalou em feridas de picada de insetos, creio que no fétido hotel em Porto Velho. Thiago também está infectado, mas em menor proporção. Aprendi a usar a necessidade de não poder me movimentar muito a meu favor aproveitando para ler, pensar e aprender bastante.

Depois de quinze dias tentando tratar minhas feridas de forma natural, o que exigia toda uma rotina diária de cuidados, me rendi à alopatia: tomei um “pics” de benzetacil no bumbum. Agora é esperar melhorar e seguir caminho – a estrada chama.

 

Esse texto faz parte do livro Viajeros, que foi publicado em posts nesse blog.

Veja o próximo post.

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sábado, 26 de junho de 2010

Viajeros – De volta ao Brasil

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Feijão, farofa, água de coco. Voltar a falar e ouvir português. O jeito aberto dos brasileiros. Deixar para trás o castelhano, a riquíssima cultura andina, a deliciosa e variada culinária peruana e o desafio de estar em outro país. Mas a expectativa de conhecer um pouco do Brasil que não conheço, do qual sempre ouvi falar, do qual dizem que eu faço parte; essa exploração da própria pátria me deixou ansiosa por chegar.

Peru tropical

De Cusco partimos para Puerto Maldonado, já na floresta amazônica. Apesar de ser a capital da região, a cidade é pequena e tranquila. Muito calor, sol, frutas e sucos. As pessoas pareciam mais receptivas, quentes, assim como o clima. Ficamos na casa de César – ele nos ofereceu abrigo sem nem nos conhecer direito. Estava vendendo artesanato no centro da cidade, quando esse rapaz veio falar comigo. Disse que não tinha dinheiro e perguntou se podia só ficar olhando. À minha afirmativa, ele foi puxando assunto e, ao saber que eu era brasileira, começou a falar de futebol. Perguntei se ele sabia onde poderíamos acampar. “Não tem problema se for num lugar simples?”, ele contestou. Claro que não tinha. A casa, assim como ele, era realmente muito simples – estrutura de madeira e banheiro de fossa no quintal. Nem precisamos armar acampamento, ele nos abrigou dentro de sua casa. Ficamos lá mais ou menos uma semana.

Encontramos Kae e Gina, artesãos peruanos que já havíamos cruzado em Arequipa. No último dia em Puerto Maldonado, todos vendemos surpreendentemente bem. “Quando chega uma onda de boa sorte, outra de má está vindo”, alertou Kae. O pior é que ele estava certo.

Chegamos até a última cidade peruana antes do Brasil pedindo carona. Muita selva, estrada de terra, cheiro de mata. E insetos, muitos insetos. A única maneira de ir a Assis Brasil, município acreano na divisa com o Peru, era de táxi. Ao chegar, já pudemos perceber nitidamente a diferença: os traços indígenas já misturados com brancos e negros, pessoas mais altas, ruas pavimentadas e a cidade mais arrumadinha. Comemos num restaurante por quilo, coisa que não lembro de ter visto no Peru – arroz, feijão, farinha, macarrão e salada. Que delícia. E bem mais fácil negociar um prato sem carne em português.

Acre, deveras acre

No mesmo dia tomamos um ônibus para Rio Branco. Percebemos que do lado brasileiro a selva foi trocada pelo asfalto. Tudo devastado, transformado em pasto. No lugar de árvores, gado. E chegou a tal da onda de má sorte. Só conseguíamos dinheiro para comer e pagar o hotel. Rio Branco é bem ajeitada, muito diferente do que eu poderia imaginar, mas sem nenhum grande atrativo. Na mata o interessante não é a cidade – é a mata.

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Esperamos carona três dias num posto na saída de Rio Branco

Conhecemos os malucos e micróbios. Nos países hermanos que percorremos, quem trabalha com artesanato é artesão; quando é um viajante, provoca interesse nas pessoas com sua aura lúdica e suas histórias longínquas. No Brasil não existe artesão: é maluco, micróbio ou hippie, e geralmente desperta cautela ou desprezo. A coisa aqui é bem mais marginalizada.

O micróbio vai com a roupa do corpo aonde for, dorme em qualquer lugar, fala o que quer na hora que quer. “Micróbio não tem medo de nada”, canta Ventania com sua voz estragada. Até agora não tivemos problema com ninguém, a convivência tem sido boa. Mas acabamos nos distanciando, trabalhando mais isolados, buscando a tranquilidade.

Decidimos ir para Porto Velho. Encontramos Kae novamente em Rio Branco, ele estava sozinho e decidiu ir para a estrada pedir carona com a gente. Dormimos duas noites num posto na saída da cidade – nenhum caminhoneiro queria nos levar. Conseguimos carona até um povoado uns quilômetros mais para a frente. Tivemos que dormir lá, numa escola abandonada. Nossa janta: arroz com cebola e molho de tomate cozidos na latinha com álcool. Era tudo que tínhamos. No dia seguinte decidimos nos separar: carona em três seria difícil, ainda mais que os motoristas dirigiam um olhar bastante desconfiado ao peruano. Engraçado que no país mais violento da região os estrangeiros que carregam a fama de ladrão.

Consegui convencer um caminhoneiro a levá-lo, apesar de que iria apenas uns quilômetros mais adiante. Acho que o azar estava com ele – eu e Thiago conseguimos uma carona de cerca de 200 km logo depois. Descemos em plena estrada, prontos para mais uma maratona de espera – mas a sorte parecia voltar: o primeiro carro que passou parou ao nosso sinal e nos levou até Porto Velho.

 

Esse texto faz parte do livro Viajeros, que foi publicado em posts nesse blog.

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quarta-feira, 5 de maio de 2010

Viajeros – As ruínas de Ollantaytambo

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internet11 Viajeros   As ruínas de Ollantaytambo

Ollantaytambo é uma cidadezinha ainda não tão parasitada pela exploração turística. Os moradores preservam a capacidade de ver os viajantes como pessoas, não somente como alvos de bolsos cheios. As ruas e muros mantêm as estruturas de pedra originais do período incaico e pré-incaico. As construções pré-incaicas eram feitas de pedra e barro, utilizado como rejunte. Já as incaicas utilizavam somente pedras. As ruínas rodeiam a cidade, e algumas podem ser visitadas de graça.

Tá, mas eu vou falar a verdade. Fomos ao celeiro incaico, no alto de uma montanha – onde não é preciso pagar entrada – e tentamos entrar sorrateiramente (mais uma vez, após o fracasso em Machu Picchu) na ruína principal da cidade. O preço era mais acessível que o de Machu Picchu, mas mesmo assim resolvemos nos lançar à sorte. Dessa vez, nada de planos mirabolantes, trilhas secretas e escaladas de muro. Foi quase que obra do acaso: estávamos andando quando vimos um riachinho ao lado das ruínas. Bastava pular e ploft, lá se estava no sítio arqueológico. Fácil demais…

Visita guiada

O vigia percebeu que não havíamos chegado pela entrada: nossas vestes de andarilhos nos denunciavam – brilhávamos em meio às tradicionais roupas bege dos turistas. E lá veio ele falar conosco. Thiago, que desenvolveu uma polida cara de pau durante a viagem, perguntou se não havia nenhuma maneira de resolver a situação e ofereceu vinte pesos ao sujeito. Ele não só aceitou como resolveu fazer o pagamento valer cada centavo: foi nos guiando pelas ruínas.

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As construções incaicas impressionam pela inteligência e funcionalidade – entretanto, sempre com um toque de mistério. As pedras, algumas enormes, eram levadas ao alto das montanhas por um sistema de rolamento e rampas. Os incaicos as cortavam de maneira que encaixassem perfeitamente, sendo inclusive à prova de terremotos.

Chegamos ao surpreendente calendário solar. No solsístio de inverno, os raios de sol, que passam primeiramente pelo “perfil do Inca” talhado na outra montanha, batem perfeitamente na marca esculpida no painel de pedra, onde também está representada a trilogia sagrada da cultura incaica – o condor, o puma e a serpente. O condor representa o mundo superior, a espiritualidade; o puma corresponde ao mundo terreno; a serpente simboliza o mundo subterrâneo, o lugar dos mortos. Tudo isso soubemos por meio das histórias de nosso dedicado guia.

No solsístio de inverno, data apontada pelo calendário solar, é comemorado o Inti Raymi, dia do Pai Sol. Esse dia representa o fim de um ciclo, que corresponde ao período das colheitas, e o início de outro, com a aproximação diária do Pai Sol, que retorna à Terra. É a principal festa do calendário incaico.

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Na hora da despedida, o guia nos apresentou a tuna, a fruta do cacto. Bateu em duas delas com um pano, para derrubar seus microscópicos espinhos, e entregou-as a mim e a Thiago. Docinha e suculenta – irônico que venha de uma planta tão árida.

O equilíbrio entre o macro e o microcosmo

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Há muitas histórias sobre o lugar, a origem de seu nome, a invasão espanhola, mas o que mais valeu à pena foi sentir um pouco de uma sociedade de valores e costumes tão diferentes dos nossos.

Não creio no idealismo embasbacado: há trechos conflituosos nas histórias daqueles tempos, repletos de autoritarismo, disputas e derramamento de sangue. Mas havia uma diferença primordial: o ser humano e a natureza eram tidos como parte de um todo e a tecnologia não obstruía o equilibrío universal.

 

Esse texto faz parte do livro Viajeros, que foi publicado em posts nesse blog.

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terça-feira, 23 de março de 2010

Viajeros – Um circo armado pra me convencer

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Meus amigos e minhas amigas que sonham em conhecer Machu Picchu, sinto informar que a melhor palavra que encontro para definir esse sítio arqueológico dominado pelo turismo é: palhaçada. Bom, vamos começar do começo, ou seja, como chegar lá. Há três opções: pagar o olho da cara e ir de trem de Cusco a Machu Picchu Pueblo; pagar o olho da cara e fazer a “trilha  do Inca”, que dizem ser muito bonita – três dias de caminhada passando por várias ruínas; ou, finalmente, fazer o caminho do andarilho sem grana. Nem preciso dizer que escolhemos a terceira opção.

Como chegar a Machu Picchu de classe econômica

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No caminho para as águas termais de Santa Tereza

Primeiro passo: pegar um ônibus de Cusco a Santa Maria. Você chega lá agradecendo por estar vivo depois de passar por penhascos em estradas de terra deslizante. Aliás, depois de viajar pela Bolívia e pelo Peru, você já se acostuma a esperar qualquer coisa de uma viagem de ônibus. De Santa Maria é necessário ir a Santa Tereza, cruzando montanhas numa estradinha de terra à beira do abismo dentro de uma kombi lotada, passando por povoadinhos de quatro casas que parecem todos iguais – infinitos deja vus. “Ai meu Deus do céu, ai meu Jesus amado” – a criação católica aparece nesses momentos, e o patético medo da morte também. Pior foi na volta, de noite, o motorista alucinado descendo as montanhas como um caubói em dia de rodeio.

Santa Tereza é uma vila tranquila, que apesar da altitude elevada é úmida e quente. Depois de muito tempo víamos uma vegetação tropical, com bananeiras e também muita chuva. Para recarregar as energias, uma boa pedida são as águas termais. Armamos acampamento no próprio local de banho, à noite as piscinas foram só nossas. Mas não era piscina azulzinha não, era de pedra com fundo de areia, mais natural impossível. Delícia.

A etapa seguinte da jornada consiste em caminhar até o trilho do trem, o que leva umas duas horas – também existe um caminhão que faz o transporte para lá. Mas antes disso é necessário sair de Santa Tereza, e o bagulho é roots: um rio vociferante a atravessar – e não é pela ponte: o veículo é uma cesta de madeira pendurada num cabo de aço. Você senta na cesta, ajeita a mochila atrás, e vai deslizando até a metade – rio estupidamente nervoso, mas concentração! – tem que puxar a corda para chegar até a outra margem. Dá medo, mas é bem divertido.

Chegando no trilho do trem, mais três ou quatro horas de caminhada. Aí já é mata fechada. Montanhas verdes, rodeadas no topo por densas nuvens de vapor. É difícil ver o céu azul. Há nuvens o tempo todo e chove quase o tempo todo. O lugar é alucinante – pequenos vales cobertos por selva e água brotando por todos os lados; rios caudalosos, ferozes, indomáveis.

O dia em que não conhecemos Machu Picchu

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Vista de Machu Picchu Pueblo, no caminho entre a cidade e as ruínas.

Novamente encontramos Lucas e Luciana, o brasileiro e a chilena, dessa vez em Cusco. Eles nos passaram um esquema de como entrar em Machu Picchu sem pagar nada: no final da subida para as famosas ruínas, pegar uma trilha no mato que leva até o muro, pular discretamente e se mesclar aos turistas. Na primeira tentativa, num dia pela manhã, fomos barrados no controle da ponte, no sopé da montanha – único caminho para a trilha. Ficamos sabendo que de madrugada não havia vigilância. Fomos lá pelas cinco da manhã – mas, para nossa surpresa, o guardinha já estava no batente.

Decidimos comprar o ingresso mesmo, Lucas e Luciana deviam ter tido sorte, afinal nem nos haviam falado desse controle. No guichê, apresentamos nossos documentos da universidade e o passaporte. “Só aceitamos a carteirinha internacional de estudante”, falou maquinalmente o atendente. “Mas isso comprova que somos estudantes, tem números e carimbos”, argumentei. “Nós só aceitamos a carteirinha internacional de estudante, são regras da empresa”. Tentei mais um pouco, expliquei a situação, mas nada feito. A meia-entrada custa 60 soles, ou seja, a inteira sai por absurdos 120 soles (aproximandamente 80 reais). Confesso que até tínhamos o dinheiro, mas era exploração demais! Optamos por tentar entrar na surdina uma última vez.

No dia seguinte, saímos às três horas da manhã. Um casal de argentinos nos passou os tickets usados deles – com a data do dia anterior e a metade já destacada, mas enfim, poderia ajudar. E, novamente, o guardinha já estava lá. Eu fiz alguma pergunta besta e me pus a olhar o rio e as árvores enquanto ele pedia as entradas para Thiago, que lhe entregou os tickets dos argentinos. Ele pegou sua lanterna e olhou bem as entradas: obviamente percebeu a situação, mas deixou a gente passar. Ufa, que alívio, depois dessa eu tinha certeza que tudo daria certo, que entraríamos de graça em Machu Picchu.

A subida é uma escada de pedras do tempo dos incaicos, no meio da floresta, que vai cruzando a estrada por onde o ônibus-para-turista-com-ar-condicionado-cujo-o-preço-é-um-absurdo passa. É degrau que não acaba mais; para mim, que ainda não estava 100% depois de vinte dias de cama, foi muito cansativo.

A indicação era que deveríamos desviar para a trilha na segunda barraquinha de palha. Pegamos uma entrada na mata em frente à barraca, andamos, andamos e chegamos em outro ponto da estrada e nada de muro. Não podia ser por ali. Voltamos e descobrimos uma trilha ainda mais fechada atrás do quiosque para descanso. Tinha hora que nem dava para ver os pés, de tanto mato. Depois de um certo esforço, chegamos ao muro. Justamente no momento em que eu estava encaixando meus pés nas pedras, já me preparando para pular, surgiu um vigilante.

- Ei, o que vocês estão fazendo aí?

- Explorando novos caminhos – disse Thiago-cara-de-pau.

Nós nos explicamos, contamos que tentamos pagar meia-entrada e não aceitaram nossos documentos, que achávamos um absurdo ter que pagar 120 soles simplesmente para poder entrar e coisa e tal. O senhor veio com uma história que nos levaria até a administradora e falaria com ela para que pagássemos meia-entrada. Cruzamos o sítio arqueológico atrás dele – que lugar impressionante. Chegando à administração, ele apontou a sala e deu meia volta.

A administradora cuspia prepotência, se deliciava com a pequena autoridade que lhe foi outorgada. Entre as grosserias e frases tiradas do discurso oficial, ela disse que tínhamos que pagar ou seríamos deportados e, depois de certa insistência, aceitou analisar nossos documentos da universidade. Para melhorar ainda mais a situação, os documentos tinham ficado no hotel. Thiago desceu a longa escadaria, foi ao povoado, voltou, subiu tudo de novo, e colocou os papéis em cima da mesa dela. Eu tinha um documento no qual constava que eu estava viajando fazendo meu trabalho de conclusão de curso – havíamos tomado essa cautela antes de partir. Thiago, além deste, tinha ainda sua declaração de matrícula – a minha havia ficado no albergue em Cusco.

“A sua documentação eu posso aceitar”, disse a ele, “mas a sua não”, declarou me fitando. Insisti que o documento continha meu número de matrícula. Ela não suportou o que considerou uma afronta. “Você acha que eu sou estúpida? Eu já li esse texto e isso não serve, pois você pode estar fazendo um curso sem ser aluna”. A discussão era algo inadmissível. Não adiantava argumentar que para ter um número de matrícula e para fazer um trabalho de conclusão de curso de graduação eu tenho que ser o que se considera oficialmente uma estudante universitária.

Já tinha perdido toda a graça, toda a mística. Eu ía pagar 120 soles para quê? Como a própria administradora frisou, “aqui só pode entrar quem pode pagar”. E o mais irônico é que se trata de um Patrimônio Universal da Humanidade. Nome bonito…

Em Machu Picchu Pueblo (antiga Águas Calientes, que teve seu nome mudado num golpe de marketing) os únicos peruanos são os que mantêm a engrenagem do turismo funcionando – garçonetes, cozinheiros, pedreiros e balconistas, com raras exceções. Enquanto a parte turística é toda colorida e “bonitinha”, o lugar onde eles vivem, do outro lado de uma pequena ponte, é cinza e pobre, como em outra cidade qualquer. Para quem vão os milhões faturados em cima das ruínas da civilização que foi dizimada sob a bandeira dessa mesma lógica, que só enxerga cifrões?

Dane-se Machu Picchu. Eu cortei a onda da administradora, afinal estávamos do lado de fora do muro quando o vigilante apareceu e nos convenceu a entrar – ele podia ter simplesmente mandado a gente embora. Sendo assim, não havíamos invadido nada. Thiago, mesmo podendo pagar meia, não quis entrar também. Sinceramente, não me arrependo. Não havia mais clima, ia ser tudo falso demais. Cultura ancestral transformada em caro souvenir.

Mas havia ficado a vontade de conhecer um pouco mais dessa antiga civilização. Já na última parada do caminho de volta para Cusco, conversando por acaso com um senhor da região, comentamos sobre nossa tentativa frustrada em Machu Picchu. “Aqui perto há outras ruínas, em algumas não precisa nem pagar”, ele disse. Foi assim que fomos a Ollantaytambo.

 

Esse texto faz parte do livro Viajeros, que foi publicado em posts nesse blog.

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quarta-feira, 9 de dezembro de 2009

Viajeros – Peru Andino

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Saímos da Bolívia no último dia permitido pelo nosso visto. Depois de três meses em terras bolivianas, entraríamos num país de cultura similar, porém atualmente numa direção política oposta: enquanto a Bolívia bate de frente com o sistema neoliberal em busca de um alternativa, o Peru se esforça por cair nas graças do sedutor desenvolvimento capitalista. Miséria e riqueza mais evidentes na meca do turismo sul-americano.

A cidade branca

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Úrsula no terraço de sua casa em Arequipa. Ao fundo, o vulcão Misti.

De Copacabana, ao norte da Bolívia, atravessamos a fronteira rumo a Arequipa, conhecida como “a cidade branca”. Ficamos na casa de Úrsula, que conheci no Estágio Interdisciplinar de Vivência em Áreas de Reforma Agrária de Minas Gerais (EIV – MG) em janeiro de 2006. Uns dias depois de nós chegaram Luciana, amiga chilena que visitamos em Valparaíso e que também esteve no EIV, suas duas amigas conterrâneas e o brasileiro Lucas, outro participante do estágio.

Lotamos a casa da família de Úrsula, que deu uma aula de boa vontade. Sua mãe e ela, que estudava gastronomia, preparavam pratos típicos. Seu pai contava das tradições incaicas e até comprou dois porongos de cañazo, a cachaça produzida no Peru, para os brasileiros que chegariam em sua casa. Eles nos levaram para conhecer o mar peruano, em Mollendo. Foi divertido e, principalmente, diferente – uma praia rodeada por deserto.

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A chilena Luciana e o mineiro Lucas: nos encontrando pelo caminho.

Já o centro de Arequipa é de fato todo branco, e margeado por três vulcões, com seus cumes nevados brilhando ao sol. A catedral imponente, com um diabo impressionante talhado no púlpito, derrama a sombra de suas torres na praça central tipicamente espanhola, rodeada por arcos e tomada por turistas, vendedores e pedintes.

Passamos cerca de duas semanas em Arequipa. As vendas de artesanato iam bem, mas como não pagávamos alojamento, aproveitamos e tiramos uns dias para produzir tranquilos. Durante esse período, as meninas chilenas e o mineiro foram conhecer o canion do Vale do Colca. Na volta, nos disseram que valia a pena ir lá. Resolvemos seguir a dica.

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Local de venda de artesanto no centro de Arequipa: viajantes de diversos países em convivência. Foto de Thiago Martins.

Um vale de conto de fadas

O Vale do Colca foi reconhecido como canion não faz muito tempo – a exploração turística é recente. Assim que colocamos o pé em Chivay, uma das cidadezinhas do vale, apareceu um cara anunciando hotel – “dez soles”, ofereceu ele (sim, a moeda peruana é o Sol). “Por cabeça?”, perguntou Thiago, achando caro. “Não, os dois”, respondeu o peruano. Negócio fechado.

Ele nos levou ao local; seu filho abriu o portão. O negociante era o dono e sua família morava lá mesmo. O jardim estava bem cuidado, com flores; o quarto bem ajeitado, com banheiro privado e ducha a gás, bem quentinha – o melhor banho desde o início da viagem. Tudo isso pela menor diária que chegamos a pagar no Peru.

As senhoras de lá usam umas roupas lindas, todas bordadas – um artesanato típico da região. O mercado local não tinha aquela confusão da maioria dos mercados que conheci no Peru e na Bolívia, e a comida era muito boa e barata. E sim, opções sem carne eram possíveis! Mas o melhor foi a paisagem: céu estupidamente azul, sol, montanhas, friozinho – o retrato da tranquilidade.

No hotel, conhecemos um psicólogo belga, de cabelo já todo branquinho, que vive há longa data na Holanda. Desde muito tempo ele trabalha por uns cinco anos e junta uma grana. Depois, vende tudo, inclusive o consultório, e sai de viagem. Ele estava com sua filha e o namorado dela, ambos de 18 ou 19 anos. Acompanhamos eles até Madrigal, um povoadinho a três horas de kombi de Chivay. Tanto na Bolívia quanto no Peru os ônibus são usados para transporte interurbano: dentro das cidades e pelos caminhos do interior, a kombi impera. O bom é que costuma ser barato e o dinheiro não vai para uma grande empresa de transportes – fica com os motoristas-proprietários. Mas sempre tem um lado ruim: como não há fiscalização, e até nem sei se existe uma regulamentação, as kombis costumam circular completamente lotadas. E dessa vez também foi assim.

Saímos antes do sol nascer, e mesmo assim não havia lugar para todos sentarem – nem para as milhares de bagagens que as pessoas sempre levam de um lado para o outro. Sacas de alimentos, animais, tapetes – vi de tudo ser carregado nas viagens pelos Andes, e em grande quantidade. Dessa vez, tinha até gente “semi-em-pé”, pois a altura da kombi não comporta uma pessoa em pé. Mas o impressionante é que o pessoal da região ia bem, conversando, melhor que nós, gringos almofadinhas sentados e enjoados pelo sacolejo – os gringuitos, como eles nos chamaram.

Era sábado, primeiro dia do carnaval no vilarejo. Nos indicaram uma caminhada para chegar à entrada do canion, onde se pode ver os condores planando com exclusividade. Andamos pela estradinha, eu, Thiago e os europeus, cruzando os pequenos sítios; ao longe se viam os montes nevados.

O Vale do Colca é muito frio e alto, mas o sol é bastante forte. O resultado dessa equação é: durante o dia, frio na sombra e calor ao sol; à noite, uma friaca de fazer tremer os ossos. Caminhamos mais de uma hora e chegamos ao início da subida que leva à tal entrada do canion: um zigue-zague assustador desenhado na montanha. Não tive dúvida. “Thiago, sinto muito, não tô afim de subir isso aí, tô pensando em curtir o dia, a festa, vou ver o canion depois do mesmo jeito, então se você quiser ir, boa sorte”. Já tínhamos planejado ir ao cruce del condor, a “encruzilhada do condor”, onde se tem uma bela vista e os turistas vão para ver o pássaro – ou seja, um bom lugar para vender e apreciar a paisagem.

Thiago seguiu subida, eu me dispersei dos outros e sentei na beirada de um riozinho, onde parecia que as montanhas faziam um portal, abaixo de uns buracos altos na rocha que depois fui descobrir serem antigas catacumbas. Voltei andando sozinha por esse caminho lindo, parando para descansar entre as subidas e descidas. De volta ao centrinho, até tentei vender alguma coisa, mas vi que não teria muita saída. Ouvi uma música vindo do terreno de uma casa: a festa começava ali. Havia homens vestidos de mulher e outros de mineiro, com a cara pintada de carvão (los negritos, o povo dizia), além de muita chicha, uma bebida alcoolica fermentada caseira que achei simplesmente horrível, com um tremendo gosto de azedo.

Na festa encontrei Thiago, o senhor belga (que também havia subido o monte) e os dois jovens europeus. Os moradores nos ofereceram comida e chicha, nos tiraram para dançar, pintaram a holandesa de carvão e não queriam que fôssemos embora. Até nos ofereceram um cantinho em sua casa. “Eu quero que vocês se sintam bem, fico feliz que estejam aqui, porque todos somos irmãos. Meu filho foi para o Chile e lá o tratam muito mal, e isso está errado. Não importa de onde viemos, somos todos iguais”, disse a anfitriã, já meio embriagada na alegria da festa. Há uma grande rivalidade entre chilenos e peruanos, que remonta à Guerra do Pacífico, vencida pelo Chile.

Bolívia e Peru versus Chile e Inglaterra

A Guerra do Pacífico ocorreu de 1879 a 1883, envolvendo Chile, Peru e Bolívia. O motivo foi o guano, espécie de esterco de ave acumulado ao longo dos séculos no litoral peruano, e, principalmente, o salitre, substância semelhante ao sal porém com maior teor de sódio. São ambos fertilizantes, que se encontravam em território peruano e boliviano. Naquela época ainda não existiam fertilizantes químicos. Por isso esses produtos eram bastante cobiçados na Europa, onde o solo estava exaurido e a população crescia vertiginosamente.

A exportação do salitre era um negócio peruano e, principalmente, chileno. Quando o governo boliviano resolveu cobrar impostos pelo produto, o Chile, apoiado pela Inglaterra (para quem os chilenos repassavam a mercadoria), invadiu a Bolívia, dominando o território de Antofagasta, onde se encontrava grande quantidade da substância. Em seguida, o Peru teve as regiões de Arica e Iquique abocanhadas pelo Estado chileno. Essa guerra deixou profundas marcas: para os chilenos, ficou o orgulho da vitória e a sensação de superioridade perante seus vizinhos derrotados; já os peruanos odeiam os chilenos, afinal seu país terminou a guerra dilacerado; e a Bolívia até hoje exige de volta sua saída para o mar, perdida na guerra.

Condores e flashes

Apesar dos convites para ficar em Madrigal, voltamos a Chivay. Devíamos partir em breve: nosso dinheiro estava acabando, as vendas não iam bem e não havia caixa automático para sacar (a essa altura já havia recuperado o cartão – minha mãe enviou um novo via correio para Arequipa). Tivemos sorte de pegar a kombi vazia.

No dia seguinte fomos ao cruce del condor. Havia mamitas vendendo roupas de lã de alpaca – um animal semelhante à lhama, porém mais peludo. O lugar era realmente muito bonito, mas cheio de turistas. Quando a estrela da festa, o condor, apareceu, houve o maior rebuliço: turistas correndo com máquina fotográfica na mão para registrar a imagem da majestosa ave. Eu, me sentindo meio boba no meio daquele súbito alvoroço, segui a leva de turistas para ver o condor – afinal, nunca tinha visto um. O passáro símbolo da liberdade distraidamente deu o seu espetáculo.

Vendemos somente o suficiente para pagar o transporte de ida e volta ao cruzamento. Tínhamos a grana certa para a passagem até Arequipa; faltava acertar a última diária do hotel. Explicamos a situação para a mulher do negociante, também dona do hotel, deixamos uns brinquinhos e uma pulseira e ficou tudo bem.

Voltamos para Arequipa, parada obrigatória entre o Vale do Colca e Cusco. Essa noite me senti mal e tive febre. Mal sabia eu que era só o começo.

Cusco para quem pode pagar

Um sujeiro vestido de inca falando ao celular – ganha a vida posando para fotos. Uma mamita tenta vender a todo custo os cintos que produz. Um anunciante de rua me aborda – “TATUAGENS, PIERCINGS, marihuana, cocaína, ópio, heroína…”, alardeia, diminuindo a voz à medida que vai falando. Turistas bêbados com os “free drinks fisga cliente” a cada esquina. Mendigos por todos os lados. Milhares de taxis buzinando o tempo todo. Cusco, o ponto alto do turismo na América do Sul, a cidade plastificada onde igrejas foram construídas sobre templos incaicos.

Foram vinte dias de fraqueza, dor de barriga, tontura, vômito e diarréia. O motivo é um mistério: fui ao posto de saúde local, fiz exames, mas nada foi diagnosticado. Quando saía para tomar um ar, voltava ainda pior. A falsidade de Cusco me sufocou. Tudo ao seu alcance, se você puder pagar.

 

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