Parte do coletivo Soylocoporti

olhares sobre o cotidiano da América Latina

Arquivo do assunto ‘américa latina’

quarta-feira, 3 de março de 2010

Poesia, cultura e arte pelos poros abertos da América Latina

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Assista o vídeo da Expedición Donde Miras - caminhada cultural pela América Latina.

Donde miras: De la periferia de Sao Paolo a Latino América from desinformémonos on Vimeo.

Publicado no portal popular colaborativo Desinfomémonos.

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terça-feira, 26 de janeiro de 2010

Para quem?

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Casa de Cultura de Paraty, eu e os funcionários

Nos quadros que retratam a colonização,
somente nomes de pintores europeus

“Engraçado que é sempre os outros que contam a nossa história”, desabafei

… silêncio …

“Não tem arte indígena?”

“Ahn?”

“Arte indígena.”

“O quê??”

“A-r-t-e i-n-d-í-g-e-n-a!”

“Acho que tem uma peça de artesanato lá em cima.
Mas foram os espertos que contaram a história.
Os índios não tinham papel e pincel.”

Artesanato indígena
no chão das ruas

Arte branca
em galerias e museus

Pedras, igrejas
e casarões coloniais
Macaquinhos pulando
sobre telhados e quintais

Montanhas de Mata Atlântica,
porto e cachoeira
Paraty, mas não para aqueles
de pele amarela e negra

Paraty, gringo
Paraty, elite branca

Paraty

mas não para nós

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terça-feira, 12 de janeiro de 2010

Donde Miras - Sarau em Maresias

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Binho no sarau na Praça do Surf, em Maresias

Binho no sarau na Praça do Surf, em Maresias

Perfil de Jesus

Perfil de Jesus

Trampos de Raíssa e músicos caminhantes

Trampos de Raíssa e músicos caminhantes

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Bandeiras Donde Miras

Bandeiras Donde Miras

Coco

Coco

A roda

A roda

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terça-feira, 12 de janeiro de 2010

Donde Miras - A passos largos

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Faz mais de quinze dias que saímos de Santos. Podiam ser trinta, quinhentos ou 20347 dias passados. O tempo Donde Miras é outro, não se mede em calendários ou relógios. Estamos há muito tempo caminhado? Pouco? Quantos quilometros andamos? Quantas reflexões surgiram? Quantas ideais se derreteram e se metamorfosearam? O olhar vai além e não se prende a números e convenções.

Poetas, palhaços, espanhóis, músicos, argentinos, atores, a cambada da Zona Sul e até uma menina do sul que não hesita em vir a cada caminhada. Somos um, mas somos tão diversos. “Na poesia e na pura ritmia, a família é Donde Miras e o que eu quero é andar”, rimou Zinho.

O território percorrido é a cultura e o litoral norte de São Paulo. É alta temporada e o turismo não dá sossego. Do coração da metrópole, as veias asfaltadas espalham a degradação de um sistema – mesmo no seu período de descanso, os turistas carregam consigo seus hábitos e uma ânsia de extravasar toda a repressão de um ano inteiro. Na virada do ano, em Bertioga, o clima era tenso, mesmo em plena festa. Alegria violenta e artificial. Vida violenta e artificial. Os fogos e os sonhos são de artifício – um pequeno encanto fugaz.

Vamos caminhando debaixo do sol de escaldar do nosso Brasil, molhando o pé nesse marzão de deus, bebendo das fontes exuberantes, pisando, rimando e mirando. Os mosquitos não perdoam nossas peles macias. O verde abraça a beira das estradas, e os carros se movem, dirigindo-se aos residenciais de luxo do litoral norte paulista. Ilhas de conforto forjadas para simular um mundo que não existe, construído sobre a miséria das vilas e favelas. Na verdade, não existem dois mundos. São extremos de uma mesma realidade desigual.

Este solo é rico – boa parte do pouco que sobrou da Mata Atlântica brasileira encontra-se nesse trecho. Contudo, há outras riquezas em cheque. Essa é a região do Pré-Sal. Em São Sebastião, onde estamos agora, a Petrobrás impera. Em todos os lados há reservatórios de petróleo, centrais e cartazes publicitários da empresa. Grande parte da população depende diretamente dela. A pretensão é ampliar o porto da cidade – mais pessoas virão para trabalhar nessa obra. E a estrutura da cidade, irá acompanhar o crescimento? Haverá moradia, educação, sistema de saúde, cultura e alimentação para todos? E o ambiente, esse resquício de Mata Atlântica que ainda não destruímos? Iremos passar por cima dele com nossos rolos de concreto também?

Tivemos esse debate ontem, quando Soraia, amiga do Binho que trabalha com Biodança, veio fazer uma vivência conosco. Sua amiga Malu a acompanhou. Ela mora na região há sete anos e nos contou um pouco da conjuntura local. Esse debate, assim como aquele que tivemos sobre o Pré-Sal em Santos, nos leva a pensar que há muito o que mudar. Nossos hábitos estão distorcidos, nossas relações muitas vezes se dão de maneira equivocada. Enquanto o objetivo de nossa sociedade for individual e monetário, de pouco servirão mudanças. Por isso nossa caminhada procura desenvolver novos olhares. Afinal o que queremos? Onde almejamos chegar? Preparemos nossas setas, mas antes definemos o alvo.

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terça-feira, 12 de janeiro de 2010

Donde Miras - Mamãe Oxúm

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Cachoeiras do litoral paulista. As duas primeiras imagens são de Maresias. As restantes são da aldeia guarani pela qual passamos.

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terça-feira, 12 de janeiro de 2010

Donde miras - Morte e fé

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Chegando a Maresias, templos de fé e morte. O cemitério da cidade e a capela de São Sebastião.

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terça-feira, 12 de janeiro de 2010

Donde Miras - Pé com pé

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Fotos tiradas em janeiro de 2010, no trecho da Expedición Donde Miras de Santos a Paraty. As quatro primeiras fotos são referentes à caminhada de Boiçucanga a Maresias, e a última de Maresias ao centro de São Sebastião.

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sábado, 9 de janeiro de 2010

Donde Miras - Aldeia

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Aldeia Rio Silveira, Boracéia (SP). Janeiro de 2010.

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terça-feira, 29 de dezembro de 2009

O Pré-Sal e a soberania nacional

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Caminhantes e convidados debatem o Pré-Sal no segundo dia da Expedición Donde Miras

No seu quarto trecho, que compreende a região de Santos (SP) a Paraty (RJ), a Expedición Donde Miras caminha sobre terras peculiares: a região do Pré-Sal. A reserva petrolífera, mapeada recentemente, constituiu-se na separação da Pangéia – a imensa massa terrestre que separou-se e formou os atuais continentes – entre a América e a África. Algas azuis soterradas debaixo de sal foram amalgamadas ao longo dos milênios e resultaram em imensas aglomerações de petróleo de qualidade. O sal serviu como uma “tampa”, o que permitiu a maturação do petróleo. A camada está a 7 km de profundidade a partir do solo marinho e consiste em um volume monstruoso de óleo, principalmente na bacia de Santos (que vai desde Florianópolis ao Espírito Santo). A partir dessa descoberta, o Brasil pode passar a constar entre os três principais produtores de petróleo mundial.

Anderson Mancuso, diretor do Sindicato dos Petroleiros do Litoral Paulista, foi convidado pela expedição para fazer uma apresentação sobre o tema. O encontro ocorreu no alojamento dos caminhantes em Santos e resultou num interessante debate. Anderson defende que o Pré-Sal não é uma discussão restrita – deve ser feita por todos os brasileiros; e não é isolada, por ser transversal a diversos temas estruturais, entre eles a soberania nacional, questões ambientais e sociais. “Esse é um momento ímpar, pois fomenta a questão da soberania nacional: continuaremos entregando nossas riquezas?”, provoca Mancuso.

O diretor acredita que hoje a geração de energia está voltada para a produção de lucros, não para suprir as necessidades sociais. Essa é uma oportunidade para revermos a lógica de exploração dos recursos e o investimento público resultante. A descoberta do Pré-Sal faz do Brasil um alvo internacional, por isso é necessário desenvolver um projeto político de gestão das nossas riquezas naturais como um todo.

A legislação e a soberania

O atual modelo de exploração do petróleo brasileiro data de 1997, quando o governo de Fernando Henrique Cardoso quebrou o monopólio estatal. Tal postura bate de frente com os princípios da campanha O Petróleo é Nosso, que em 1954 resultou na fundação da Petrobras. O modelo de concessão de FHC consiste no mapeamento dos blocos petrolíferos e sua venda por meio de leilões, cuja dinâmica é controlada pela Agência Nacional de Petróleo (ANP). A empresa vencedora deve cumprir uma série de etapas, mas grande parte da produção fica para o capital privado – pouquíssimo vai para o Estado.

A contradição é que o petróleo é um bem público, não privado. Por isso o modelo atual não condiz com a histórica luta popular pela soberania energética. Mancuso explica que Lula perpetuou o modelo de FHC – o governo petista afirma que na época a lei era apropriada (apesar de que a contestava naquele momento), mas que agora deve ser aprimorada devido ao Pré-Sal. “O filé mignon do Pré-Sal, concentrado em 30% de suas reservas, já foi entregue para multinacionais”, denuncia o sindicalista.

Alguns projetos de lei que buscam avançar na questão da soberania energética já passaram pelo Congresso Nacional. Um deles estabelece o modelo de partilha (“modelo híbrido”), no qual a empresa que ganha a concessão é aquela que cede mais para o Estado - uma espécie de barganha. Contudo esse modelo valerá somente para as áreas ainda não exploradas. Mancuso acredita que esse sistema mantem a lógica de entrega das nossas riquezas naturais. Já Bruno de Tarso, militante do movimento estudantil e participante da caminhada, defende que o modelo de partilha já é um avanço. “O ideal seria que a Petrobras voltasse a ser 100% estatal e obtivesse o monopólio de exploração do petróleo nacional. Mas como isso não é possível na atual conjuntura, o modelo de partilha ao menos direciona parte dos recursos ao poder público”, argumenta.

Construção de um novo projeto

O debate comprovou o que Mancuso havia dito: a discussão do Pré-Sal é transversal a diversos temas e diz respeito a toda a sociedade. Ana Estrella Vargas, socióloga e caminhante Donde Miras, questionou inclusive se devemos explorar o petróleo. “O que acontece quando tiramos essa substância tão profunda que está há tanto tempo sendo produzida pela terra? Quais os efeitos colaterais disso?”, indagou.

O fato é que os danos ambientais são irreversíveis, por isso temos que repensar nossa lógica e encarar o Pré-Sal como um recurso estratégico a ser explorado com responsabilidade. “Temos que transpor a visão produtivista e pensar em novas formas de energia, inclusive utilizando os recursos advindos do próprio Pré-Sal para desenvolver novas tecnologias”, indica o sindicalista.

A crise que enfrentamos não é somente econômica, mas estrutural. Por isso a urgência de construirmos novas formas de relação entre os seres humanos e destes com o meio. Existem várias pessoas se dedicando a criação de um projeto alternativo. A Expedición Donde Miras alimentará esse debate ao longo da caminhada, pois também entende que esse tema diz respeito a todos nós. Todas as formas de conscientização podem fazer parte desse projeto – o desafio é conseguir de fato dialogar e construí-lo coletivamente.

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domingo, 27 de dezembro de 2009

Donde Miras - Pé na estrada

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Onze horas da noite do dia 26 de dezembro na rodoviária de Curitiba. Malas, corpos, confusão e ansiedade. Para onde vão todas as pessoas? Sonhos, obrigações, reencontros, destino e vontade. O limbo daqueles que ainda não foram.

Minha ansiedade mira. Os andarilhos já haviam saído de São Paulo para a largada oficial de mais uma caminhada da Expedición Donde Miras, o quarto trecho, agora de Santos a Paraty. Ânsia de passos, versos, cores e timbres. Será um mês de caminhos percorridos, saraus, poesia, fotografia, cinema e teatro - cultura a cada passo.

Meu ônibus percorreu as horas mortas paranaenses e paulistas. Pinga lá, pinga cá, desembarco às seis da matina em Santos. Minha referência é o alojamento cedido pelo Sindicato dos Bancários – silêncio matutino, o descanso dos que caminharão. “Abre a porta pra mim, Donde Miras”. Luan sonolento me recebe – a cidade dorme.

Barracas, colchões e cozinha improvisada. Eu descanso da viagem conturbada enquanto aos poucos os caminhantes despertam – feliz reencontro. É o início de mais um ciclo de troca e mutação. As trilhas da América Latina se abrem.

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quarta-feira, 9 de dezembro de 2009

Viajeros - Peru Andino

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Saímos da Bolívia no último dia permitido pelo nosso visto. Depois de três meses em terras bolivianas, entraríamos num país de cultura similar, porém atualmente numa direção política oposta: enquanto a Bolívia bate de frente com o sistema neoliberal em busca de um alternativa, o Peru se esforça por cair nas graças do sedutor desenvolvimento capitalista. Miséria e riqueza mais evidentes na meca do turismo sulamericano.

A cidade branca

Úrsula no terraço de sua casa em Arequipa

Úrsula no terraço de sua casa em Arequipa. Ao fundo, o vulcão Misti.

De Copacabana, ao norte da Bolívia, atravessamos a fronteira rumo a Arequipa, conhecida como “a cidade branca”. Ficamos na casa de Úrsula, que conheci no Estágio Interdisciplinar de Vivência em Áreas de Reforma Agrária de Minas Gerais (EIV - MG) em janeiro de 2006. Uns dias depois de nós chegaram Luciana, amiga chilena que visitamos em Valparaíso e que também esteve no EIV, mais duas amigas suas. E do Brasil veio o mineiro Lucas, outro participante do estágio.

Lotamos a casa da família de Úrsula, que deu uma aula de boa vontade. Sua mãe e ela, que estudava gastronomia, preparavam pratos típicos. Seu pai contava das tradições incaicas e até comprou dois porongos de cañazo, a cachaça produzida no Peru, para os brasileiros que chegariam em sua casa. Eles inclusive nos levaram para conhecer o mar peruano; fomos a Mollendo. Não achei muito bonito, mas foi divertido e, principalmente, diferente - uma praia rodeada por deserto.

A chilena Luciana e o mineiro Lucas: nos encontrando pelo caminho.

A chilena Luciana e o mineiro Lucas: nos encontrando pelo caminho.

O centro de Arequipa é de fato todo branco, e margeado por três vulcões, com seus cumes nevados brilhando ao sol . A catedral imponente, com um diabo impressionante talhado no púlpito, derrama a sombra de suas torres na praça central tipicamente espanhola, rodeada por arcos e tomada por turistas, vendedores e pedintes.

Passamos cerca de duas semanas em Arequipa. As vendas de artesanato iam bem, mas como não pagávamos alojamento, aproveitamos e tiramos uns dias para produzir tranquilos. Durante esse período, as meninas chilenas e o mineiro foram conhecer o canion do Vale do Colca. Na volta, nos disseram que valia a pena ir lá. Resolvemos seguir a dica.

Local de venda de artesanto no centro de Arequipa: viajantes de diversos países em convivência. Foto de Thiago Martins.

Local de venda de artesanto no centro de Arequipa: viajantes de diversos países em convivência. Foto de Thiago Martins.

Um vale de conto de fadas

O Vale do Colca foi reconhecido como canion não faz muito tempo - a exploração turística é recente. Assim que colocamos o pé em Chivay, uma das cidadezinhas do vale, apareceu um cara anunciando hotel - “dez soles”, ofereceu ele (sim, a moeda peruana é o Sol). “Por cabeça?”, perguntou Thiago, achando caro. “Não, os dois”, respondeu o peruano. Negócio fechado.

Ele nos levou ao local; seu filho abriu o portão. O negociante era o dono e sua família morava lá mesmo. O jardim estava bem cuidado, com flores; o quarto bem ajeitadinho, com banheiro privado e ducha a gás, bem quentinha - o melhor banho desde o início da viagem. Tudo isso pela menor diária que chegamos a pagar no Peru.

As senhoras de lá usam umas roupas lindas, todas bordadas, um artesanato típico da região. O mercado local não tinha aquela confusão da maioria dos mercados que conheci no Peru e na Bolívia, e a comida era muito boa e barata. E sim, opções sem carne eram possíveis! Mas o melhor é a paisagem: céu estupidamente azul, sol, montanhas, friozinho - o retrato da tranquilidade.

No hotel, conhecemos um psicólogo belga que vive há longa data na Holanda. Desde muito tempo ele trabalha por uns cinco anos e junta uma grana. Depois, vende tudo, inclusive o consultório, e sai de viagem. Ele estava com sua filha e o namorado dela, ambos de 18 ou 19 anos. Acompanhamos eles até Madrigal, um povoadinho a três horas de kombi de Chivay. Tanto na Bolívia quanto no Peru os ônibus são usados para transporte interurbano: dentro das cidades e pelos caminhos do interior, a kombi impera. O bom é que costuma ser barato e o dinheiro não vai para uma grande empresa de transportes, mas fica com os motoristas-proprietários. Mas sempre tem um lado ruim: como não há fiscalização, e até nem sei se existe uma regulamentação, as kombis costumam circular completamente lotadas. E dessa vez também foi assim.

Saímos antes do sol nascer, e mesmo assim não havia lugar para todos sentarem, nem para as milhares de bagagens que as pessoas sempre levam de um lado para o outro. Sacas de alimentos, animais, tapetes - vi de tudo ser carregado nas viagens pelos Andes, e em grande quantidade. Tinha até gente “semi-em-pé”, pois a altura da kombi não comporta uma pessoa em pé. Mas é impressionante, o pessoal da região ia bem, conversando, melhor que nós, gringos almofadinhas sentados e enjoados pelo sacolejo - os gringuitos, como eles nos chamaram.

Era sábado, primeiro dia do carnaval do vilarejo. Nos indicaram uma caminhada para chegar à entrada do canion, onde se pode ver os condores planando com exclusividade. Andamos pela estradinha, eu, Thiago, e os europeus, cruzando os pequenos sítios; ao longe se viam os montes nevados. O Vale do Colca é muito frio e alto, mas o sol é bastante forte. O resultado dessa equação é: durante o dia, faz frio na sombra e calor ao sol; à noite, um frio de fazer tremer os ossos. Caminhamos mais de uma hora e chegamos ao início da subida para chegar à tal entrada do canion: um zigue-zague assustador desenhado na montanha. Não tive dúvida. “Thiago, sinto muito, não tô afim de subir isso aí, tô pensando em curtir o dia, a festa, vou ver o canion depois do mesmo jeito, então se você quiser ir, boa sorte”. Já tínhamos planejado ir ao cruce del condor, a “encruzilhada do condor”, onde se tem uma bela vista e os turistas vão para ver o pássaro - ou seja, um bom lugar para vender e apreciar a paisagem.

Thiago seguiu subida, eu me dispersei dos outros e sentei na beirada de um riozinho, onde parecia que as montanhas faziam um portal, abaixo de uns buracos altos na rocha que fui descobrir serem antigas catacumbas. Voltei andando sozinha por esse caminho lindo, parando para descansar entre os “sobes e desces”. De volta ao centrinho, até tentei vender alguma coisa, mas vi que não teria muita saída. Ouvi uma música vindo do terreno de uma casa: a festa começava ali. Havia homens vestidos de mulher e outros de mineiro, com a cara pintada de carvão (los negritos, o povo dizia), além de muita chicha, uma bebida alcoolica fermentada caseira que achei simplesmente horrível, com um tremendo gosto de azedo.

Na festa encontrei Thiago, o senhor belga (que também havia subido o monte) e os dois jovens europeus. Os moradores nos ofereceram comida, chicha, nos tiraram para dançar, pintaram a holandesa de carvão e não queriam que fôssemos embora. Até nos ofereceram um cantinho em sua casa. “Eu quero que vocês se sintam bem, fico feliz que estejam aqui, porque todos somos irmãos. Meu filho foi para o Chile e lá o tratam muito mal, e isso está errado. Não importa de onde viemos, somos todos iguais”, disse a anfitriã, já meio embriagada na alegria da festa. Há uma grande rivalidade entre chilenos e peruanos, que remonta à Guerra do Pacífico, vencida pelo Chile.

Bolívia e Peru versus Chile e Inglaterra

A Guerra do Pacífico ocorreu de 1879 a 1883, envolvendo Chile, Peru e Bolívia. O motivo foi o guano, espécie de esterco de ave acumulado ao longo dos séculos no litoral peruano, e principalmente o salitre, substância semelhante ao sal porém com maior teor de sódio. São ambos fertilizantes, que se encontravam em território peruano e boliviano. Naquela época ainda não existiam fertilizantes químicos. Por isso, esses produtos eram bastante cobiçados na Europa, onde o solo estava exaurido e a população crescia vertiginosamente.

A exportação do salitre era um negócio peruano e, principalmente, chileno. Quando o governo boliviano resolveu cobrar impostos pelo produto, o Chile, apoiado pela Inglaterra (para quem os chilenos repassavam a mercadoria), invadiu a Bolívia, dominando o território de Antofagasta, onde se encontrava grande quantidade da substância. Em seguida, o Peru teve as regiões de Arica e Iquique abocanhadas pelo Estado chileno. Essa guerra deixou profundas marcas: para os chilenos, ficou o orgulho da vitória e a sensação de superioridade perante seus vizinhos derrotados; já os peruanos odeiam os chilenos, afinal seu país terminou a guerra dilacerado; e a Bolívia até hoje exige de volta sua saída para o mar, perdida na guerra, e ficou o rancor contra os chilenos.

Condores e flashes

Apesar dos convites para ficar em Madrigal, voltamos a Chivay. Devíamos partir em breve: nosso dinheiro estava acabando, as vendas não iam bem e não havia caixa automático para sacar (a essa altura já havia recuperado o cartão - minha mãe enviou um novo via correio para Arequipa). Tivemos sorte de pegar a kombi vazia.

No dia seguinte fomos ao cruce del condor. Havia mamitas vendendo roupas de lã de alpaca - um animal semelhante à lhama, porém mais peludo. O lugar era realmente muito bonito, e cheio de turistas. Quando a estrela da festa, o condor, apareceu, houve o maior rebuliço: turistas correndo com máquina fotográfica na mão para registrar a imagem da majestosa ave. Eu, me sentindo meio boba no meio daquele súbito alvoroço, segui a leva de turistas para ver o condor - afinal, nunca tinha visto um. O passáro símbolo da liberdade distraidamente deu o seu espetáculo.

Vendemos somente o suficiente para pagar o transporte de ida e volta ao cruzamento. Tínhamos a grana certa para a passagem até Arequipa; faltava acertar a última diária do hotel. Explicamos a situação para a mulher do negociante, também dona do hotel, deixamos uns brinquinhos e uma pulseira e ficou tudo bem.

Voltamos para Arequipa, parada obrigatória entre o Vale do Colca e Cusco. Essa noite me senti mal e tive febre. Mal sabia eu que era só o começo.

Cusco para quem pode pagar

Um sujeiro vestido de inca falando ao celular - ganha a vida posando para fotos. Uma mamita tenta vender a todo custo os cintos que produz. Um anunciante de rua me aborda - “TATUAGENS, PIERCINGS, marihuana, cocaína, ópio, heroína…”, alardeia, diminuindo a voz à medida que vai falando. Turistas bêbados com os “free drinks fisga cliente” a cada esquina. Mendigos por todos os lados. Milhares de taxis buzinando o tempo todo. Cusco, o ponto alto do turismo na América do Sul, a cidade plastificada onde igrejas foram construídas sobre templos incaicos.

Foram vinte dias de fraqueza, dor de barriga, tontura, vômito e diarréia. O motivo é um mistério: fui ao posto de saúde local, fiz exames, mas nada foi diagnosticado. Quando saía para tomar um ar, voltava ainda pior. A falsidade de Cusco me sufocou. Tudo ao seu alcance, se você puder pagar.

Texto escrito em 2006, parte do livro Viajeros.

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terça-feira, 6 de outubro de 2009

Semana de cultura americana - 06 a 12/10

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Nesta semana Curitiba se vê mais latina, por debaixo da grossa camada de pó europeu. A 1ª Semana Americana de Solidariedade com os Povos – Homenagem aos Poetas da América começou na terça e termina com festa no feriado. Na programação estão palestras, exposições, música, oficinas de teatro, mosaico, apresentação de danças típicas de povos da América e exibição de filmes.

Entre os convidados especiais estão Thiago de Mello, Aleida Guevara e Leonardo Boff.

PROGRAMA:

SEMANA AMERICANA DE SOLIEDARIDADE COM OS POVOS – HOMENAGEM AOS POETAS DA AMÉRICA

06 DE OUTUBRO:
- 14 h – BIBLIOTECA PÚBLICA – Abertura da exposição de cartazes sobre cinema e apresentação de filmes com debate. Filme: “El fraude” (México). Apresentador: Jorge Hernández
- 18:30 h – CANAL DA MÚSICA – ABERTURA OFICIAL,com coquetel e programação a seguir:
* Lançamento da exposição de mosaicos: “Poetas da América”, por Javier Guerrero e equipe;
* Lançamento do livro com fotografias dos retratos em mosaico e suas biografias, assim como um poema de cada um deles, em versão bilíngüe (português/ espanhol). Os textos biográficos serão de Pedro Carrano com tradução para o espanhol por Fátima Caballero. Os quadros em mosaico serão fotografados por Elisandro Dalcin.
* Mesa redonda, com os poetas THIAGO DE MELLO e o ROBERTO FERNÁNDEZ RETAMAR (presidente da Casa das Américas de Cuba) – Tema: “A poesia na resistência dos povos e como expressão da solidariedade”
* Leitura dramática do poema Estatutos do Homem de Thiago de Mello a ser realizada pelos grupos de teatro Nuspartus e Atormente.
* Apresentações de dança cubana.

• 07 DE OUTUBRO:
- Das 09 às 12 h – CENTRO CHE – Oficina de mosaico, com Javier Guerrero (vagas limitadas – informações: Centro Che f: 3024-0611);
- Das 14 às 17 h – CENTRO CHE – Oficina de teatro, com o cubano Atílio Caballero (vagas limitadas – informações: Centro Che f: 3024-0611);
- 14 h – BIBLIOTECA PÚBLICA - Apresentação de documentários chilenos. Apresentadora: Ximena.
- 18:30 h – CANAL DA MÚSICA
* Mesa redonda, com JANICE THIEL (PUC-PR), REGINA M. PRZYBYCIEN (UFPR) e MARIA LÚCIA MILLÉO MARTINS (UFSC) – Tema: “A solidariedade dos povos dos EUA e do Canadá, expressa através da obra poética.”
* Dramatização poética, com o ator LUIZ REIKDAL

• 08 DE OUTUBRO:
- Das 09 às 12 h – CENTRO CHE – Oficina de mosaico, com Javier Guerrero;
- 13 h – BOCA MALDITA – Ato Público em memória a Che Guevara;
- Das 14 às 17 h – CENTRO CHE – Oficina de teatro, com o cubano Atílio Caballero;
- 14 h – BIBLIOTECA PÚBLICA – Apresentação do filme “Che”. Apresentadora: Rosa Rorbira.
- 18:30 h – CANAL DA MÚSICA
* Mesa redonda, com ALEIDA GUEVARA, TADEU VENERI (Dep.Estadual) e ROBERTO BAGGIO (MST) – Tema: “Homenagem a Che Guevara”.
* Grande Show Musical em homenagem a Che Guevara, com:
- VICENTE FELIÚ (Cuba)
- DANTE RAMON LEDESMA (Argentina)
- Grupo VIENTO SUR (Curitiba)

• 09 DE OUTUBRO:
- Das 14 às 17 h – CENTRO CHE – Oficina de teatro, com o cubano Atílio Caballero;
- 14 h – BIBLIOTECA PÚBLICA – Apresentação de um documentário sobre torturados em Curitiba durante a ditadura. Apresentador: a definir.
- 18:30 h – CANAL DA MÚSICA
* Palestra, com CLÁUDIO RIBEIRO (Advogado) – Tema: “A poética da luta armada nos anos 60”.
* Apresentações de Danças – Paraguaia e Peruana

• 10 DE OUTUBRO:
- 15 h – CANAL DA MÚSICA
* 1ª Mesa redonda, com CARLOS TREJO SOSA (cônsul de Cuba), RENATO SIMÕES (PT) e representantes dos consulados da Bolívia, Equador e Venezuela – Tema: “A política solidária entre os povos americanos”.
- 17 h – CANAL DA MÚSICA – Apresentação de Dança.
- 17:30 h – CANAL DA MÚSICA
* 2ª Mesa redonda, com LEONARDO BOFF (teólogo), RAIMUNDO CARUSO e MARILÉA LEAL CARUSO (escritores) – Tema: “A Identidade Solidária da América”.
- 20 h – AUDITÓRIO DO MUSEU OSCAR NIEMEYER - Apresentação de teatro: “La octava puerta” pelo grupo El Caballero (Cuba).
- 22 hs – CALAMENGAU (Soc. Vasco da Gama) – FESTA DA SOLIDARIEDADE, com a banda El Merecumbê.

• 11 DE OUTUBRO:
- Das 09 às 12 h – CANAL DA MÚSICA – Seminário com 3 mesas temáticas:
* MESA 1 - “A irmandade entre os povos e a contribuição à solidariedade”, coordenado pelo grupo de estudantes cubanos que vivem no Brasil.
* MESA 2 - “Situação política e econômica latino-americana”, coordenada por Roberta Traspadini (Consulta Popular).
* MESA 3 – “O papel da cultura na libertação dos povos”, coordenada por EVELAINE MARINES (Via Campesina)
- Das 14 às 15:30 – CANAL DA MÚSICA - continuidade ao seminário.
- 16:30 h – CANAL DA MÚSICA – PLENÁRIA de conclusão do seminário, com as conclusões das 3 mesas de trabalho.

• 12 DE OUTUBRO:
- A partir das 09 h – BOSQUE SÃO CRISTÓVÃO (Sta. Felicidade) – 7ª Festa Latino-Americana, promovida pela Pastoral do Imigrante e pela AILAC (Associação de Latinos em Curitiba)
* 09 h – Missa
* 12 h – Degustação de comidas típicas
* 14 h – Apresentação de danças e conjuntos musicais

Organizadores do evento:
Associação cultural José Martí PR- Cuba
Centro de Estudos Che Guevara
Grupo OLLA - Ousadia e Liberdade Latino-americana
AILAC - Associação de Latinos em Curitiba
Pastoral do Imigrante.
Via Campesina
Biblioteca Pública do Estado do Paraná

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domingo, 27 de setembro de 2009

Viajeros - Bolívia: um outro mundo

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Luz na Ilha do Sol.

Luz na Ilha do Sol.

Depois de três meses vamos deixar a Bolívia, esse lugar de cultura tão diferente, que eu pensei ter que viajar muito mais longe para encontrar. Um país que parece ter parado no tempo, que fascina a alguns e assusta a outros.

Ter a sorte de achar um estabelecimento que aceite cartão de crédito é como ganhar na loteria. Os ônibus são um tanto arcaicos (e as estradas então, nem se fale). As “mamitas” ainda usam suas roupas da época da colonização: saia rodada até o joelho, chapéu e tranças. É comum ver homens com a bochecha enorme e a boca verde. Mascam coca. Todos os brasileiros perguntam com excitação sobre a coca, mas é a coisa mais normal. É a folha sagrada dos incaicos – dá energia, mascara a fome e o cansaço.

Vegetarianos, se preparem. Encontrar uma refeição sem carne, principalmente frango, é uma jornada. Pode-se comprar pães e frutas no mercado, mas se você é como eu, que não aguenta muito tempo sem uma refeição quentinha, vá aquecendo as pernas e a língua.

Inicialmente tentávamos assim: “olá senhora, tem alguma coisa sem carne?”, mas como a resposta era sempre negativa, mudamos de tática. Perguntávamos primeiro “o que tem para comer?”, depois se “dá para fazer a mesma coisa sem carne?”. Os vendedores olhavam com uma cara de “como sem carne?”, então explicávamos que existem comidas que não são carne, como um prato com arroz, batata e salada. A maioria respondia que não tinha como fazer, outros aceitavam e até cobravam mais barato. Virávamos clientela fiel.

Copacabana e a Ilha do Sol

Em Tarija juntamos uma boa grana, suficiente para ir direto a La Paz comprar material para artesanato e seguir rumo a Copacabana. Passamos um dia e uma noite na capital boliviana. Após um bom tempo longe de metrópoles, foi um tanto quanto estranho ser engolidos pela selva de pedra.

La Paz tem regiões bonitas, mas paz que é bom eu não tive não. Pessoas sérias e preocupadas, tragadas pelo cimento, asfixiadas pela fumaça. Thiago fez um pouco de malabares e disse que nunca tinha visto pessoas que pareciam tão sérias e tristes enquanto pedia contribuições.

Compramos passagem para Copacabana, às margens do lago Titicaca, pensando que curtiríamos uma praia. Até podia ser, se não fosse tão frio. Foi muito bom para vender, havia muitos turistas, mas descobri que no mundo do artesanato nem tudo são rosas. Existem os chamados “malucos de escola antiga”, esses artesãos que já estão há muito tempo na estrada e que às vezes têm um código de ética meio estranho.

Passamos o ano-novo em Copacabana e já no dia dois de janeiro tomamos um barco para a Ilha do Sol, meio que fugindo dos tais “malucos de escola antiga”. Afinal, não queria comprar briga. O barco chegou do lado turístico da ilha, dominado por albergues e gringos. Nós tínhamos a indicação de procurar Dom Tomás, um senhor que oferece quartos e permite acampamento do outro lado da ilha, onde só vivem alguns nativos. O problema é que entre nós e o outro lado havia uma dessas grandes montanhas andinas, a quatro mil metros de altitude, e tínhamos que carregar nossas mochilas lotadas de material, roupas e comida para acampar.

Pagamos todos os nossos pecados subindo, ainda ganhamos uns bônus celestiais descendo e enfim chegamos à casa de Dom Tomás, um senhor boliviano muito simpático. Ele fez algumas gracinhas e indicou onde poderíamos armar a barraca. Alguns artesãos argentinos já estavam lá, em volta da fogueira, esquentando água para o mate.

Ilha do Sol.

Ilha do Sol.

O acampamento era muito simples – o quintal do Seu Tomás. O banheiro era uma fossa e não tinha ducha, o banho era no Titicaca mesmo. Como a água era muito fria, confesso que em uma semana na Ilha do Sol encarei o banho só uma vez.

Criamos uma rotina juntos, nós e os argentinos. Aprendi muito com eles, em vários aspectos. Alguns deles viajavam de bicicleta, já tinham percorrido seu país e o Brasil. As meninas me passaram novos pontos de macramê e a convivência ensinou a ser mais fraternal, a dividir as coisas e a tomar iniciativa. Essas experiências comprovam que não importa o tempo que passamos juntos, sempre é possível fazer verdadeiros amigos.

O ambiente contribuia - a Ilha do Sol é deslumbrante, mágica. Lindo céu, lindo lago, lindas montanhas, um local sagrado para os incaicos. É um daqueles lugares que tenho certeza que vou voltar, com mais tempo para desfrutar.

Artesãos argentinos e bolivianos na Ilha do Sol.

Artesãos argentinos e bolivianos na Ilha do Sol.

Hasta luego, Bolívia

Um pouco estranho sair da Bolívia. Esse país nos ensinou muito, foi o cenário propício para intensas metamorfoses. Ao encontrar uma cultura tão diferente, alguns acham mais fácil tachá-la de bizarra. Tentar compreender exige mais tempo e paciência, mas é muito mais bonito.

Chiquita. Ilha do Sol.

Chiquita. Ilha do Sol.

A Bolívia é um país onde as tradições ainda estão vivas, onde a exploração colonial foi arrasadora e o neoliberalismo não encontrou grandes interesses. Uma nação explorada até por seus vizinhos, todos eles, que dentro do sistema de exploração se aproveitam dos ainda mais fracos. Mas esse povo cansou de ser fraco, cansou de ser explorado. Essa atitude se revela nos inúmeros conflitos e na difícil situação social na qual se encontra a Bolívia. Situação de mudança, de tomada de consciência, que infelizmente muitas vezes é confundida com revolta cega e sede de sangue.

Eu não entendi a Bolívia. Acho que nunca vou entender. Mas a aceitei, e aprendi a desfrutar de sua cultura tão distinta.

Texto escrito em 2006, parte do livro Viajeros.

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segunda-feira, 24 de agosto de 2009

Viajeros - Entre passeatas e cachoeiras

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Uma família em cima da cascatinha, seguindo o curso do rio. Guarda-chuvas para se proteger do sol. Eu de frente à cascata, sentada numa pedra, com os pés na água. Chuá, chuá, chuá.

Acabamos de almoçar. Thiago está se preparando para ir trabalhar. Eu fico aqui cuidando das coisas, barracas e mochila. Virei ama-de-casa por uns dias.

Estamos acampados em Coimata já faz uma semana, a vinte minutos de Tarija - capital do departamento que também se chama Tarija, fronteira com a Argentina. Sob este solo se encontra a maior riqueza da Bolívia: o gás natural. Tem gente aqui com muita grana, e essa história de nacionalização não lhes vem muito a calhar.

Autonomia

O país está em turbulência. Uma nova constituição nacional será elaborada. Em alguns departamentos, os mais ricos, um movimento contrário à política presidencial está tomando as ruas com passeatas e promovendo greves de fome. Eles querem autonomia departamental na exploração dos recursos e que a constituição seja aprovada com dois terços do congresso, e não com maioria simples. Integrantes do movimento afirmam que como Evo Morales já tem maioria no congresso poderá aprovar o que quiser, inclusive o controle federal das reservas de gás natural e a reforma agrária, mudanças que consideram muito radicais.

Ao meu ver, esse movimento está mais para a autonomia dos bolsos endinheirados que fazem das ruas de Tarija uma passarela, onde se desfilam as novas e caras tendências da moda e carros importados. Isso no país mais pobre da pobre América do Sul. E a massa segue a elite, enchendo as ruas. Autonomia – parece bonito, não?

Barraca, cachoeira, fogueira e violão

Chegamos aqui para passar o dia, dormiríamos na casa de um casal de artesãos. Coimata é um lugar com várias cachoeiras, nos arredores de Tarija. Trouxemos sacos de dormir, uma panela, casacos e um pouco de comida. No final das contas o casal não veio: dormimos ao relento, baixo às estrelas, aquecidos pelo fogo. Acordamos com o sol nos fritando e fomos direto para a fossa, onde a cachoeira deságua.

Nossa cozinha em Coimata.

Nossa cozinha em Coimata.

No hotel, de volta a Tarija, uma senhora me chamou: “venha ver, minha filha, estou vendendo umas coisas, entra, entra”. O que uma velhinha poderia ter que me interessasse? Mais por educação, fui ao seu quarto ver o que ela queria me mostrar.

Não sei como a velhinha tinha tanto trambolho no hotel. Soldado, nosso amigo malabarista e companheiro em Tarija e Coimata, comprou uma mochila por quarenta bolivianos, equivalente a uns dez reais. Eu me interessei por uma barraca, muito melhor que a minúscula quebra-galho que tínhamos, e um tripé, ambos novinhos. Noventa bolivianos os dois, menos de vinte e cinco reais.

A barraca velha, demos para Soldado. “Pronto, vamos viver em Coimata, temos tudo o que precisamos e ainda economizamos a grana do hotel”, disse ele. Soldado é de Jujuy, província ao norte da Argentina. Louco, comprovando minha tese sobre os argentinos. Ele tinha acabado de trabalhar numa festa e estava com o pagamento no bolso. Sua namorada o esperava em outra cidade, era o casamento de alguém da sua família. E ele esperava o ônibus, de noite, cansado. Até que passou um com destino a Tarija. “Seria tão bom passar a noite dormindo nesse ônibus quentinho e entrar na Bolívia”, pensou. E foi o que ele fez, sem avisar ninguém.

Soldado faz mágica com os malabares (tirei umas fotos dele fazendo seus números com enormes pomelos, espécie de laranja gigante, mas ele pediu os negativos encarecidamente), e nunca para de falar e fazer palhaçadas. Ele e Thiago iam à cidade trabalhar alguns dias e eu ficava sozinha, me nutrindo do silêncio. Quando eles voltavam, festa – com Soldado não podia ser diferente. Ele foi embora ontem, de volta à sua terra.

Depois de tanto tempo presos em cidades, viver em plena natureza está sendo muito bom, revitalizando as energias. Sombra, fogueira e água fresca; precisa de mais?

Soldado e eu  - com tratamento psicodélico que dei para tentar salvar a foto de Thiago cujo negativo ferrou-se no caminho.

Soldado e eu - com tratamento psicodélico que dei para tentar salvar a foto de Thiago cujo negativo ferrou-se no caminho.

Texto escrito em 2006, parte do livro Viajeros.

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terça-feira, 7 de julho de 2009

Viajeros - Sabedorias ancestrais, Oruro e deserto de sal

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Saímos do Brasil com apenas uma meta objetiva: ir ao I Fórum Social Internacional de Sabedorias Ancestrais, de 12 a 15 de outubro de 2006 na pequena cidade de Quillacollo, ao lado de Cochabamba. Depois de todas as complicações para sair do Chile, chegamos ao fórum; dois dias atrasados, mas chegamos. O evento foi promovido pela Comunidade Janajpacha, cujos membros são conhecidos como os Pachamama (Mãe Terra, em quéchua).

Lhama na Comunidade Janajpacha.


Havia chilenos, brasileiros, argentinos e colombianos somando-se aos bolivianos e habitantes da comunidade. Temas importantes foram levantados, como a questão mapuche, apresentada por colegas chilenos, mas apresentações culturais e conteúdos relacionados à ancestralidade boliviana deixaram a desejar.

A comunidade

Quando o fórum terminou, pedimos para permanecer mais alguns dias no lugar. Queríamos conhecer seu funcionamento, conviver um pouco com seus habitantes. A iniciativa de construção do local foi de Chamalú, guia espiritual e líder da comunidade. Serviços de hospedagem, massagem e outras terapias alternativas suprem as necessidades financeiras.

Algumas pessoas estão lá há dez anos - qualquer um pode ser aceito, desde que queira desenvolver a espiritualidade, respeite as regras e permaneça no mínimo seis meses. Cigarro, bebida alcóolica e drogas ilegais são proibidos. Se alguém quiser fumar ou tomar uma cerveja, tem que sair para dar uma volta. Fomos aceitos entre eles, sem pagar pela estada, com a condição de participarmos das tarefas diárias.

Hotel da comunidade (foto de Thiago Martins).

Os moradores da comunidade - vindos da Colômbia, Venezuela, Argentina, Uruguai, México, Inglaterra e de outros países - eram, em sua maioria, jovens. Todos dispostos a descobrir mais sobre si mesmos, a reencontrar sua ligação com a natureza, aprendendo a ser mais compreensivos e solidários, ao mesmo tempo que mais combativos e esclarecidos.

Apesar da adoração à figura de Chamalú não me agradar, admiro a comunidade. Lá conheci pessoas muito boas, que buscam o seu melhor e o dos outros e que, principalmente, têm a coragem de tentar. Mas como diria Raul, “antes de ler o livro que o guru lhe deu você tem que escrever o seu”.

Oruro

Permanecemos cerca de duas semanas na comunidade e fomos para Cochabamba, onde passamos um mês aprendendo a viver de artesanato e malabarismo com novos amigos. De lá fomos para Oruro com os europeus Mathilde e Jeronimo, caminho obrigatório para chegar ao salar Uyuni.

Seca e a três mil metros de altitude, Oruro é uma cidade desbotada - tudo tem cor de pó. O hotel foi o pior que havia enfrentado até então: sem direito a banho, sem janela nos quartos, com banheiros sujos e cheiro ruim. Mas sobrevivemos.

Nessa época passei a me dedicar com mais intensidade ao artesanato e descobri que com uma boa lábia não se morre de fome. Pela primeira vez vendemos realmente bem, principalmente nos barzinhos noturnos. Os europeus também aprendiam a fazer trampo, sem objetivos financeiros, e Jeronimo nos ajudava a vender.

Antiga civilização

Descobrimos que perto de Oruro existem ruínas incaicas. Pegamos um táxi e chegando ao local pedimos informação num posto policial, onde sequer sabiam das ruínas. Fomos caminhando algumas horas por uma paisagem linda - ovelhas, vento, montanha e um pequeno córrego. Alcançamos as antigas habitações indígenas, feitas de barro, com apenas uma pequena abertura de entrada, para proteger o interior do vento. Em tempos remotos, representantes de uma antiga civilização viveram naquelas casas. Uma energia muito forte, misturada a uma sensação de intemporalidade, me tomou. O vento trazia, de muito longe, canções à Pachamama, contos de rituais, batalhas e fogueiras.

Ruínas em Oruro (foto de Mathilde Bokhorst).

Na volta passamos por um pueblito, um oásis no meio da aridez, na planície em frente ao morro onde se encontram as ruínas. As sociedades incaicas e pré-incaicas costumavam construir as habitações em plano mais elevado, de maneira que se pudesse observar a região ao redor; abaixo, nas planícies, ficavam as plantações.

Imensidão de paz

De Oruro seguimos para Uyuni - cidade excessivamente turísitica, até então só perdendo para San Pedro de Atacama. Achamos um hotel relativamente barato e confortável e fomos pesquisar os pacotes de turismo, pois para quem não conhece a região não é muito aconselhável desbravar um deserto branco sem um guia.

Eu no salar Uyuni (foto de Thiago Martins).

Aquele saco de cronograma turístico - dez minutos para tirar fotos aqui, mais dez minutos para comprar souvenirs ali. Chegamos à Isla del Pescado, no meio do Salar, e tínhamos duas horas para desfrutar. Eu e Thiago saímos para caminhar um pouco e acabamos sendo transportados para um universo branco, onde tempo e espaço perdem referências. Uma experiência mágica, surreal. Tenho muita vontade de voltar e passar uma semana acampando, para ver o que uma situação como essa pode fazer com a cabeça - é de enlouquecer mentes tão acostumadas com escalas como as nossas. Outra idéia é rodar um filme, a luz e o visual são deslumbrantes nesse infinito branco.

Nos despedimos de Mathilde e Jeronimo e fomos para Potosí - uma cidade com muita história, que pensei que me encantaria. No começo foi interessante, mas acabou me cansando. As vendas não iam bem, pessoas nos encomendavam trabalhos e não apareciam para buscar. Cansamos de ouvir “no tengo plata”, “más tarde” e de sermos tratados por quase todos como turistas parasitas, com um gélido distanciamento. Ficamos até juntar grana para o transporte e fomos para Tarija, ao sul da Bolívia.

Texto escrito em 2006, parte do livro Viajeros.

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