Parte do coletivo Soylocoporti

Olhares de (apenas) uma latino-americana

Arquivo do assunto ‘idealismo’

quinta-feira, 19 de agosto de 2010

A Flor e a Náusea

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Preso à minha classe e a algumas roupas,
vou de branco pela rua cinzenta.
Melancolias, mercadorias espreitam-me.
Devo seguir até o enjôo?
Posso, sem armas, revoltar-me?

Olhos sujos no relógio da torre:
não, o tempo não chegou de completa justiça.
O tempo é ainda de fezes, maus poemas, alucinações e espera.

O tempo pobre, o poeta pobre
fundem-se no mesmo impasse.

Em vão me tento explicar, os muros são surdos.
Sob a pele das palavras há cifras e códigos.
O sol consola os doentes e não os renova.
As coisas. Que tristes são as coisas, consideradas sem ênfase.
Uma flor nasceu na rua!

Vomitar esse tédio sobre a cidade.
Quarenta anos e nenhum problema
resolvido, sequer colocado.
Nenhuma carta escrita nem recebida.
Todos os homens voltam para casa.
Estão menos livres mas levam jornais
e soletram o mundo, sabendo que o perdem.

Crimes da terra, como perdoá-los?
Tomei parte em muitos, outros escondi.
Alguns achei belos, foram publicados.
Crimes suaves, que ajudam a viver.
Ração diária de erro, distribuída em casa.
Os ferozes padeiros do mal.
Os ferozes leiteiros do mal.

Pôr fogo em tudo, inclusive em mim.
Ao menino de 1918 chamavam anarquista.
Porém meu ódio é o melhor de mim.
Com ele me salvo
e dou a poucos uma esperança mínima.

Passem de longe, bondes, ônibus, rio de aço do tráfego.
Uma flor ainda desbotada
Ilude a polícia, rompe o asfalto.
Façam completo silêncio, paralisem os negócios
garanto que uma flor nasceu.

Sua cor não se percebe.
Suas pétalas não se abrem.
Seu nome não está nos livros.
É feia. Mas é realmente uma flor.

Sento-me no chão da capital do país às cinco horas da tarde
e lentamente passo a mão nessa forma insegura.
Do lado das montanhas, nuvens maciças avolumam-se.
Pequenos pontos brancos movem-se no mar, galinhas em pânico.
É feia. Mas é uma flor. Furou o asfalto, o tédio, o nojo e o ódio.

Carlos Drummond de Andrade

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quarta-feira, 17 de junho de 2009

Inverno precoce

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Chove em Curitiba. Após uma madrugada reescrevendo histórias bolivianas e passeando pela Bahia da década de 30 de mãos dadas com Jorge Amado e rodeada por garotos de rua impressionantes e comoventes, dormi sem tomar banho. As poucas gotas ralas de água me desencorajaram de meus hábitos higiênicos. Se ao menos o chuveiro esquentasse, se ao menos os meus calçados não estivessem todos furados (sou uma destruidora de sapatos – eles não resistem um mês às minhas pisadas tortas)… se ao menos não me sentisse tão só nessas noites frias… por que não me basto?

Acordei ao meio dia. Nestas minhas férias forçadas pela falta de pagamento por parte da excelentíssima Secretaria Estadual de Ciência Tecnologia e Ensino Superior (se o Estado não respeita meus direitos, quem respeitará?), brinco com meus horários. Minha mania vampiresca, minha ânsia por leitura e silêncio, meu deleite em ouvir belezas e cantar sozinha em meu quarto sempre me rolaram ladeira abaixo nessa tendência de trocar o sol suave da manhã pela quietude da madrugada. Tenho livros para ler, resenhas a fazer, fotos e vídeos para editar – felizmente minha produtividade não está comprometida pela falta de horário fixo e carteira assinada. Os únicos percalços são meus bolsos vazios, minha conta no negativo, minhas dívidas (até agora, poucas, mas amanhã, sabe-se lá).

Democratização da comunicação, políticas culturais, autodeterminação, latinidade – soy loco por ti América, soy loco por ti de amores. Há muito o que fazer, muito o que crescer, muito o que descobrir, muito pelo que lutar (muito o que aprender para saber pelo quê lutar). A vida é uma encruzilhada de três vias: espiritual – o Deus em tudo e em cada um de nós, as individualidades divinas; astral – a energia vital, mais sutil que a matéria e mais tátil que o espírito; e material – o que vemos claramente, o que tocamos, o que insistimos em assumir como a totalidade do universo, enquanto é tão óbvio que a vida vai muito mais além… E eu aqui, no meio de tudo isso, de sirenes de ambulâncias, o cara louco de cola na esquina dando socos no ar, o vizinho mala, carros, carros e carros – a materialidade asfixiante. O encanto da matéria… a vida também é isso, mas será só? Esquecemos de onde viemos, para onde vamos, afinal, por favor, nos perguntemos, qual o sentido de nossas vidas?

Café e cigarros. Matéria. Chuva e frio. Matéria. Filmes argentinos na cinemateca, mas não ouso sair de casa – já basta ter passado o dia de ontem com os pés encharcados. Matéria. E aqui estou eu, precisando de palavras e teclas para expressar minha subjetividade e reclamar da matéria.

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quinta-feira, 21 de agosto de 2008

Viajeros – Admirável Mundo Novo

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Aproveitando a passagem pela província de Córdoba, fomos à casa onde Che Guevara passou sua infância, transformada em museu. A casa se localiza em Alta Gracia, a cinquenta minutos de ônibus da capital da província.

comandante.che .guevara 225x300 Viajeros   Admirável Mundo NovoPudemos conhecer a história do menino e adolescente que viria a tornar-se o homem-mito, símbolo da luta por justiça e igualdade, e sua posterior trajetória como guerrilheiro e líder político. Sua dedicação aos seus ideais é memóravel. Um homem que na conduta privada e social seguia seus princípios, que dedicou a vida à construção de uma sociedade que não diferencia pobres e ricos, brancos e negros, homens e mulheres, e que acreditava que a luta armada era a única maneira de mudar o sistema opressor. Abdicou dos prazeres que sua condição social oferecia, da convivência com sua família, tudo na tentativa de concretizar o que achava ser o melhor para a humanidade.

“Sejam capazes de se indignar cada vez que virem uma injustiça”, escreveu Che Guevara aos seus filhos. Mas não queremos ver. Convivemos com crianças revirando lixo em busca de comida e desviamos o olhar. Selecionamos o que convém à estabilidade de nossos mundinhos de ilusão e consumo. Nos empilheiramos em grandes centros, cedemos à massificação, à desumanização e ao tratamento impessoal da civilização moderna. Fazemos dos meios os fins. O dinheiro deixa de ser uma ferramenta, passa a ser um objetivo em si mesmo, o maior e incontestável valor humano. Somos incapazes de conversar com os moradores de rua, de oferecer-lhes um pedaço de pão. Transformamos solidariedade e amor ao próximo em palavras vagas, esvaziadas de seu verdadeiro significado.

Somos egoístas. Competitivos. Capitalistas. “Que vença o melhor”, esse é o lema de nossa sociedade. Mas a maioria nem tem a oportunidade de desenvolver seu melhor, é explorada em subempregos, desempregada, sobrevive nas condições mais precárias de vida, excluída de infraestrutura e tecnologia.

Tenho vergonha do que a humanidade se tornou. Bando de selvagens egoístas, isso que somos. Temos medo. Queremos poder, conforto e prazer. Não dialogamos, trocamos frases mecânicas que não dizem nada. Conveniência social, bons modos. Desumanização. Escondemos o que temos de mais rico, de mais espontâneo e único atrás de frases feitas. Nossos olhos estão presos aos nossos umbigos. E assim, insistentemente, seguimos.

 

Esse texto faz parte do livro Viajeros, que foi publicado em posts nesse blog.

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quarta-feira, 4 de junho de 2008

Viajeros – Troca de pele

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É uma tarefa muito árdua a que me proponho: perceber e refletir culturas. A subjetividade da vida me surpreende, me assusta e, acima de tudo, me fascina. Como posso transmitir algo que só eu percebo? Como posso chamar meu ponto de vista de realidade? Quem sou eu para julgar, mesmo que nesse caso o julgamento tenha aspecto de análise?

Conhecer a dor, a luta e a força dos Sem-Terra já mudou a cor de meus olhos. Quem dirá um ano cruzando continentes?! Já fui muitas Micheles, ainda encarnarei muitas outras, até chegar a ser nenhuma. Queria apreender a alma do povo paraguaio, mas nem sei se tal coisa existe – fronteiras artificiais que separam os humanos são romantizadas e enaltecidas, mas no fim geram mais guerras que unidades.

Sei que quero conhecer pessoas, sentir o outro – quem sabe até ser o outro, descobrir terras nunca dantes desbravadas dentro de mim. Sei que há uma hegemonia parasita mundial. Acredito na união latino-americana para que tenhamos autonomia e possibilidade. Mas a revolução, aquela que sensibilizará a mesquinhez da Terra (ou terra) não se fará com armas. A verdadeira revolução se dará (ou, infelizmente, não) na consciência. As armas não acabam com o medo e o egoísmo. O auto e alter conhecimento, creio que sim.

Estou abrindo minha pele, expondo minhas entranhas – no meio de tantos questionamentos, esse é agora meu norte. Mas minha bússola é caprichosa (ou despretenciosa) e pode apontar sua seta para qualquer direção a qualquer momento.

 Viajeros   Troca de pele
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Esse texto faz parte do livro Viajeros, que foi publicado em posts nesse blog.

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