Parte do coletivo Soylocoporti

Olhares de (apenas) uma latino-americana

Arquivo do assunto ‘literatura’

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2015

Trechos de Memorial do Convento, de José Saramago

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Memorial do Convento, José Saramago. Lisboa, Editorial Caminho, 1982.

Era uma vez um rei que fez promessa de levantar um convento em Mafra. Era uma vez a gente que construiu esse convento. Era uma vez um soldado maneta e uma mulher que tinha poderes. Era uma vez um padre que queria voar e morreu doido. Era uma vez. (Texto da contra-capa)

 so lua cosmologia 1024x850 Trechos de Memorial do Convento, de José Saramago

Por uma hora ficaram os dois sentados, sem falar. Apenas uma vez Baltasar se levantou para pôr alguma lenha na fogueira que esmorecia, e uma vez Blimunda espevitou o morrão da candeia que estava comendo a luz, e então, sendo tanta a claridade, pôde Sete-Sóis dizer, Por que foi que me perguntaste o meu nome, e Blimunda respondeu, Porque minha mãe o quis saber e queria que eu o soubesse, Como sabes, se com ela não pudeste falar, Sei que sei, não sei como sei, não faças perguntas a que não posso responder, faze como fizeste, vieste e não perguntaste porquê, E agora, Se não tens onde viver melhor, fica aqui, Hei-de ir para Mafra, tenho lá família, Mulher, Pais e uma irmã, Fica, enquanto não fores, será sempre tempo de partires, Por que queres tu que eu fique, Porque é preciso, Não é razão que me convença, Se não quiseres ficar, vai-te embora, não te posso obrigar, Não tenho forças que me levem daqui, deitaste-me um encanto, Não deitei tal, não disse uma palavra, não te toquei, Olhaste-me por dentro, Juro que nunca te olharei por dentro, Juras que não o farás e já o fizeste, Não sabes de que estás a falar, não te olhei por dentro, Se eu ficar, onde durmo, Comigo. (p. 56)

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quarta-feira, 10 de junho de 2009

Oscar Wilde: o prazer, o pecado e a crítica à aristocracia

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Em seu único romance, O Retrato de Dorian Gray, Wilde tratou da futilidade de seu tempo, refletindo muito da história de sua própria vida em sua obra.

oscar wilde 229x332 Oscar Wilde: o prazer, o pecado e a crítica à aristocracia

Retrato de Oscar Wilde.

Um jovem de beleza apolínea. Um pintor fascinado pela perfeição do rapaz. Um aristocrata refinado e envolvente, que incita o jovem a tomar consciência da sua beleza e do poder inerente a ela. A partir desses três personagens, uma obra-prima é conduzida, um caminho que parte da ingenuidade e deságua na ruína.

De acordo com os psicólogos, há momentos em que o desejo do pecado, ou do que os homens chamam de pecado, domina de tal modo a nossa natureza, que cada fibra do corpo e cada célula do cérebro parecem ser movidos por impulsos terríveis. Em tais momentos, os homens e as mulheres perdem sua liberdade e seu arbítrio. Dirigem-se como autômatos para seu fatal objetivo. O direito de escolher lhes é recusado e sua consciência está morta, ou, se ainda vive, é somente para emprestar atrativos à rebelião e encanto à desobediência. Pois todos os pecados, como sempre nos recordam os teólogos, são pecados de desobediência. Quando aquele espírito altaneiro, aquela estrela matutina do mal caiu dos céus, sua queda foi a de um rebelde. (O Retrato de Dorian Gray)

É um romance do desejo, da irrefreável sede de prazer e de toda imoralidade e ruína que acompanha o hedonismo egoísta. É também o retrato vazio de uma aristocracia improdutiva e luxuosa, que do alto de torres de futilidade e exagero vivia alheia às condições reais de seu tempo.

O retrato

Que momento maldito aquele em que o orgulho e a paixão o tinham impelido a implorar que o retrato suportasse o peso de seus dias para que ele pudesse conservar o esplendor imaculado da eterna juventude! Todas as suas infelicidades daí provinham. Melhor seria se cada pecado cometido trouxesse consigo sua punição rápida e segura. Há uma purificação no castigo. A prece de um homem para um Deus de justiça não deveria ser “Perdoai nossos pecados”, mas “Castigai-nos por nossas faltas”. (O Retrato de Dorian Gray)

Extravagante

Oscar Wilde nasceu na Irlanda em 1854, mas mudou-se jovem para a Inglaterra e passou seus últimos anos em Paris. Após o período universitário em Oxford, mudou-se para Londres, onde abusou da vida boêmia e ficou conhecido por suas excentricidades. Fundou o esteticismo, ou dandismo, movimento influenciado pela teoria da “arte pela arte”, defendendo a beleza como solução ao caos da sociedade humana. Foi convidado para viajar os EUA difundindo sua teoria, o que lhe proporcionou reconhecimento e fortuna.

Voltou à Inglaterra ainda mais extravagante. Casou-se, teve filhos e escreveu diversas peças. No auge de sua carreira, envolveu-se com um jovem aristocrata, filho de marquês, numa época em que o homossexualismo era proibido por lei. Após desgastantes processos judiciais, foi condenado a dois anos de prisão com trabalhos forçados, período no qual esvaiu-se sua saúde física e sua reputação artística. Após ser libertado, passou os últimos anos de sua vida em hotéis baratos de Paris, período esse de modesta produção literária. Durante a prisão e após ela, continuou alimentando, em sua alma e em prosa, a paixão que determinou o fim de sua liberdade e fama.

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sexta-feira, 20 de março de 2009

Crime e castigo, um romance da condição humana

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452px dostoevsky 230x305 Crime e castigo, um romance da condição humana

Retrato de Fiódor M. Dostoiévski.

Alguns livros destacam-se por tratarem de temas universais, tornando-se eternos. Crime e castigo, de Fiódor M. Dostoiévski, é um desses clássicos da literatura mundial. Ler essa obra é embarcar numa jornada na Rússia quando o capitalismo se estabelecia, sob a tutela aristocrática, e sementes socialistas já começavam a brotar. Talvez por isso, o sujeito da obra de Dostoiévski viva questões existenciais e morais tão profundas. Raskólhnikov, protagonista de Crime e castigo, estudante sem nobreza nem capital, se vê sem perspectivas de futuro e sofre em pensar em sua mãe e sua irmã, pelas quais nada pode fazer. Seu isolamento social permite que desenvolva teorias acerca da humanidade, chegando inclusive à obsessão. Trancado em seu sótão deplorável, alimenta as angústias que vive socialmente. Abaixo transcrevo um trecho do livro que, para mim, é crucial, sintetizando o conflito moral da obra, no qual Raskólhnikov discute um artigo de sua autoria.

- Os indivíduos se dividem, segundo a lei da natureza, em duas categorias: a inferior (a dos vulgares), isto é, se me permite a expressão, a material, que unicamente é proveitosa para a procriação da espécie, e a dos indivíduos que possuem o dom ou a inteligência para dizerem no seu meio uma palavra nova. É claro que as subdivisões são infinitas, mas os traços diferenciais de ambas as categorias são bem nítidos: a primeira categoria, ou seja, a matéria, falando em termos gerais, é formada por indivíduos conservadores por natureza, disciplinados, que vivem na obediência e gostam de viver nela. A meu ver têm a obrigação de ser obedientes, por ser esse o seu destino e não ter, de maneira nenhuma, para eles, nada de humilhante. A segunda categoria é composta por aqueles que infringem as leis, os destrutores e os propensos a sê-lo, a julgar pelas suas faculdades. Os crimes destes são, naturalmente, relativos e muito diferentes; na sua maior parte exigem, segundo os mais diversos métodos, a destruição do presente em nome de qualquer coisa de melhor. Mas se necessitarem, para bem da sua idéia, de saltar ainda que seja por cima de um cadáver, por cima do sangue, então eles, no seu íntimo, na sua consciência, podem, em minha opinião, conceder a si próprios a autorização para saltarem por cima do sangue, atendendo unicamente à idéia e ao seu conteúdo, repare bem. É só neste sentido que eu falo no meu artigo do direito ao crime. (Lembre-se, o senhor, que partimos de uma questão jurídica.) Embora, no fim de contas, não haja razão nenhuma para se ficar demasiado assustado; quase nunca a massa lhes reconhece esse direito, e até os castiga e os manda enforcar (mais ou menos); e assim, com absoluta justiça, cumpre o seu destino conservador, o que não é obstáculo para que, nas gerações seguintes, essa mesma massa erga os castigos sobre pedestais e se incline diante deles (mais ou menos). A primeira categoria é sempre a verdadeira dominadora: a segunda é… a futura dominadora. Os primeiros conservam o mundo e multiplicam-no matematicamente; os segundos movem-no e conduzem-no para a sua finalidade. Tanto uns como outros têm perfeito direito de existir. Em resumo: para mim, todos têm o mesmo direito, e… vive la guerre éternelle!…

De fato, Raskólhnikov comete um crime: assassina uma senhora usurária que penhorava objetos e, por fatalidade, mata também a irmã da velha, que aparece inadvertidamente na cena do crime. Ele rouba alguns de seus objetos de valor, mas não usufrui deles – esconde-os e abandona-os. Isso porque o assassinato não teve motivo financeiro, mas ideológico. Na minha leitura, sua teoria encara um evento que é social sob uma ótica natural, determinista. Ou seja, encaixa fenômenos sociais em leis da natureza. Sua visão é bastante oligarca, fazendo crer que existe uma enorme massa naturalmente inerte que deve ser guiada por homens à frente de seu tempo.
A teoria se justifica pela história, os mártires são seus trunfos. Porém os mártires, em geral, têm inicialmente o apoio da população à sua volta, destacando-se por sua liderança. Não é uma massa conservadora que os degola: são os detentores do poder, os fazedores das normas vigentes, que não permitem ameaças revolucionárias. Assim foi com Jesus Cristo e o Império Romano, Tiradentes e a Coroa, Che Guevara e as ditaduras militares sob a Doutrina Monroe, entre tantos outros casos.
Existe sim, historicamente, uma força conservadora e outra radical, é a tal da dialética, e há lideranças dos dois lados: os que comandam a estrutura vigente e aqueles que enxergam suas limitações e desejam transcendê-la. Entre esses dois pólos, uma enorme população que sobrevive sem considerar fatores dessa ordem transita, apoiando aqueles que os fazem acreditar que estão em defesa de seus interesses. A luta revolucionária hoje busca justamente que todos sejam atores sociais, que vejam com seus próprios olhos a realidade que os cerca e possam construir ferramentas de interação. Desse conceito surgem os termos “emancipação” e “autodeterminação”. Raskólhnikov não acreditava nisso. Sob sua visão, esses fatores foram determinados naturalmente e cabe a cada um aceitar seu destino.
Mas aí surge o conflito: ele não consegue viver em paz com seu crime. Seus nervos, em permanente estado de ebulição, o traem, e uma idéia cinzenta o assombra cada vez mais. Em sua teoria, ele previu que alguns seres conservadores poderiam, por alguma ironia do destino, acreditarem-se revolucionários.

- Apesar da sua propensão inata para a obediência, por alguma travessura da natureza, do que nem uma vaca está livre, muitos deles imaginam-se seres avançados, destrutores, e correm atrás da palavra nova, e isso com absoluta sinceridade. Na realidade, e com muita freqüência, não sabem distinguir os novos e até os olham com desdém, como a pessoas atrasadas e que pensam baixamente. Mas, a meu ver, isso não é motivo sério para inquietação, e o senhor, verdadeiramente, não deve sentir o menor desassossego, pois esses indivíduos nunca vão longe. Sem dúvida que poderiam ser castigados uma vez, pela sua presunção, a fim de recordar-lhes qual é o seu lugar; mas, para isso, nem sequer é preciso incomodar o verdugo: são eles mesmos que se flagelam, porque possuem uma elevada moralidade; alguns prestam-se mutuamente esse serviço e outros açoitam-se por suas próprias mãos… além disso, impõem-se diversas penitências públicas… o que é belo e edificante.

Imaginem seu desespero quando ele percebe que é um desses seres inferiores que se confundiram, crendo-se avançados! Traído por sua própria teoria, tendo que admitir seu fracasso e ocultar seu crime, entre intrigas familiares, a loucura o assola.
Dostoiévski é capaz de refletir a existência humana ao mesmo tempo em que recheia seu romance de cenas fantásticas, personagens ricos e diálogos impressionantes. Com essa combinação genial, eternizou suas obras. Um deleite para os amantes da literatura e àqueles que investigam a complexidade da alma humana.

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quarta-feira, 4 de fevereiro de 2009

Palavras, de José Saramago

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Saramago escreve um pequeno texto interpretativo e genial todos os dias em http://caderno.josesaramago.org. Eu recomendo. Muito. Aí vai uma palhinha. (Adoro quando alguém consegue dizer exatamente aquilo que eu sempre quis mas nunca consegui – esse é o caso.)

Não pode haver conferência de imprensa sem palavras, em geral muitas, algumas vezes demasiadas. Pilar insiste em recomendar-me que dê respostas breves, fórmulas sintéticas capazes de concentrar longos discursos que ali estariam fora de lugar. Tem razão, mas a minha natureza é outra. Penso que cada palavra necessita sempre pelo menos outra que a ajude a explicar-se. A coisa chegou a um ponto tal que, de há tempos a esta parte, passei a antecipar-me às perguntas que supostamente me farão, procedimento facilitado pelo conhecimento prévio que venho acumulando sobre o tipo de assuntos que aos jornalistas mais costumam interessar. O divertido do caso está na liberdade que assumo ao iniciar uma exposição dessas. Sem ter de preocupar-me com os enquadramentos temáticos que cada pergunta específica necessariamente estabeleceria, embora não fosse essa a sua intenção declarada, lanço a primeira palavra, e a segunda, e a terceira, como pássaros a que foi aberta a porta da gaiola, sem saber muito bem, ou não o sabendo de todo, aonde eles me levarão. Falar torna-se então numa aventura, comunicar converte-se na busca metódica de um caminho que leve a quem estiver escutando, tendo sempre presente que nenhuma comunicação é definitiva e instantânea, que muitas vezes é preciso voltar atrás para aclarar o que só sumariamente foi enunciado. Mas o mais interessante em tudo isto é descobrir que o discurso, em lugar de se limitar a iluminar e dar visibilidade ao que eu próprio julgava saber acerca do meu trabalho, acaba invariavelmente por revelar o oculto, o apenas intuído ou pressentido, e que de repente se torna numa evidência insofismável em que sou o primeiro a surpreender-me, como alguém que estava no escuro e acabou de abrir os olhos para uma súbita luz. Enfim, vou aprendendo com as palavras que digo. Eis uma boa conclusão, talvez a melhor, para este discurso. Finalmente breve.

 

 

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terça-feira, 22 de abril de 2008

Aos contemplativos

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Há um notável quadro do pintor Kramskói, intitulado O Contemplativo. Uma floresta no inverno; sobre a estrada vê-se um mujique, vestido com um cafetã rasgado e com sapatos de tília. Ali está numa solidão profunda e parece refletir, mas não pensa, contempla alguma coisa. Se se desse nele um encontrão, estremeceria e olharia como quem desperta, mas sem compreender. Na verdade, voltaria logo a si, mas se lhe perguntassem em que pensava, certamente não se lembraria de nada, mas, em compensação, decerto guardaria para si a impressão sob cujo império se achava durante sua contemplação. Essas impressões são-lhe caras e se acumulam nele, imperceptivelmente, sem que o perceba; com que fim, ele o ignora. Um dia, talvez, depois de havê-las armazenado durante anos, deixará tudo e partirá para Jerusalém, a fim de tratar de sua salvação. Ou então deitará fogo à sua aldeia natal, talvez faça mesmo as duas coisas sucessivamente.
Trecho de Os irmãos Karamázovi, Fiódor M. Dostoiévski.

Contemplar, meditar, entrar em êxtase com o universo; não seriam acaso o mesmo? Certamente, das contemplações armazenadas, podem-se derivar os mais loucos produtos: a queima da aldeia natal, uma peregrinação santa ou um livro magistral. Não seria Dostoiévski um desses contemplativos?
Literatos, fotógrafos, compositores e intérpretes são alguns daqueles que manifestam o produto de suas contemplações. Com o tempo elas vão se concretizando, como egrégoras que sob o império da criatividade tomam formas inusitadas.
Contemplar é ver através dos olhos de Deus.

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