Parte do coletivo Soylocoporti

Olhares de (apenas) uma latino-americana

Arquivo do assunto ‘movimentos sociais’

quarta-feira, 31 de agosto de 2011

Conversa com Aleida Guevara

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Mulher, cubana, comunista. A filha de Ernesto “Che” Guevara seguiu a formação em medicina do pai e tornou-se pediatra. Aleida Guevara esteve na 10ª Jornada de Agroecologia, em Londrina, para contar sobre os êxitos e desafios da Revolução Cubana, assim como da necessidade de uma relação mais solidária entre os países latino americanos.

Confira abaixo a íntegra da entrevista concedida à equipe de comunicação do MST e à comunicação compartilhada da Jornada.

Transcrição: Michele Torinelli


Aleida Guevara Conversa com Aleida Guevara
Aleida Guevara na 10ª Jornada de Agroecologia. Imagem: Joka Madruga.

Agroecologia em Cuba

Só produzíamos açúcar, grandes quantidades de açúcar. Isso teve como consequência o desgaste de grandes extensões de terra em Cuba. Por sorte, nos demos conta a tempo. Diminuímos o uso de terras para plantar cana e consideramos que o açúcar em si não era tão importante: eram muito melhores os derivados do açúcar. Começamos a pensar como a cana de açúcar poderia ocupar menos espaço e produzir mais, com melhor qualidade, como resolver os problemas – 1º: cuidar dessa terra; 2º: buscar plantações que possam recuperar as terras esgotadas pelo monocultivo de cana; 3º: fazer rotatividade de cultivos, para que a terra se reestabeleça e mantenha sua fertilidade.

Foi um processo difícil, perdemos o primeiro lugar entre os produtores de açúcar do mundo, mas recuperamos nossa terra. Hoje Cuba produz açúcar, não tanto, mas em melhor qualidade, produz muitos outros produtos, e estamos preocupados em melhorar a produção dos pequenos agricultores. Havia franjas de terra do Estado, entre terras de pequenos agricultores, que não estavam sendo utilizadas: foram redistribuídas. Estamos ampliando a agricultura que respeita a terra. Utilizávamos muitos químicos também, era moda. Com a desaparição do campo socialista europeu, não tínhamos mais petróleo, portanto as máquinas agrícolas não podiam mais ser usadas. Sorte que não nos faltaram alternativas – nos demos conta que somente plantando pequenos cultivos rodeados de outros que os protegessem podíamos dispensar os químicos, que acabavam com a terra. Isso ajudou a recuperar o solo, melhorou a produção, a quantidade e a qualidade dos produtos.

Ainda falta, ainda é necessário recuperar terras em Cuba. A colonização acabou com nossos bosques, a Espanha nunca nos pagou um centavo por toda a madeira roubada, e nem vão pagar. Quando fui a Portugal, na biblioteca de uma das melhores universidades do mundo, me disseram que não precisam de químicos para proteger seus livros, porque as estantes são feitas com madeira muito especial, preciosa. E de onde pegaram essa madeira? Do Brasil! E quando vão pagar ao Brasil? Nunca! Não queremos dinheiro, queremos respeito. Queremos que comecem a negociar com nossos produtos com respeito, pagando-nos o que realmente valem. Isso que queremos e vamos conseguir, pouco a pouco.

Há muito o que aprender com o campesinato. E com as populações autóctones também. Cuba não tem essa sorte – praticamente toda a população originária foi massacrada. Mas o Brasil tem, a Bolívia tem, Equador, Venezuela. Agora, com essa unidade latino americana, a Alternativa Bolivariana para as Américas (ALBA), estamos aprendendo mais sobre nossas raízes culturais – a proteger melhor a terra, por exemplo. Quando se tira da terra uma cebola, a que horas? Os quéchuas tiram a cebola da terra entre as 4h e as 6h da manhã, porque nesse horário o sol ainda não incide sobre a terra e a cebola guarda suas substâncias – a cebola é muito rica em vitamina C. Temos que aprender a respeitar a terra, os cultivos, para saber quando podemos tirar o melhor para o ser humano respeitando a terra. Essas coisas podemos aprender do nosso passado, com nossos povos autóctones, usando a tecnologia, as novas técnicas, mas respeitando aqueles que souberam utilizar nossa terra durante séculos.

Mas às vezes é difícil convencer os campesinos, porque por muito tempo eles foram ensinados de outra forma, foram pressionados por transnacionais para produzir de determinada maneira. E agora se está dizendo “não, é melhor de outra forma”. É necessário convencê-los, e nunca se convence a uma gente impondo algo, mas mostrando como se faz melhor. Isso leva tempo.

Contribuição do MST e da Via Campesina na construção do socialismo na América Latina Leia o texto completo »

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domingo, 26 de junho de 2011

Comunicação compartilhada: rádio ao vivo na Jornada

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Veja mais no blog da comunicação compartilhada da 10ª Jornada de Agroecologia

Numa oficina improvisada de comunicação compartilhada, surgiu a Rádio Agroecologia em Movimento. O programa aconteceu ao vivo durante o intervalo de almoço de sexta (24), durante a 10ª Jornada de Agroecologia.

Teve poesia, entrevista, recado e até música ao vivo. Ê, trem bom! É a comunicação popular!

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domingo, 23 de maio de 2010

Por uma sociedade mais feminina

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Michele Torinelli

de Francisco Beltrãoimg 4504 Por uma sociedade mais feminina

Seminário da Jornada de Agroecologia aborda questão de gênero

“Resistência não significa resistir ao que é novo. Resistência é permanecer com aquilo que é do nosso bem-viver, que nos garante a liberdade de vida”. Foi assim que Luciana Piovezan, coordenadora nacional do Movimento das Mulheres Camponesas (MMC), iniciou o seminário de gênero, uma entre as mais de quarenta atividades realizadas sexta-feira (21) na 9 ª Jornada de Agroecologia.

A partir de exemplos históricos da resistência feminina – Juçara, indígena que sobreviveu ao massacre do povo guarani no Rio Grande do Sul em 1729, e Aqualtune, princesa e guerreira africana que foi vendida como escrava para o Brasil e participou da fundação do quilombo dos Palmares – a coordenadora fez um balanço do processo histórico do patriarcado e da repressão da mulher.

Luciana explicou que grande parte das mulheres é responsável pela manutenção do cotidiano, da segurança e da soberania alimentar dos lares, dando sustentação à vida produtiva da sociedade. “70% desse trabalho, não remunerado, passa pela mão das mulheres”, indica. Na época da fundação, ao discutir qual nome assumiria, o MMC concluiu que o alimento é o que conecta as mulheres desde o sul ao norte do país, seja na etapa de cultivo ou preparo. Percebeu-se assim a profunda relação feminina com a agricultura, o alimento e a manutenção da família. “Entretanto, o trabalho da mulher é invisibilizado”, alerta.

Experiência agroecológica

Manoela Pereira, integrante do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra e do Movimento dos Pequenos Agricultores, compartilhou sua experiência organizativa. “Há oito anos, mulheres da Via Campesina promovem um grande encontro no Dia Internacional da Mulher na região central do Paraná, de forma autônoma e itinerante”, conta Manoela.

Ela participa da Ceagro, escola de agroecologia e centro de desenvolvimento sustentável da região, onde mulheres atuam com plantas medicinais, produção agroecológica e comercialização de produtos. “Há necessidade de organizar cada vez mais os trabalhos e as iniciativas já presentes”, conclui.

Solidariedade e luta

A coordenadora do MMC apontou que a solidariedade, tão presente nas práticas femininas, é uma importante faceta do projeto de mudança social. “Ao sermos solidários, estamos indo contra um dos principais pilares do capitalismo: o individualismo”, acredita. De acordo com Luciana, o capitalismo não permite que a diversidade prevaleça – como ocorre nas práticas de monocultura – e gera a dominação, como a que se dá entre o homem e a mulher.

“Nós todos estarmos aqui em Francisco Beltrão, as mulheres estarem aqui, é um ato de resistência”, enfatizou Luciana. O MMC está articulado nacionalmente há cinco anos, e atua na construção de um projeto de agricultura camponesa ecológico, fundamentado na defesa da vida, na mudança das relações humanas e sociais e na conquista de direitos.

[...]

As mulheres organizadas
De fato representam perigo
Ainda mais quando o inimigo
É provocador e algoz
Por mais que seja feroz
Elas o esmagaram à mão.

Qual fúria de um furacão
Fizeram ouvir sua voz.
O que era gigante tombou
O que era valente não veio
O bicho era tão feio
Soltou bramidos de dor
E elas mostraram que o amor
À vida está acima de tudo
Mostraram elas pro mundo
O que se faz com o opressor!!!

Seu moço, eu nem sabia que sabia, de Isaura Isabel Conte

Poema inspirado na ocupação da Aracruz Celulose em 8 de março de 2006 – cerca de 2 mil mulheres da Via Campesina tomaram a fábrica com o objetivo de denunciar os estragos sociais e ambientais causados pelo monocultivo de eucaliptos.

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quinta-feira, 20 de maio de 2010

Agroecologia em contraposição ao agronegócio

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Texto e imagens por Michele Torinelli

de Francisco Beltrão

Debate com Plínio de Arruda Sampaio e Letícia Silva abre o segundo dia da Jornada de Agroecologia

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O primeiro painel da 9ª Jornada de Agroecologia, que acontece em Francisco Beltrão (PR), denuncia o modelo do agronegócio e apresenta a agroecologia como alternativa sustentável. Com o auditório lotado, Plínio de Arruda Sampaio, presidente da Associação Brasileira de Reforma Agrária (ABRA), indica logo ao que veio: explicar como o capital atua na agricultura. Já Letícia Silva, gerente de normatização e avaliação da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (ANVISA), apresentou um panorama do comércio de agrotóxicos no país.

O capitalismo é caracterizado pela propriedade privada e pela busca do lucro. Contudo, não necessariamente o que dá lucro é o que satisfaz as necessidades da sociedade. “A gente tem que entender como o capitalista pensa. A cabeça dele funciona assim: onde eu coloco meu dinheiro para obter mais capital?”, ilustra Sampaio.

Na agricultura, a lógica é a mesma. O objetivo é obter lucro, e o que mais rende para o agronegócio é a exportação. “Está dando mais lucro vender para fora”, resume o presidente da ABRA. A técnica utilizada é a monocultura, que segundo o painelista, não convive bem com a pequena propriedade. A agroecologia vem justamente contrapor essa concepção. Seu objetivo é produzir alimento de qualidade, respeitando o ambiente e o próximo.

Agronegócio: cultura de morte

“O capital na agricultura é muito perigoso – ele precisa ser controlado”, alerta Sampaio. Os dados são alarmantes. Seis empresas controlam 80% do mercado brasileiro de agrotóxicos, o maior mercado mundial do produto. Foram comercializados mais de 790 mil toneladas de agrotóxicos no país em 2009, de acordo com o relatório da ANVISA, considerando somente o peso dos componentes (sem os produtos aos quais são agregados). “Isso dá uma média de 3 kg por habitante”, esclarece Letícia Silva.

Segundo a gerente da ANVISA, o capital dessas empresas transnacionais é maior que o PIB da maioria dos países da ONU – só no Brasil elas obtiveram 6,8 bilhões de dólares em 2009. Comparando com dados de 2008, o país consumiu mais que o dobro de agrotóxicos no período. “O relatório acaba com a lenda de que a liberação dos trangênicos diminuiria o uso de agrotóxicos”, contesta Letícia.

Escoamento de veneno

Mais do que lucrar no Brasil, empresas como Monsanto, Syngenta e Bayer enviam para cá produtos que foram proibidos nos EUA e na Europa por motivo de saúde pública. Além disso, outros agrotóxicos que já não eram mais utilizados no Brasil voltaram à circulação, pois as pragas estão cada vez mais resistentes.

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Letícia Silva, da Anvisa, durante sua fala. Ao lado, Plínio de Arruda Sampaio

Letícia conta que foi aprovado na União Européia o “direito à informação”, obrigando o agricultor que utiliza agrotóxicos a informar aos vizinhos a quantidade utilizada e respeitar a distância necessária para impedir a contaminação. Já no Brasil, não existe regulamentação semelhante.

Além de causar danos ao ser humano, os agrotóxicos são uma ameaça ao ecossistema. “O aquífero Guarani pode ser afetado e não há ninguém monitorando isso”, denuncia a gerente. “Podemos estar contaminando a maior reserva de água doce do mundo”, complementa.

Mudança de modelo

Ao final de sua fala, Letícia cobrou da sociedade civil que pressione o poder público , que diga “queremos que a ANVISA cuide de nossa saúde e não fique liberando veneno”. Em relação à propriedade da terra, Sampaio acredita em uma lei que restrinja o agronegócio. “É que nem um boi bravo; tem que cercar. Isso até agente poder acabar com ele”, provoca.

Os painelistas apontaram os dois principais pontos de uma renovação no campo: desconcentração da propriedade da terra, por meio de uma reforma agrária, e mudança no modo de cultivo, trocando a monocultura pela agroecologia. “Gente, precisamos da ajuda de vocês”, disse Letícia, convocando as 3 mil pessoas presentes.

“Hoje nós dependemos desse modelo. Mas num país socialista, o que vai valer é ter o povo alimentado e a natureza em equilíbrio”, acredita Sampaio. O objetivo, além da justiça entre os homens, é cultivar uma relação de integração com o meio. “A terra é nossa mãe. Dela nós viemos e para ela nós vamos voltar. A agroecologia é a sabedoria da vida”, acrescenta.

Veja mais sobre a Jornada de Agroecologia aqui

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domingo, 16 de agosto de 2009

Caras de luta

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Trabalhadores da cidade e do campo

que não vão pagar pela crise.

Dia Nacional de Lutas, 14 de agosto.

Praça Santos Andrade, Curitiba.

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Veja mais sobre o ato dos trabalhadores aqui.

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segunda-feira, 30 de março de 2009

Viajeros – Considerações finais sobre uma nação

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No momento em que estávamos chegando em Córdoba, comentei com o Thiago: “essa cidade tem um ar de Curitiba”. Mas a primeira impressão nem sempre fica. Córdoba é Córdoba.

Uma noite Thiago estava fazendo uma de suas performances nos semáforos quando foi chamado para ir trabalhar  numa festa com seus malabares por cerca de duas horas – em troca, ganharia 40 pesos. Ele topou, e eu fui junto. Foi bem engraçado – era uma festa para menores de idade, em uma boate. Uma piazada de 15/16 anos se esforçando para aparentar 20. As meninas superproduzidas, com micro-saias e tops, os meninos de calça larga, boné e cigarro na mão. Músicas horríveis a noite inteira, mas como ainda não nos alimentamos de luz, e nem sempre conseguimos carona, a grana é necessária. Ossos do ofício.

Ficamos num hostel cujo dono vivia lá mesmo. Ele dormia nos quartos para seis pessoas, em um beliche, junto com os hóspedes. Trabalhou em outros hostels que, segundo ele, eram muito “estilo empresa”. Ele não, ele quer receber os mochileiros na sua casa, em um ambiente informal e aconchegante. A ideia é legal, mas o problema é que alguns hóspedes ficavam o dia inteiro dentro do hostel – que, portanto, estava sempre cheio. Havia um computador com internet disponível, mas eu dificilmente conseguia usar, sempre tinha alguém.

Depois de uns dias queríamos encontrar outro lugar para ficar, onde pagássemos menos e tivéssemos mais espaço para ficar tranqüilos. Um dia eu e Thiago nos desencontramos e caminhamos separados pela cidade. Ele viu um cara tocando flauta, tirou uma foto, perguntou quanto custavam as flautas que ele produzia e assim foram conversando. Seu nome era Kike e fazia uns cinco anos que estava viajando; já pensava em voltar para o Equador, sua terra natal.

 Viajeros   Considerações finais sobre uma nação
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Kike. Foto de Thiago Martins.

Ele conseguiu que nós ficássemos na casa que ele alugava. Teríamos que pagar dez pesos diários por pessoa, mais barato que o albergue. Era um moquifo, não tinha uma panela limpa, mas para ficar só dois dias dava pro gasto. Na verdade, queríamos ter deixado Córdoba na sexta-feira, mas descobrimos que o trem para Buenos Aires só sairia no domingo. Nesses dias não planejados a mais, ficamos na casa de Kike.

Aliás, a viagem de trem foi uma decepção. Pensávamos que iríamos ver lindas paisagens pela janela, como nos filmes. Até poderia ter sido, se a viagem não fosse praticamente toda à noite. Saímos às 16h30 de Córdoba e chegamos a Buenos Aires às 07h30 da manhã. Mesmo assim foi interessante – além de muito barato. Na saída de Córdoba pudemos ver as villas, equivalente às favelas brasileiras. Chegou um dado momento em que tínhamos que fechar as janelas e persianas do trem, porque as pessoas jogam pedras. Ficou claro que a Argentina sofre dos mesmos problemas que o Brasil, mesmo que em diferentes proporções – concentração da população nas áreas urbanas industriais e a consequente marginalização da mão-de-obra excedente não qualificada que, como cães de rua, vive dos restos.

Thiago estava louco para fumar, afinal a viagem foi longa. Na fila do banheiro, encontrou um senhor que discutia em vão com o guarda para que pudesse fumar. Thiago entrou na conversa e, com a saída do guarda, acabaram os dois fumando juntos escondidos no banheiro. Que cena. O senhor veio sentar com a gente. Era sociólogo, militante da Teologia da Libertação – ala socialista da igreja católica.  Conversamos por muitas horas sobre sociedade, cultura e América Latina, até que o sono nos pegou. Acordamos em Buenos Aires.

Um país em declínio

Conversando com as pessoas, pude concluir que a Argentina, que por um longo período da história criou uma imagem de distanciamento da miserável situação latino-americana, está em crise. O ódio que sentem por Menem, o ex-presidente corrupto que fez o trabalho que Collor e FHC fizeram no Brasil, pode ser ouvido nas conversas e nas músicas. O histórico investimento em educação, tão característico do desenvolvimento argentino, vem sendo abandonado. As instituições de ensino mantidas pelo governo enfrentam as mesmas situações enfrentadas no Brasil: falta de verba, de professores e problemas de infraestrutura; o tal do sucateamento das escolas públicas. O desemprego assola a população. A marginalidade e o trabalho informal surgem da necessidade como soluções imediatas à crise.

Em Buenos Aires estava lendo As veias abertas da América Latina, de Eduardo Galeano. É triste perceber que os problemas são essencialmente os mesmos em nosso continente, independentemente do período histórico ou do país. Às vezes o poder se transfere de mãos, os produtos de exploração se alternam em ciclos, os regimes políticos são derrotados e substituídos, mas a estrutura de exploração é a mesma: expropriação das riquezas naturais e humanas, exportação da maioria do capital e concentração do pouco que fica na nação em mãos de uma elite intermediária. Como o grosso do capital vai para o exterior, o Estado fica sem verbas para os investimentos básicos, e vai pedir ajuda justamente para aqueles que lucram em seu território. O empréstimo vem, mas junto com várias “recomendações” de como investi-lo, mantendo esse sistema de exploração.

José Carlos Mariátegui fez um diagnóstico do Peru no ano de 1928, em Sete Ensaios da Realidade Peruana, porém sua validade se estende para a América Latina e, infelizmente, continua atual.

O obstáculo, a resistência a uma solução, encontram-se na própria estrutura da economia peruana. A economia do Peru é uma economia colonial. Sua movimentação, seu desenvolvimento, estão subordinados aos interesses e às necessidades dos mercados de Londres e de Nova Iorque. Estes mercados enxergam o Peru como um depósito de matérias primas e uma praça para suas manufaturas. A agricultura peruana obtém por isto, créditos e transporte apenas para os produtos que pode oferecer com vantagem nos grandes mercados. As finanças estrangeiras interessam-se um dia pela borracha, outro pelo algodão, outro pelo açúcar. O dia em que Londres possa receber um produto a melhor preço e em quantidade suficiente da Índia ou do Egito, abandonará imediatamente à sua própria sorte seus fornecedores do Peru. Nossos latifundiários, quaisquer que sejam suas ilusões que tenham acerca de sua independência, não deixam de agir, na realidade, apenas como intermediários ou agentes do capitalismo estrangeiro.

Mas a Argentina ainda tem uma vantagem, uma carta na manga: a consciência política. As manifestações artísticas argentinas frequentemente têm conteúdo crítico. A população em geral fala de política, reflete sobre a situação de seu país, desde os mais velhos até os mais jovens. Caminhoneiros me contaram das injustiças sociais, os músicos falam da desigualdade em seus discos. Nos dias em que passei em frente à Casa Rosada, sede do governo argentino, sempre havia manifestações populares. Há um movimento fundado pelas mães de perseguidos políticos, as Madres de Plaza de Mayo, que surgiu como protesto aos horrores da ditadura e exigia a volta com vida dos jovens desaparecidos. Esse movimento cresceu tanto que hoje possui um jornal, uma rádio, uma biblioteca e até uma universidade. Estive na biblioteca, que possui um acervo riquíssimo de obras sobre América Latina, povos autóctones, movimentos sociais etc.

Parece existir na Argentina uma consciência de que as coisas estão erradas, historicamente, e que não precisam ser assim. O próximo passo seria elaborar uma alternativa coletivamente e depois, o mais difícil, implantá-la – trabalho que os movimentos sociais vêm tentando desenvolver. Evoluir da consciência crítica para a construtiva.

Última parada

De Córdoba fomos para Buenos Aires e depois seguimos pedindo carona em direção ao Chile, com a intenção de parar na parte argentina da Cordilheira dos Andes e conhecer neve – o sonho de todo brasileiro. Fomos parar em Puente del Inca, uma cidadezinha povoada por uma base do exército e comerciantes que recebem diariamente as várias excursões de turismo que passam pela cidade. Todo esse clima turístico, incluindo os preços altos, não puderam abalar a nossa alegria. Voltamos a ser crianças. Ficamos só dois dias, cercados de lindas paisagens – uma curiosa e singular mistura de vegetação semi-desértica dos Andes e neve -, e seguimos rumo a Valparaíso, no Chile.

 Viajeros   Considerações finais sobre uma nação
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Puente del Inca.

Ao fim de nossa passagem pela Argentina, apesar de ser difícil colocar toda uma nação num mesmo saco, poderia definir os argentinos com duas palavras: loucos e apaixonados. Acho que essa rivalidade com os argentinos é porque eles têm uma personalidade muito forte, “personalidade demais”, para alguns. “É que o argentino tem muito amor próprio”, me disse Beto, o senhor de Junin. Pode ser. Mas pensando bem, encontrei uma terceira característica para os argentinos: loucos, apaixonados e apaixonantes.

 

Esse texto faz parte do livro Viajeros, que foi publicado em posts nesse blog.

Veja o post anterior.

Veja o próximo.

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segunda-feira, 16 de março de 2009

Terra sim! Barragem não!

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dsc 0009 230x152 Terra sim! Barragem não!O coletivo Soylocoporti, junto a diversos movimentos sociais e entidades, esteve nas cidades de Ribeira (SP) e Adrianópolis (PR), divididas por uma ponte que separa os dois estados. Essa região será fortemente atingida pela construção da Barragem de Tijuco Alto, que já está em início de processo de construção. Abaixo segue parecer com os danos que tal empreitada causará à área. As fotos que ilustram o post foram tiradas na marcha de protesto contra a barragem, seguida de Festival de Cultura, realizados neste último sábado, 14 de março, em caminhada de Ribeira a Adrianópolis.

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Mais uma contrução conduzida por uma lógica ultrapassada, colonizadora e elitista. É nosso dever protestar.

O Rio Ribeira de Iguape é o eixo de integração cultural do Vale do Ribeira, sendo o principal rio formador da Bacia Hidrográfica do Ribeira e Litoral Sul, incluindo a região do Lagamar. Há muito tempo os povos originários do Vale, os quilombolas, os ribeirinhos e os caiçaras vivem, plantam, pescam e dependem deste rio. dsc 0024 230x152 Terra sim! Barragem não! Foi assim que o Vale desenvolveu a sua maior riqueza: uma população que consegue, nas pequenas atividades como a agricultura familiar e a pesca artesanal, produzir e manter uma grande diversidade cultural e, ao mesmo tempo, conservar a maior área de Mata Atlântica do Brasil. Este equilíbrio caracteriza o Vale do Ribeira como uma região reconhecidamente com alta qualidade de vida, apesar dos baixos IDHs.

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Apesar disso, a Companhia Brasileira de Alumínio (CBA), uma das diversas empresas do Grupo Votorantim, tenta há mais de 20 anos construir uma Usina Hidrelétrica no Rio Ribeira de Iguape. O projeto da Barragem de Tijuco Alto está previsto para o trecho entre Ribeira (SP) e Adrianópolis (PR), no Alto Ribeira. Seu objetivo é SOMENTE produzir energia para AUMENTAR a produção de alumínio da CBA, localizada na região de Sorocaba, fora do Vale do Ribeira.
Aqui na região do Lagamar (Iguape, Cananéia e Ilha Comprida) podem ocorrer diversos impactos ignorados pela CBA e ainda não considerados pelo IBAMA: dsc 0044 230x152 Terra sim! Barragem não!prejuízos ao ecossistema manguezal, redução da pesca da manjuba, alteração da cadeia alimentar marinha. Estas alterações, além de trazer problemas sociais, poderão afetar fortemente o turismo, que depende da pesca e da observação de botos.

Você sabia que:

- a Barragem de Tijuco Alto pode NUNCA encher?

- serão apenas 60 empregos fixos?

- você paga 10 vezes mais pela energia do que empresas como a CBA?

dsc 0064 230x345 Terra sim! Barragem não! – o Lagamar pertence à Bacia Hidrográfica do Rio Ribeira de Iguape?

- o estudo de Impacto Ambiental, legalmente, deveria ser feito para toda Bacia?

- o Lagamar NÃO foi considerado no Estudo de Impactos Ambientais?

- esta energia não chegará na sua casa?

- há risco de contaminação com chumbo?

- agricultores foram expulsos de suas terras antes mesmo da hidrelétrica ser aprovada?

Fonte: http://terrasimbarragemnao.blogspot.com

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sexta-feira, 20 de fevereiro de 2009

Tiros contra MTST no interior de São Paulo

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Soube dessa notícia por amigos de São Paulo que estão com companheiros de luta presos e feridos. A matéria foi tirada do site do movimentohttp://www.mtst.info/.

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Nesse dia 19 de Fevereiro mais de 200 famílias sem-teto organizadas pelo MTST – Movimento dos Trabalhadores sem Teto –  saíram a luta para não serem despejadas pela Prefeitura de Mauá. São moradores do bairro Paranavaí que desde a ocupação de um terreno público que não cumpria sua função social, que não possui nenhum projeto governamental, e só era utilizado para ações criminosas como estupro, desova de cadáveres e tudo aquilo que uma comunidade não quer, foram em busca de um direito constitucional, o da moradia digna.

 

A coordenação do MTST, na ocupação realizada em setembro do ano, procurou desde o início dialogar com as autoridades locais, procurando a Prefeitura que mantinha um canal aberto com o movimento, chegando até a discutir o abastecimento de água para a ocupação.

Surpreendentemente, com a mudança de gestão na Prefeitura para o governo de Oswaldo Dias esse canal foi fechado. Na única reunião que houve com a Prefeitura dia 26 de Janeiro, já havia uma liminar de reintegração de posse, concedida pelo judiciário local desde o dia 15 do mesmo mês, e a Prefeitura nada informou as representantes do movimento, revelando uma postura autoritária e negligente com a iniciativa de diálogo tranqüilo proposta pelo movimento.

Não restando alternativas às famílias, fomos para a luta reivindicar nosso direito e abrir os canais de negociações com o município. Ocupamos o saguão da Prefeitura pacificamente e esperávamos uma negociação para nos retirarmos da mesma forma. Entretanto, numa ação desproporcional e truculenta a Guarda Civil Metropolitana a mando de representantes da Prefeitura, agrediu as famílias com cassetetes e tiros de revolver. Mais de 19 pessoas ficaram feridas, uma gravemente com ferimentos na cabeça e um de nossos companheiros foi baleado. A Polícia Militar deteve 79 companheiros que estão sendo liberados.

A atitude da Prefeitura em acionar a Guarda sem procurar qualquer diálogo, é inconseqüente, truculenta e autoritária. Já é sabido de todos o despreparo da Guarda Municipal para esse tipo de ação, e acionaremos todos os meios legais para afastar os responsáveis. Se alguém acreditou que haveria maior facilidade de diálogo com o Prefeito Oswaldo Dias, a máscara democrática e popular do governo caiu.

Essa atitude desumana e brutal da Prefeitura e da Guarda Civil de Mauá não nos fará parar: exigimos a suspensão do despejo para os moradores da ocupação no Paranavaí. A luta pelos nossos direitos é uma luta justa, e estaremos dispostos a fazê-la até que se cumpra.

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