Parte do coletivo Soylocoporti

olhares sobre o cotidiano da América Latina

Arquivo do assunto ‘poesia’

domingo, 22 de agosto de 2010

Viajeros - Vilarejo

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Sítio Arco-íris. O pôr-do-sol daqui é lindo - nuvens de algodão doce de Rondônia amareladas e rosadas. O fiel súdito vento anuncia a chuva, dando uma noção prévia do seu poder, trazendo consigo nuvens densas e promessas de vida. Ela, a Majestade, vem pelo lago - do outro lado as árvores já estão envoltas numa espécie de névoa aquática. Quando todos estão preparados para recebê-la, a chuva chega - momento de paz e quietude.

Porto Velho estava um saco. A paradoxal cidade amazônica onde não há árvores. Muito trabalho, pouco dinheiro. No auge do tédio, escrevi um poema-desabafo:

O tédio me envolve
com paredes de azulejos brancos,
conversa de novela vindo da sala de um hotel barato,
vestígio de goteira,
cheiro de mofo.

O tédio amarra meus pés e mãos na cama,
hipnotiza minha cabeça para achar tudo um saco.

Porto velho, novo, morto e eterno.
Eterno tédio que se faz vapor,
calor, gotas de suor.

Calypso infernal amolece minhas pernas,
aborta a sede do novo,
me tranca num quarto com as mãos nos ouvidos.

O tédio me tece um ninho, me faz cafuné,
minha musa, meu carrasco,
meu bicho de pé.

Até que um dia, enquanto trabalhávamos, um menino veio falar conosco. O nome dele era Alan, disse que vivia num sítio e que seríamos muito bem-vindos lá. A história é a seguinte: Jackson, um cara que já foi artesão-viajante e percorreu muita estrada, sempre buscou algo, estudou várias religiões e linhas esotéricas, até que decidiu morar num sítio, primeiramente sozinho. internet3Depois de uns anos sua mulher, Cláudia, e seus filhos, que viviam na cidade, também foram para lá. Eles se sustentam com a cerâmica e os tapetes que produzem, e recebem quem quer que seja, é só contribuir com comida, nos afazeres e respeitar a harmonia do lugar. Também vivem lá o acreano Leandro, a argentina Veronica e Valéria, irmã de Cláudia. Há quatro ou cinco dias Valéria deu à luz a uma criança linda, o Ba’aaruda, que trouxe mais alegria e paz ao sítio.

Nasce Ba’aaruda

O Santo Daime

O pessoal do sítio freqüenta uma igreja do Santo Daime. Trata-se de uma corrente cristã que utiliza em seus rituais uma bebida elaborada a partir de plantas que altera a consciência e que, segundo Jackson, desbloqueia um mecanismo de censura do nosso cérebro. Essa bebida é conhecida no Peru e na Bolívia como ayahuasca, parte de uma tradição indígena, usada até hoje em rituais de auto-conhecimento e purificação física e espiritual. A bebida foi legalizada no Brasil depois de estudos comprovando que ela não oferece riscos à saúde.

“Sabe aquela sujeirinha debaixo do tapete, que só você sabe que tá lá? Vem tudo à tona”, me disse um maluco brasileiro no Peru sobre a experiência com o ayahuasca. Jackson e Alan dizem que o Daime aponta um caminho, faz compreender os processos que ocorrem na vida e leva além desse mundo físico espacial-temporal que conhecemos.

Ao contrário do que algumas pessoas podem pensar, a igreja do Santo Daime é bem careta - eles usam farda, uma roupa cerimonial que mais parece roupa social, e os homens têm que estar com cabelo cortado e barba feita. Nas cerimônias eles cantam os hinos, que falam de Deus, do Daime, do Mestre Irineu - o fundador do Santo Daime, entre outras coisas.

O Daime é a mistura de duas plantas, controladas desde o plantio até a preparação. Os fardados elaboram a bebida na cerimônia do feitio.

Retiro espiritual

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Valéria nos últimos dias de gravidez

Aqui no sítio encontrei sossego, pessoas tranqüilas que trilham um caminho de aperfeiçoamento e ar puro. É um lugar lindo, repleto de árvores, às margens de um lago. O único infortúnio foi o desenvolvimento de uma doença no meu pé. Uma bactéria, o estafilocócus, se instalou em feridas de picada de insetos, creio que no fétido hotel em Porto Velho. Thiago também está infectado, mas em menor proporção. Aprendi a usar a necessidade de não poder me movimentar muito a meu favor aproveitando para ler, pensar e aprender bastante.

Depois de quinze dias tentando tratar minhas feridas de forma natural, o que exigia toda uma rotina diária de cuidados, me rendi à alopatia: tomei um “pics” de benzetacil no bumbum. Agora é esperar melhorar e seguir caminho - a estrada chama.

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quinta-feira, 19 de agosto de 2010

A Flor e a Náusea

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Preso à minha classe e a algumas roupas,
vou de branco pela rua cinzenta.
Melancolias, mercadorias espreitam-me.
Devo seguir até o enjôo?
Posso, sem armas, revoltar-me?

Olhos sujos no relógio da torre:
não, o tempo não chegou de completa justiça.
O tempo é ainda de fezes, maus poemas, alucinações e espera.

O tempo pobre, o poeta pobre
fundem-se no mesmo impasse.

Em vão me tento explicar, os muros são surdos.
Sob a pele das palavras há cifras e códigos.
O sol consola os doentes e não os renova.
As coisas. Que tristes são as coisas, consideradas sem ênfase.
Uma flor nasceu na rua!

Vomitar esse tédio sobre a cidade.
Quarenta anos e nenhum problema
resolvido, sequer colocado.
Nenhuma carta escrita nem recebida.
Todos os homens voltam para casa.
Estão menos livres mas levam jornais
e soletram o mundo, sabendo que o perdem.

Crimes da terra, como perdoá-los?
Tomei parte em muitos, outros escondi.
Alguns achei belos, foram publicados.
Crimes suaves, que ajudam a viver.
Ração diária de erro, distribuída em casa.
Os ferozes padeiros do mal.
Os ferozes leiteiros do mal.

Pôr fogo em tudo, inclusive em mim.
Ao menino de 1918 chamavam anarquista.
Porém meu ódio é o melhor de mim.
Com ele me salvo
e dou a poucos uma esperança mínima.

Passem de longe, bondes, ônibus, rio de aço do tráfego.
Uma flor ainda desbotada
Ilude a polícia, rompe o asfalto.
Façam completo silêncio, paralisem os negócios
garanto que uma flor nasceu.

Sua cor não se percebe.
Suas pétalas não se abrem.
Seu nome não está nos livros.
É feia. Mas é realmente uma flor.

Sento-me no chão da capital do país às cinco horas da tarde
e lentamente passo a mão nessa forma insegura.
Do lado das montanhas, nuvens maciças avolumam-se.
Pequenos pontos brancos movem-se no mar, galinhas em pânico.
É feia. Mas é uma flor. Furou o asfalto, o tédio, o nojo e o ódio.

Carlos Drummond de Andrade

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quinta-feira, 12 de agosto de 2010

Aqui e ali

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Sempre sinto que estou atrasada,
mas agem como se estivesse correndo demais.
Atrasada pra quê? Correndo pra onde?

Me engano fazendo de conta que controle meu destino,
que brinca comigo
- ao menos me faz acreditar que me gosta,
que zela por mim.

Sabe aquela coisa que não dá para explicar?
É bem isso.
Sou senhora, escrava e rebelde.
Me imponho, mas ignoro o que há dentro de mim.

E daí? E você? Sabe quem é?
Vou dançando. Cantando.
Se não sei quem sou, me invento.
Há coisas que ainda não é hora de abrir.

Me vou. Vamos?
O que será que há além daqui?

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segunda-feira, 2 de agosto de 2010

Do portão da casa

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Abri o portão
O coração rangeu.
Rangeu
dentro de mim
e eu sorri
como um lavrador sorri
com seu rosto de terra
e a boca rasgada de riso
diante da terra lavrada.

Abri o portão partido. Partiu-me
em dois horizontes.
Em dois gomos de um fruto fugaz.
Igual e desigual.

Abri o portão da minha casa.
E a ferrugem (ou seria orvalho?)
desatou o nó da palavra
pendurada por um fio
no fundo da garganta.

Abri o portão da casa de minha infância.
Mapa dobrado dentro de mim
desdobrado,
mapa mudo
onde afundei
em areia movediça
palavra por palavra.

Abri o portão da casa.
A boca do jardim, a travessia
do mundo.
O tempo fendeu
dentro e fora de onde vim
e espatifou as asas de papel
que vesti em mim.

Manchei roupa, amor e ávidos tatos
em polpa de fruto proibido.

Puiu-se a pele nova na vivência,
no corpo dividido.
Entre sonhos, frêmitos, tristuras
e o real vivido.

Pois ainda que sonhe o tempo todo
ter o tempo de encontrar a verdade
em minhas mãos,
nada sei de mim
além de fotografias estampadas no jornal.
E pouca coisa mais saberei
ainda que acredite o contrário a cada instante
e que meu campo de batalha comigo mesmo
dure a vida inteira deste sonho
como dura o sonho a vida inteira
e, muitas vezes, se projete
além do horizonte aberto
do portão,
pouco mais ou nada mais
saberei.

A caixa vazia
de um velho relógio colonial
desliza sobre as águas do rio Itajaí-Açu
entre a lua cheia partida
e a nuvem veloz.

E todas estas palavras
e outras tantas nem escritas nem ditas
(esfacelada luz de uma estrela sem face nem foice)
fazem parte da minha biografia transparente.
Nada menos
nada mais.

Lindolf Bell, poeta catarinense pouco conhecido fora de suas terras, apesar de sua densa obra.

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terça-feira, 15 de junho de 2010

quero quero quero

sim, quero mais, muito mais,
e daí?

por isso me movo, rosno, mordo
- antes a ferida aberta que o ser estagnado

por isso canto e ouço

não tenho metas, retas
somente ideais, curvas e setas

não quero me embalar em papel celofane
- me cansam as exigências do mundo
(por onde passo distraída
enquanto observam vitrines)

eu quero a sorte de um amor tranquilo
com sabor de pera mordida

quero olhares entregues e mãos abertas
sonos pesados e passos leves

quero a terra livre e o diálogo franco

quero

quero

quero

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quinta-feira, 1 de abril de 2010

Tudo meu

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Sinto que penso que sei o que acho que sonho
Ouço o silêncio noturno contar-me segredos do tolo e do rei

Fecha os olhos
Sente o cheiro
A rosa que surge na praça brotou no cimento e se ergue no ar

A poesia, a rua, o beco
o castelo e o pedreiro
a bruxa e o cocar

É tudo meu
é meu cantar

O tempo parado na sala
o pão e a mortalha
o medo de amar

É tudo meu
é caminhar

É o equilíbrio entre o chão e o Universo
na tênue linha que corta o ar

Mal sei o que sou,
identidade entre névoas,
pistas discretas indicam meu Eu

Cultivo com carinho
os retalhos que me criam
colagem efêmera de fotografias de Deus

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terça-feira, 26 de janeiro de 2010

Para quem?

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Casa de Cultura de Paraty, eu e os funcionários

Nos quadros que retratam a colonização,
somente nomes de pintores europeus

“Engraçado que é sempre os outros que contam a nossa história”, desabafei

… silêncio …

“Não tem arte indígena?”

“Ahn?”

“Arte indígena.”

“O quê??”

“A-r-t-e i-n-d-í-g-e-n-a!”

“Acho que tem uma peça de artesanato lá em cima.
Mas foram os espertos que contaram a história.
Os índios não tinham papel e pincel.”

Artesanato indígena
no chão das ruas

Arte branca
em galerias e museus

Pedras, igrejas
e casarões coloniais
Macaquinhos pulando
sobre telhados e quintais

Montanhas de Mata Atlântica,
porto e cachoeira
Paraty, mas não para aqueles
de pele amarela e negra

Paraty, gringo
Paraty, elite branca

Paraty

mas não para nós

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segunda-feira, 26 de outubro de 2009

Livra o nome de inúteis sons

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Livra o nome
de inúteis sons
de letras a mais
ou a menos

Livra o destino
do nome gravado
Do nome escrito
em areia do tempo,
no imutável tempo
do nome

Livra a alma
de escudos, estrelas demais
De tudo supérfluo,
de toda superfície,
do aluamento do ser

Livra a liberdade
de todo lastro
De qualquer lustro
De vocábulos insólitos, grandiloqüentes,
feitos de nada,
vocábulos de enfeite, confeitos

Livra-te do palmo de terra
que te cabe
De panfletos do sentimentalismo
Dos improvisos da paixão

Livra-te de ti
antes de tudo
Livra-te a fio de navalha
Livra-te a fio de idéia
que da dor faz palha

Livra-te de idéias fixas
Porque a dor alheia
também é nossa

Lindolf Bell

Poeta catarinense, pouco conhecido fora de suas terras, apesar de sua densa obra. O primeiro de alguns poemas dele que disponibilizarei aqui.

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segunda-feira, 12 de outubro de 2009

O Homem e o Tempo

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Ele sonhava encontrar o Tempo
tirar suas sandálias
e convidá-lo a cear

O diálogo seria o silêncio
sem pratos, sem mesa
Ele e o Tempo
sentados no chão de luar

Na fogueira da criação
assariam seu jantar
comeriam a vida, a morte
e a semente do recomeçar

Ele sonhava encontrar o Tempo
enquanto o Tempo é o próprio sonhar.

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segunda-feira, 7 de setembro de 2009

Mais poemetos

De mim

Dona de mim?!
Não sou dona de nada.

Deslizo em minhas vontades,
Escalo os meus sonhos,
Transito entre meus medos,
Disfarço meus enganos.

Fumo cigarros na descontinuidade do silêncio.
Tomo café em xícaras sem asas.
Meus sentimentos, não os controlo:
Surgem de mim e viram minha casa.

Minha mãe diz que tenho um urso dentro de mim
Um urso que se conforta na solidão.

Sou filha de mim;
Dona, não.
.
.
Eterealidade

Não sei se me pertenço;
Esse sonho é meu,
Ou será de quem?

A realidade insiste em parecer real.
Há um rato na cozinha.
.
.

Matéria composta de vazio
Ondas invisíveis, visível solidão.

O abstrato toma forma
E se liquefaz.
.
.
Linguística

Infindável dedicação:
perceber e catalogar ideias. Em vão.
Pássaros amarrados não voam.

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domingo, 30 de agosto de 2009

Poemas descobertos - Prostituição moral

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Esse é da época em que eu trabalhava num banco aí…
nos idos de 2004.

Prostituição moral
vendendo minha dignidade
pra sair desse lixo
a chegada à “liberdade”
se resume a isso.

Sonhos contados em moedas
enquanto estou nessa prisão sem celas
trabalho maquinal, lavagem cerebral,
luta cotidiana pra deixar tudo igual.

Pra fugir dessa vida
que planejaram pra mim
tenho que me prostituir,
engolir meu desprezo e sorrir.

Me esforço pra não esquecer quem eu sou
não posso deixar a mesquinhez me sugar
queria não estar onde estou
mas esse é o preço que tenho que pagar.

Medo e consumismo
combustível dessa máquina
que quer me esmagar
culpam o terrorismo
mas é a pressão desse sistema
que não deixa respirar.

Minha vida há de ser mais que uma tarja magnética.

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terça-feira, 2 de junho de 2009

Poemas descobertos - Apocalíptico*

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*Estava procurando uns textos sobre o imaginário incaico. Não achei, mas encontrei esses poemas, pra minha surpresa (como Amelie Poulin, que encontra o esquecido e antigo tesouro de uma criança e possibilita o emocionante encontro de um homem com a sua infância). Não, esses poemas não são da minha infância - escrevi-os durante a faculdade, meu período de ebulição da consciência crítica, com aquele sentimento de que “alguma coisa está fora da ordem”… Aí vai o primeiro (não estão em ordem cronológica - em verdade, estão rabiscados em folhas soltas. Emocionante. Pedaçinhos de um eu que, em sua totalidade, já não existe mais).

Apocalíptico

Perdão, eu não vou mais dançar essa dança
Esse ritmo é sério demais.

Perdão, mas eu quero viver no meu ritmo
porque escondido no meu íntimo
estou sofrendo demais.

Com meus sonhos inconcretos
fico preso entre os muros de concreto,
com minhas asas enroscadas no cimento
eu não consigo lutar.

Um dia a cidade há de cair
e os sonhos vão se libertar.

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terça-feira, 7 de abril de 2009

Poemetos

Poemetos escritos da única maneira que sei escrever poesia: quando o papel e a caneta chamam, sendo a única solução para a insônia. A caneta corre no papel assim sem muita pretensão nem racionalização - é a expressão livre do eu.

 

Teoria da queimadura

Coitadas das minhas células
sofrem queimadas, sem saber porquê.

Talvez haja mundos em cada uma delas -
seus habitantes criam teorias acerca de Deus e o Universo (no caso, Eu).
Não compreendem que sua galáxia é a batata da minha perna
e agonizam, queimados, sem saber porquê.

Devem achar que é o fim dos tempos.
Aquecimento global.
A fúria dos anjos.
Não os culpo. Talvez o meu mundo
seja uma célula da batata da perna de Deus,
e também agonizo sem saber porquê.

 

A vida

Caí.
Machuquei.
Gritei.
Levantei.
Curei.

Nada de manha.
A vida é dura.

 

Eco emotivo

Por que não devo pensar
no que poderia ter sido?

Esmiuçar cada sonho do passado, possibilidades
labirinto de ecos do vivido.

Devo ter medo de me machucar?
Pode ser divertido.

 

Desmimada

Solteira e longe dos pais,
não sei mais chorar arrancando os cabelos.

 

Declaração

Sinto muito, mas nunca vou te deixar em paz.
Te amo.

 

Colorizando

Qual é a cor do seu desejo?

O meu é rosa, bem de menina.
(Mas pode ficar vermelho).

 

Desbocada

Se minha boca te disser mentiras,
não acredites.

Ela não sabe o que fala.

 

Vulgar

Ri com os dentes escangalhados,
boca aberta, vermelha, borrada, impudica.

Não a queira ver chorar.

 

P.S. Percebo uma certa influência dos Tiros Curtos do Joselito - mas os dele são bem melhores.

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quinta-feira, 26 de março de 2009

Minha Terra

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Repousa os pés na estrada
a cada passada
o nosso descanso é cruzar fronteiras

Minha terra tem palmeiras
mas eu nunca vi
tem palmares, tem quilombos
xavante, tupi

Minha terra tem aldeias
mas eu nunca vi
onde o vento é quem semeia
o alimento guarani

Minha terra tem lugares
que eu nunca fui
densas matas, tenros vales
onde a água flui

Minha terra tem estradas
minha terra tem estribos

Sou índio da cidade
desertor de minha tribo
ser urbano jogado no mundo
ser mundano perdido na urbe
um sulamericano perdido
que não quer ser mais um no cardume

Sou vagalume, sou vagalume
vejam minha luz!

Essa terra tem mil deuses
um deles que me conduz
essa terra tem canções
essa terra tem cantigas
mas o ouro dos brasões
veio abrir nossas feridas

Essa terra é muito antiga
essa terra é muito antiga

Repousa os pés na estrada
a cada passada
o nosso descanso
embalado pelo canto
em qualquer canto
desbravando os brasis
se as veias estão abertas
seremos a cicatriz

Poema de Marcus Vinicius (http://versosevasos.blogspot.com), o Mascote da Expedición Donde Miras - Caminhada Cultural pela América Latina (www.expediciondondemiras.blogspot.com).

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quarta-feira, 11 de fevereiro de 2009

Troca de pele

Dizem que só se morre uma vez.

Eu já morri três.

Tive a cabeça cortada, o coração arrancado e a lucidez liqüidada,

respectivamente.

Foram me perdendo a cabeça desde que nasci.

Refiz ouvindo as palavras soltas que me chegam,

retalhos de conversas, palavras russas, baleiros, chicos e zecas.

O coração e a lucidez se perderam um atrás do outro,

efeito borboleta nebuloso.

A lucidez… perdemos em dupla,

mas como ser rastejante que apenas sonha voar

fiquei pregada ao solo e ele partiu

suas asas criaram redemoinhos,

quase tudo destruiu.

Não a mim. Troquei de pele.

Agachada, junto os caquinhos do meu coração e vou colando,

agregando as flores mais bonitas,

regando-as com as lágrimas mais límpidas,

esperando com os cotovelos apoiados na janela uma nova brisa soprar.

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