Parte do coletivo Soylocoporti

olhares sobre o cotidiano da América Latina

Arquivo do assunto ‘reflexão’

quinta-feira, 19 de agosto de 2010

A Flor e a Náusea

, , , , ,

Preso à minha classe e a algumas roupas,
vou de branco pela rua cinzenta.
Melancolias, mercadorias espreitam-me.
Devo seguir até o enjôo?
Posso, sem armas, revoltar-me?

Olhos sujos no relógio da torre:
não, o tempo não chegou de completa justiça.
O tempo é ainda de fezes, maus poemas, alucinações e espera.

O tempo pobre, o poeta pobre
fundem-se no mesmo impasse.

Em vão me tento explicar, os muros são surdos.
Sob a pele das palavras há cifras e códigos.
O sol consola os doentes e não os renova.
As coisas. Que tristes são as coisas, consideradas sem ênfase.
Uma flor nasceu na rua!

Vomitar esse tédio sobre a cidade.
Quarenta anos e nenhum problema
resolvido, sequer colocado.
Nenhuma carta escrita nem recebida.
Todos os homens voltam para casa.
Estão menos livres mas levam jornais
e soletram o mundo, sabendo que o perdem.

Crimes da terra, como perdoá-los?
Tomei parte em muitos, outros escondi.
Alguns achei belos, foram publicados.
Crimes suaves, que ajudam a viver.
Ração diária de erro, distribuída em casa.
Os ferozes padeiros do mal.
Os ferozes leiteiros do mal.

Pôr fogo em tudo, inclusive em mim.
Ao menino de 1918 chamavam anarquista.
Porém meu ódio é o melhor de mim.
Com ele me salvo
e dou a poucos uma esperança mínima.

Passem de longe, bondes, ônibus, rio de aço do tráfego.
Uma flor ainda desbotada
Ilude a polícia, rompe o asfalto.
Façam completo silêncio, paralisem os negócios
garanto que uma flor nasceu.

Sua cor não se percebe.
Suas pétalas não se abrem.
Seu nome não está nos livros.
É feia. Mas é realmente uma flor.

Sento-me no chão da capital do país às cinco horas da tarde
e lentamente passo a mão nessa forma insegura.
Do lado das montanhas, nuvens maciças avolumam-se.
Pequenos pontos brancos movem-se no mar, galinhas em pânico.
É feia. Mas é uma flor. Furou o asfalto, o tédio, o nojo e o ódio.

Carlos Drummond de Andrade

Nenhum comentário »

quinta-feira, 12 de agosto de 2010

Aqui e ali

,

Sempre sinto que estou atrasada,
mas agem como se estivesse correndo demais.
Atrasada pra quê? Correndo pra onde?

Me engano fazendo de conta que controle meu destino,
que brinca comigo
- ao menos me faz acreditar que me gosta,
que zela por mim.

Sabe aquela coisa que não dá para explicar?
É bem isso.
Sou senhora, escrava e rebelde.
Me imponho, mas ignoro o que há dentro de mim.

E daí? E você? Sabe quem é?
Vou dançando. Cantando.
Se não sei quem sou, me invento.
Há coisas que ainda não é hora de abrir.

Me vou. Vamos?
O que será que há além daqui?

Nenhum comentário »

segunda-feira, 12 de abril de 2010

Das três transformações

, , , ,

Filho de pastor, criado para ser pastor, ele negou toda sua herança moral. Em meados do século XIX, Nietzsche abriu mão do comodismo e foi o mais fundo que conseguiu na busca da compreensão humana.

nietzsche

Assim Falou Zaratustra é o primeiro livro que leio deste filósofo. Ainda estou na metade de suas páginas, mas suas reflexões têm me tocado intensamente. A obra trata dos ensinamentos deste personagem, que após anos e anos lapidando sua conscência e seus sentidos em companhia da natureza, percebe que sua sabedoria não pode se saciar sozinha. Seu cálice deveria esvaziar-se para novamente poder ser preenchido.

No trecho abaixo, Zaratustra fala ao povo de um vilarejo chamado Vaca Malhada. Ouso insinuar que poderá ser melhor compreendido por aqueles que se dedicam de coração a pensar e praticar conscientemente a evolução humana. Ou, espero, possa despertar fagulhas nos corações embrutecidos.

Das três transformações

“Três transformações do espiríto vos menciono: como o espírito se converte em camelo, e o camelo em leão, e o leão, finalmente, em criança.

Há muitas coisas pesadas para o espírito, para o espírito forte e de carga, respeitoso. A força desse espírito clama por coisas pesadas.

O que há de mais pesado? - pergunta o espírito de carga. E ajoelha-se feito camelo e quer que o carreguem bem. Que há de mais pesado, heróis? - pergunta o espírito de carga - para que eu o deite sobre mim, e a minha força se recreie?

Não será rebaixarmo-nos para o nosso orgulho padecer? Deixar brilhar a nossa loucura para zombarmos da nossa sabedoria?

Ou será separarmo-nos da nossa causa quando ela festeja a sua vitória? Escalar altos montes para tentar o que nos tenta?

Ou será sustentarmo-nos com bolotas e erva do conhecimento e sofrer fome na alma por causa da verdade?

Ou será estarmos enfermos e despedir a consoladores e travar amizade com surdos, que nunca ouvem o que queremos?

Ou será nos afundar em água suja quando é a água da verdade, e não afastar de nós as frias rãs e os quentes sapos?

Ou será amar os que nos desprezam e estender a mão ao fantasma quando nos quer assustar?

O espírito de carga sobrecarrega-se de todas estas coisas pesadíssimas; e à semelhança do camelo que corre carregado pelo deserto, assim ele corre pelo seu deserto.

No deserto mais solitário, porém, se efetua a segunda transformação: o espírito torna-se leão; quer conquistar a liberdade e ser senhor no seu próprio deserto.

Procura então o seu último senhor, quer ser seu senhor, quer ser seu inimigo e de seu último deus; quer lutar pela vitória com o grande dragão.

Qual é o dragão a que o espírito já não que chamar Deus, nem senhor?

‘Tu deves’, assim se chama o grande dragão; mas o espírito do leão diz: ‘Eu quero’.

O ‘tu deves’ está postado no seu caminho, como animal escamoso de áureo fulgor; e em cada uma das suas escamas brilha em douradas letras: ‘Tu deves!’

Valores milenários cintilam nessas escamas, e o mais poderoso de todos os dragões fala assim:

‘Todos os valores das coisas brilham em mim.

Todos os valores foram já criados, e eu sou todos os valores criados. Para o futuro não deve existir o eu quero!’ Assim falou o dragão.

Meus irmãos, que falta faz o leão no espírito? Não será suficiente a besta de carga, que abdica e venera?

Criar valores novos é coisa que o leão ainda não pode; mas criar uma liberdade para a nova criação, isso pode o poder do leão.

Para criar a liberdade e um santo NÃO, mesmo perante o dever; para isso, meus irmãos, é preciso o leão.

Conquistar o direito de criar novos valores é a mais terrível apropriação aos olhos de um espírito de carga e respeitoso. Para ele isto é uma verdadeira rapina e próprio de um animal rapace.

Como o mais santo amou em seu tempo o ‘tu deves’, e agora tem de ver a ilusão e arbitrariedade até no mais santo, a fim de conquistar a liberdade à custa de seu amor. É preciso um leão para esse feito…

Dizei-me, porém, irmãos: que poderá a criança fazer que não haja podido fazer o leão? Para que será preciso que o altivo leão se converta em criança?

A criança é a inocência, e o esquecimento, um novo começar, um brinquedo, uma roda que gira por si mesma, um primeiro movimento, uma santa afirmação.

Sim; para o jogo da criação, meus irmãos, é necessário uma santa afirmação; o espírito quer agora a sua vontade, o que perdeu o mundo quer alcançar o seu mundo.

Três transformações do espírito vos mencionei: como o espírito se converteu em camelo, e o camelo em leão, e o leão, finalmente, em criança.”

Assim falou Zaratustra.

Nenhum comentário »

quinta-feira, 1 de abril de 2010

Tudo meu

,

Sinto que penso que sei o que acho que sonho
Ouço o silêncio noturno contar-me segredos do tolo e do rei

Fecha os olhos
Sente o cheiro
A rosa que surge na praça brotou no cimento e se ergue no ar

A poesia, a rua, o beco
o castelo e o pedreiro
a bruxa e o cocar

É tudo meu
é meu cantar

O tempo parado na sala
o pão e a mortalha
o medo de amar

É tudo meu
é caminhar

É o equilíbrio entre o chão e o Universo
na tênue linha que corta o ar

Mal sei o que sou,
identidade entre névoas,
pistas discretas indicam meu Eu

Cultivo com carinho
os retalhos que me criam
colagem efêmera de fotografias de Deus

3 comentários »

terça-feira, 26 de janeiro de 2010

Para quem?

, , , , ,

Casa de Cultura de Paraty, eu e os funcionários

Nos quadros que retratam a colonização,
somente nomes de pintores europeus

“Engraçado que é sempre os outros que contam a nossa história”, desabafei

… silêncio …

“Não tem arte indígena?”

“Ahn?”

“Arte indígena.”

“O quê??”

“A-r-t-e i-n-d-í-g-e-n-a!”

“Acho que tem uma peça de artesanato lá em cima.
Mas foram os espertos que contaram a história.
Os índios não tinham papel e pincel.”

Artesanato indígena
no chão das ruas

Arte branca
em galerias e museus

Pedras, igrejas
e casarões coloniais
Macaquinhos pulando
sobre telhados e quintais

Montanhas de Mata Atlântica,
porto e cachoeira
Paraty, mas não para aqueles
de pele amarela e negra

Paraty, gringo
Paraty, elite branca

Paraty

mas não para nós

6 comentários »

segunda-feira, 12 de outubro de 2009

O Homem e o Tempo

,

Ele sonhava encontrar o Tempo
tirar suas sandálias
e convidá-lo a cear

O diálogo seria o silêncio
sem pratos, sem mesa
Ele e o Tempo
sentados no chão de luar

Na fogueira da criação
assariam seu jantar
comeriam a vida, a morte
e a semente do recomeçar

Ele sonhava encontrar o Tempo
enquanto o Tempo é o próprio sonhar.

1 comentário »

quarta-feira, 17 de junho de 2009

Inverno precoce

, ,

Chove em Curitiba. Após uma madrugada reescrevendo histórias bolivianas e passeando pela Bahia da década de 30 de mãos dadas com Jorge Amado e rodeada por garotos de rua impressionantes e comoventes, dormi sem tomar banho. As poucas gotas ralas de água me desencorajaram de meus hábitos higiênicos. Se ao menos o chuveiro esquentasse, se ao menos os meus calçados não estivessem todos furados (sou uma destruidora de sapatos - eles não resistem um mês às minhas pisadas tortas)… se ao menos não me sentisse tão só nessas noites frias… por que não me basto?

Acordei ao meio dia. Nestas minhas férias forçadas pela falta de pagamento por parte da excelentíssima Secretaria Estadual de Ciência Tecnologia e Ensino Superior (se o Estado não respeita meus direitos, quem respeitará?), brinco com meus horários. Minha mania vampiresca, minha ânsia por leitura e silêncio, meu deleite em ouvir belezas e cantar sozinha em meu quarto sempre me rolaram ladeira abaixo nessa tendência de trocar o sol suave da manhã pela quietude da madrugada. Tenho livros para ler, resenhas a fazer, fotos e vídeos para editar - felizmente minha produtividade não está comprometida pela falta de horário fixo e carteira assinada. Os únicos percalços são meus bolsos vazios, minha conta no negativo, minhas dívidas (até agora, poucas, mas amanhã, sabe-se lá).

Democratização da comunicação, políticas culturais, autodeterminação, latinidade - soy loco por ti América, soy loco por ti de amores. Há muito o que fazer, muito o que crescer, muito o que descobrir, muito pelo que lutar (muito o que aprender para saber pelo quê lutar). A vida é uma encruzilhada de três vias: espiritual - o Deus em tudo e em cada um de nós, as individualidades divinas; astral - a energia vital, mais sutil que a matéria e mais tátil que o espírito; e material - o que vemos claramente, o que tocamos, o que insistimos em assumir como a totalidade do universo, enquanto é tão óbvio que a vida vai muito mais além… E eu aqui, no meio de tudo isso, de sirenes de ambulâncias, o cara louco de cola na esquina dando socos no ar, o vizinho mala, carros, carros e carros - a materialidade asfixiante. O encanto da matéria… a vida também é isso, mas será só? Esquecemos de onde viemos, para onde vamos, afinal, por favor, nos perguntemos, qual o sentido de nossas vidas?

Café e cigarros. Matéria. Chuva e frio. Matéria. Filmes argentinos na cinemateca, mas não ouso sair de casa - já basta ter passado o dia de ontem com os pés encharcados. Matéria. E aqui estou eu, precisando de palavras e teclas para expressar minha subjetividade e reclamar da matéria.

1 comentário »

sábado, 7 de março de 2009

Viajeros - Mudança de tempo*

, , , ,


*
*
*
*
*
*
*
*
*
*
*
Primeira vista da Cordilheira dos Andes.

Hoje, pela primeira vez, vimos montanhas na Argentina. Não se tratam de simples montanhas. Tivemos o prazer de vislumbrar a Cordilheira dos Andes, delineada pelo pôr-do-sol. Em dois dias de estrada praticamente cruzamos o país horizontalmente. Faltam menos de 300 km para chegarmos ao nosso destino, uma cidadezinha andina rodeada por neve, quase no Chile.

Acordamos em Buenos Aires às quatro horas da manhã. Pegamos três ônibus até chegarmos ao ponto da estrada indicado para pedir carona. Depois de algumas curtas caronas, chegamos à cidade de Cochabuco. Mais um fim de tarde, mais uma expectativa de dormir na estrada. Estávamos decidindo onde nos abrigar quando um carro com dois senhores de uns 50 anos parou. Iriam a Junin, a uns 50 KM dali. Aceitamos a carona, ao menos avançaríamos um pouco mais.

Eles faziam o tipo de quem nunca se espera uma carona - meia idade e roupa social. Mas os dois pareciam ser boa gente. Beto, que estava no volante, combinava um churrasco com seus amigos através do celular. Conversa vai, conversa vem, ele nos convidou para o churrasco. É claro que aceitamos de imediato, apesar de sermos vegetarianos. Abrem-se exceções. Beto ficou espantado com a rapidez com que eu aceitei, sem nem pensar muito. “É que eu gosto muito quando as coisas acontecem por si só, sem planejamento”, eu disse. ”Você deve gostar muito de churrasco, isso sim”, gracejou Beto.

Não conseguiríamos mais caronas, a noite já vinha chegando. Teríamos que pernoitar em Junin. “Onde vocês pensam em dormir?”, perguntou Beto. “Não sei, se tiver um albergue, um hotelzinho barato, um camping, não sei”, meio que perguntei, meio que respondi. No fim das contas, ele ligou para seu irmão, dono de um hotel que funciona na antiga casa da família de Beto, onde ele passou sua infância. “Pronto, consegui um lugar para vocês essa noite, e sem pagar nada”.

Não podíamos acreditar. Iríamos a um churrasco, a mais típica comida argentina, dormíriamos num hotel, tudo assim, de repente, do nada. Mas o mais tocante foi a atenção que recebemos. Beto nos mostrou a cidade, nos levava e buscava do hotel e, por sua insistência, acabamos ficando mais uma noite. Conhecemos sua família, seus amigos, até fui ao mercado com ele e sua filha. Pegaram dois carrinhos: enquanto ela fazia compras para a casa deles, ele comprava comida para uma senhora a quem ajuda. Abandonada pelo marido, desempregada e com cinco filhos pequenos para criar, ela mantém sua casa às custas de caridade. O carrinho dele estava cheio de carne, leite, queijo, frutas e besteirinhas para as crianças. “Pai, você vai gastar demais”, advertiu a filha. ”Quando a gente morre não leva nada junto, nem o dinheiro, não é verdade?”, disse Beto, com seu jeito bonachão.

No incidente “feira de artesanato na Plaza de Francia” fiquei muito decepcionada com o ser humano. Em momentos como aquele me pergunto se vale a pena tentar construir uma sociedade melhor, dedicar a vida a isso. Às vezes parece que o homem é um animal escroto por essência, que é essa a condição humana. Mas quando encontro pessoas como Beto, sua família e seus amigos, me encho de esperança, passo a acreditar que só precisamos de uma forçinha, que a bomba está prestes a explodir (se é que já não explodiu), que encontramos a escada, é só começar a subir. Brilha uma estrela no céu nublado.

*Esse post é refente ao livro que escrevi sobre a viagem que eu e Thiago Martins fizemos por países da América do Sul de agosto de 2006 a julho de 2007. O livro foi apresentado como trabalho de conclusão de curso em 2007 e chama-se Viajeros - nos fluxos da América do Sul. Há posts anteriores neste blog que contam a viagem desde o começo, e continuarei postando até o final do livro.

Nenhum comentário »

quinta-feira, 29 de janeiro de 2009

Devaneios de infância

,

Quando eu era criança, pensava como os carros seriam assustadores para quem viesse do passado, daquele passado onde só existiam cavalos e a carroça era o mais moderno meio de transporte. Grandes monstros sobre quatro rodas, grotescos, velozes e iluminados, comportando pessoas dentro. Nosso antecessor neste planeta faria oferendas ao deus da velocidade e da morte.

Também pensava como seria complicado voltar para o passado. Se uma máquina do tempo me transportasse à Idade Média, todos estranhariam minhas roupas. Se tivesse sorte de cair num lugar onde pudesse me comunicar, teria que explicar que vim do futuro. Contaria muitas coisas, desde guerras à invenção da televisão, um aparelho onde conseguimos ver imagens de todo o mundo na nossa frente. Falando em mundo, eu diria, vocês já sabem que ele é redondo?  Frase fatal. Considerada herege, morreria queimada na fogueira. Ainda tentaria me explicar, dizendo que realmente vim do futuro, podendo prever algumas coisas historicamente porque já havia lido nos livros de História. Simples: se você realmente veio do futuro, como ousa afirmar, construa essa tal de televisão, diria o inquisitor. Como nos nossos tempos modernos nunca sabemos como as coisas funcionam, só precisamos ter dinheiro para comprá-las, ficaria com cara de boba, e a multidão, insaciável, atearia fogo aos meus pés.

E os ETs, que tanto permeavam minha imaginação na infância! Eu pensava que o tempo de nossa vida era muito pequeno comparado com a deles. Nossa tão dramática e importante existência não passaria de um capítulo de novela, entretenimento antropológico para os seres intergaláticos.

Nostalgia, nostalgia… Me encanto com essa capacidade de se distanciar das coisas tidas como certas, de virar de ponta cabeça as regras básicas que norteiam o mundo dos adultos.

Nunca quero deixar de ser criança.

Nenhum comentário »

sábado, 6 de setembro de 2008

Viajeros - Homem primata

, , , ,

Nas situações mais corriqueiras me deparo com a necessidade urgente de uma grande mudança que parta da humanidade. É uma questão de mentalidade, dos valores básicos que regem nosso cotidiano, nossos relacionamentos, nossa visão de mundo, do outro e de nós mesmos.

Há pouco mais de um ano estive como turista em Buenos Aires. Naquela ocasião conheci a Plaza de Francia, que todo fim-de-semana é ocupada por uma feira de artesanato. Fiquei encantada com tantas coisas lindas, que por sua originalidade e engenhosidade atingiam a condição de arte. Hoje voltei à mesma praça, agora como artesã, e infelizmente o encanto se desfez.

Chegamos à praça e fomos fazer o “reconhecimento do local”. Percebemos que não havia artesãos estendendo panos no chão. Conversei com um vendedor e ele me confirmou que realmente a polícia não permite a venda informal. Amarrei nossos swings de fitas no pescoço e comecei a brincar com um par deles, mostrar como se faz. Se alguém parasse para olhar, daí sim diria que estavam à venda. Um jeitinho de driblar a polícia.

Ao meu lado, a uns seis metros, um senhor tocava seu violão, com o chapéu no chão. Ele pareceu fazer um gesto para mim. “Será que ele quer que eu saia?”, pensei. “Não, não deve ser isso”. Mas era. Ele se levantou e veio em minha direção. Disse que eu tinha parado muito perto dele, que era para eu sair dali. Argumentei que não estava pedindo dinheiro pelo “espetáculo” (eu estava treinando, minha habilidade com os malabares é pífia). Mas ele firmemente, ou rudemente, falou que eu desviaria a atenção das pessoas. “Há outros lugares por aí, aqui já tem gente suficiente”, concluiu. Virou as costas e voltou à sua posição. Eu, muito chateada, cedi. Afinal, se o trabalho de um artesão atrapalhasse o do outro, por que todos se juntariam em uma praça? Não é justamente a diversidade o atrativo das feiras?

Saí para dar uma volta, tirar fotos, espairar. Encontrei um outro senhor tocando violão e cantando. Apontei minha objetiva, estava ajustando o foco quando o vi fazer um gesto - dessa vez eu entendi, ele queria que eu colocasse uma moeda, justo eu, andarilha aspirante a artesã frustrada. “Sem dinheiro, sem foto”, disse ele. Parou a música só para me impedir de tirar uma foto. Fiquei tão chocada que não consegui argumentar. Nocaute. Justamente dois senhores, de quem se espera sabedoria, ou ao menos maturidade. No mínimo educação. Mas a pobreza de espírito não tem idade, sexo nem raça.

Lembrei dos artesãos de Isla de Cerrito. Sentiam imenso prazer em dividir seu espaço, sua comida, seu conhecimento com quem quer que fosse, inclusive dois brasileiros que haviam conhecido dois dias antes.

Sim, é uma questão de mentalidade, de valores. De pôr em prática a fraternidade e superar o egoísmo e o materialismo. Uma questão de se permitir evoluir, de plenamente ser humano.

2 comentários »

quinta-feira, 21 de agosto de 2008

Viajeros - Admirável Mundo Novo

, , , , ,

Aproveitando a passagem pela província de Córdoba, fomos à casa onde Che Guevara passou sua infância, transformada em museu dedicado à sua história. A casa se localiza em Alta Gracia, a cinqüenta minutos de ônibus da capital da província.
Pudemos conhecer a história do menino e adolescente que viria a tornar-se o homem-mito, símbolo da luta por justiça e igualdade, e sua posterior trajetória como guerrilheiro e líder político. Sua dedicação aos seus ideais é memóravel. Um homem que na vida privada e social seguia seus princípios, que dedicou a vida à construção de uma sociedade que não diferencia pobres e ricos, brancos e pretos, homens e mulheres. Acreditava que a luta armada era a única maneira de mudar o sistema opressor. Abdicou dos prazeres que sua condição social oferecia, da convivência com sua família, tudo na tentativa de concretizar o que achava ser o melhor para a humanidade.
“Sejam capazes de se indignar cada vez que virem uma injustiça”, escreveu Che Guevara aos seus filhos. Mas não queremos ver. Convivemos com crianças revirando lixo em busca de comida e desviamos o olhar. Selecionamos o que convém à estabilidade de nossos mundinhos de ilusão e consumo. Nos empilheiramos em grandes centros, cedemos à massificação, à desumanização e ao tratamento impessoal do homem moderno. Fazemos dos meios os fins. O dinheiro deixa de ser uma ferramenta, passa a ser um fim em si mesmo, o maior e incontestável valor humano. Somos incapazes de conversar com os moradores de rua, de oferecer-lhes um pedaço de pão. Trasformamos solidariedade e amor ao próximo em palavras vagas, esvaziadas de seu verdadeiro significado.
Somos egoístas. Competitivos. Capitalistas. “Que vença o melhor”, esse é o lema de nossa sociedade. Mas a maioria nem tem a oportunidade de desenvolver seu melhor, é explorada em subempregos, desempregada, sobrevive nas condições mais precárias de vida, excluída de infra-estrutura e tecnologia.
Tenho vergonha do que a humanidade se tornou. Bando de selvagens egoístas, isso que somos. Temos medo. Queremos poder, conforto e prazer. Não dialogamos, trocamos frases mecânicas que não dizem nada. Conveniência social, bons modos. Desumanização. Escondemos o que temos de mais rico, de mais espontâneo e único atrás de frases feitas. Nossos olhos estão presos aos nossos umbigos. E assim, insistentemente, seguimos.

Nenhum comentário »

quarta-feira, 16 de julho de 2008

Donde Miras - Questão guarani

, , , , ,

Ao passar por aldeias guaranis, algumas questões inevitavelmente vêm à tona. Eles vivem praticamente isolados, em territórios determinados e protegidos - uma grande prisão para que tenham a possibilidade de conservar sua cultura

Os guaranis, nativos de grande parte do território brasileiro, foram mortos, escravizados, roubados, aculturados e hoje vivem de cestas básicas do governo. Com valores completamente diversos daqueles vigentes em nossa sociedade capitalista, foram banidos desse tempo. Vivem à margem da sociedade, atrás de cercas, para que não tomem o pouco que lhes sobrou.


Menino na Aldeia Rio Branco, Itanhaém.

Martim Afonso, o primeiro escravagista do Brasil, é tido como herói e tem seu nome em ruas e instituições públicas. Já os índios mortos foram esquecidos. Não sabemos da cultura indígena. No dia do índio as crianças colocam cocares como o fariam com qualquer fantasia de carnaval. A sociedade “branca” nega suas origens.

Os jesuítas também têm seus nomes em ruas e são lembrados como nobres homens que trouxeram a palavra de Deus aos índios selvagens. Padre Anchieta conta com milhares de devotos. Mas que direito o homem branco tinha de trazer sua verdade como A Verdade, que Deus é esse que priva o homem de sua cultura e suas crenças? Ouvi uma história de um guarani que virou crente e chorava desesperadamente porque acreditava que todos os seus antepassados estavam no inferno.

Os guaranis nos mostraram sua receptividade, seu sorriso fácil, sua harmonia com a natureza e a capacidade física natural do homem, que o povo da urbes esqueceu sentado no sofá em frente à TV. Também nos mostraram as imensas dificuldades que enfrentam, a pobreza, o alcoolismo e a falta de identidade cultural daqueles que não são nem rurais nem urbanos, no limbo entre sua ancestralidade guarani e a civilização atual. A sociedade enterrou o índio, mas ele está vivo, sufocando. Seus gritos são ouvidos, vindos debaixo da terra. É hora de descavar.

Nenhum comentário »

quarta-feira, 25 de junho de 2008

Viajeros - Patriotismo Multinacional

, , , ,


*
*
*
*
*
*
*
*
*
*
Coca-cola desenhada em ñanduti, em Casa de Cultura da capital paraguaia.

3 comentários »

quinta-feira, 12 de junho de 2008

Viajeros - Ruínas e “progresso”

, , , , ,

Partimos de Assunção e fomos a Encarnación, na fronteira paraguaia com a Argentina. Uma pequena cidade, com sinais do desenvolvimento: supermercados, ruas pavimentadas e praças. As outras cidadezinhas eram mais roots - algumas abandonadas, outras com a graça e a paz interioranas. A riqueza de Encarnación vem em grande parte da agricultura, subsidiada pelo governo. O município exporta trigo e soja.

*
*
*
*
*
*
*
*
*
*
*
*
*
*
Perto de Encarnación se localizam as ruínas de uma antiga missão jesuítica. Lá as paredes só faltam falar. Provavelmente seriam histórias tristes de um povo que sofreu imposição cultural e religiosa, e depois de perder a “proteção” dos jesuítas foi escravizado pelos bandeirantes, aqueles “nobres desbravadores” dos quais ouvimos falar nas aulas de História.
Lindas imagens. Pedras corroídas pelo tempo e estátuas de santos já sem cabeças em contraste com o céu azul, sem uma nuvem sequer. Sóbrio e belo ao mesmo tempo.
Ruínas de todo um tempo, de toda uma história e de muito sofrimento. Mas afinal, os jesuítas cumpriram sua missão. É na América Latina que hoje se encontra o maior rebanho da Santa Madre Igreja Católica. Amém.


*
*
*
*
*
*
*
*
*
*
*
*
*
*
*
*
*
*
*

Nenhum comentário »

quarta-feira, 4 de junho de 2008

Viajeros - Reflexão intensa e subjetiva

, , , ,

É uma tarefa muito árdua a que me proponho: perceber e refletir culturas. A subjetividade da vida me surpreende, me assusta e, acima de tudo, me fascina. Como posso transmitir algo que só eu percebo? Como posso chamar meu ponto de vista de realidade? Quem sou eu para julgar, mesmo que nesse caso o julgamento tenha aspecto de análise?
Conhecer a dor, a luta e a força dos Sem-Terra já mudou a cor de meus olhos. Quem dirá um ano cruzando continentes?! Já fui muitas Micheles, ainda encarnarei muitas outras, até chegar a ser nenhuma. Queria apreender a alma do povo paraguaio, mas nem sei se tal coisa existe - fronteiras artificiais que separam os homens são romantizadas e enaltecidas, mas no fim geram mais guerras que unidades.
Sei que quero conhecer pessoas, sentir o outro - quem sabe até ser o outro, descobrir terras nunca dantes desbravadas dentro de mim. Sei que há uma hegemonia parasita mundial. Acredito na união latino-americana para que tenhamos autonomia e possibilidade. Mas a revolução, aquela que sensibilizará a mesquinhez da Terra (ou terra) não se fará com armas. A verdadeira revolução se dará (ou, infelizmente, não) na consciência. As armas não acabam com o medo e o egoísmo. O auto e alter conhecimento, creio que sim.
Estou abrindo minha pele, expondo minhas entranhas - no meio de tantos questionamentos, esse é agora meu norte. Mas minha bússola é caprichosa (ou despretenciosa) e pode apontar sua seta para qualquer direção a qualquer momento.


*
*
*
*
*
*
*
*
*
*
*
*
*

2 comentários »

Blog integrante da rede Soylocoporti