Parte do coletivo Soylocoporti

olhares sobre o cotidiano da América Latina

Arquivo do assunto ‘reflexão’

terça-feira, 26 de janeiro de 2010

Para quem?

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Casa de Cultura de Paraty, eu e os funcionários

Nos quadros que retratam a colonização,
somente nomes de pintores europeus

“Engraçado que é sempre os outros que contam a nossa história”, desabafei

… silêncio …

“Não tem arte indígena?”

“Ahn?”

“Arte indígena.”

“O quê??”

“A-r-t-e i-n-d-í-g-e-n-a!”

“Acho que tem uma peça de artesanato lá em cima.
Mas foram os espertos que contaram a história.
Os índios não tinham papel e pincel.”

Artesanato indígena
no chão das ruas

Arte branca
em galerias e museus

Pedras, igrejas
e casarões coloniais
Macaquinhos pulando
sobre telhados e quintais

Montanhas de Mata Atlântica,
porto e cachoeira
Paraty, mas não para aqueles
de pele amarela e negra

Paraty, gringo
Paraty, elite branca

Paraty

mas não para nós

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segunda-feira, 12 de outubro de 2009

O Homem e o Tempo

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Ele sonhava encontrar o Tempo
tirar suas sandálias
e convidá-lo a cear

O diálogo seria o silêncio
sem pratos, sem mesa
Ele e o Tempo
sentados no chão de luar

Na fogueira da criação
assariam seu jantar
comeriam a vida, a morte
e a semente do recomeçar

Ele sonhava encontrar o Tempo
enquanto o Tempo é o próprio sonhar.

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quarta-feira, 17 de junho de 2009

Inverno precoce

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Chove em Curitiba. Após uma madrugada reescrevendo histórias bolivianas e passeando pela Bahia da década de 30 de mãos dadas com Jorge Amado e rodeada por garotos de rua impressionantes e comoventes, dormi sem tomar banho. As poucas gotas ralas de água me desencorajaram de meus hábitos higiênicos. Se ao menos o chuveiro esquentasse, se ao menos os meus calçados não estivessem todos furados (sou uma destruidora de sapatos - eles não resistem um mês às minhas pisadas tortas)… se ao menos não me sentisse tão só nessas noites frias… por que não me basto?

Acordei ao meio dia. Nestas minhas férias forçadas pela falta de pagamento por parte da excelentíssima Secretaria Estadual de Ciência Tecnologia e Ensino Superior (se o Estado não respeita meus direitos, quem respeitará?), brinco com meus horários. Minha mania vampiresca, minha ânsia por leitura e silêncio, meu deleite em ouvir belezas e cantar sozinha em meu quarto sempre me rolaram ladeira abaixo nessa tendência de trocar o sol suave da manhã pela quietude da madrugada. Tenho livros para ler, resenhas a fazer, fotos e vídeos para editar - felizmente minha produtividade não está comprometida pela falta de horário fixo e carteira assinada. Os únicos percalços são meus bolsos vazios, minha conta no negativo, minhas dívidas (até agora, poucas, mas amanhã, sabe-se lá).

Democratização da comunicação, políticas culturais, autodeterminação, latinidade - soy loco por ti América, soy loco por ti de amores. Há muito o que fazer, muito o que crescer, muito o que descobrir, muito pelo que lutar (muito o que aprender para saber pelo quê lutar). A vida é uma encruzilhada de três vias: espiritual - o Deus em tudo e em cada um de nós, as individualidades divinas; astral - a energia vital, mais sutil que a matéria e mais tátil que o espírito; e material - o que vemos claramente, o que tocamos, o que insistimos em assumir como a totalidade do universo, enquanto é tão óbvio que a vida vai muito mais além… E eu aqui, no meio de tudo isso, de sirenes de ambulâncias, o cara louco de cola na esquina dando socos no ar, o vizinho mala, carros, carros e carros - a materialidade asfixiante. O encanto da matéria… a vida também é isso, mas será só? Esquecemos de onde viemos, para onde vamos, afinal, por favor, nos perguntemos, qual o sentido de nossas vidas?

Café e cigarros. Matéria. Chuva e frio. Matéria. Filmes argentinos na cinemateca, mas não ouso sair de casa - já basta ter passado o dia de ontem com os pés encharcados. Matéria. E aqui estou eu, precisando de palavras e teclas para expressar minha subjetividade e reclamar da matéria.

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sábado, 7 de março de 2009

Viajeros - Mudança de tempo*

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Primeira vista da Cordilheira dos Andes.

Hoje, pela primeira vez, vimos montanhas na Argentina. Não se tratam de simples montanhas. Tivemos o prazer de vislumbrar a Cordilheira dos Andes, delineada pelo pôr-do-sol. Em dois dias de estrada praticamente cruzamos o país horizontalmente. Faltam menos de 300 km para chegarmos ao nosso destino, uma cidadezinha andina rodeada por neve, quase no Chile.

Acordamos em Buenos Aires às quatro horas da manhã. Pegamos três ônibus até chegarmos ao ponto da estrada indicado para pedir carona. Depois de algumas curtas caronas, chegamos à cidade de Cochabuco. Mais um fim de tarde, mais uma expectativa de dormir na estrada. Estávamos decidindo onde nos abrigar quando um carro com dois senhores de uns 50 anos parou. Iriam a Junin, a uns 50 KM dali. Aceitamos a carona, ao menos avançaríamos um pouco mais.

Eles faziam o tipo de quem nunca se espera uma carona - meia idade e roupa social. Mas os dois pareciam ser boa gente. Beto, que estava no volante, combinava um churrasco com seus amigos através do celular. Conversa vai, conversa vem, ele nos convidou para o churrasco. É claro que aceitamos de imediato, apesar de sermos vegetarianos. Abrem-se exceções. Beto ficou espantado com a rapidez com que eu aceitei, sem nem pensar muito. “É que eu gosto muito quando as coisas acontecem por si só, sem planejamento”, eu disse. ”Você deve gostar muito de churrasco, isso sim”, gracejou Beto.

Não conseguiríamos mais caronas, a noite já vinha chegando. Teríamos que pernoitar em Junin. “Onde vocês pensam em dormir?”, perguntou Beto. “Não sei, se tiver um albergue, um hotelzinho barato, um camping, não sei”, meio que perguntei, meio que respondi. No fim das contas, ele ligou para seu irmão, dono de um hotel que funciona na antiga casa da família de Beto, onde ele passou sua infância. “Pronto, consegui um lugar para vocês essa noite, e sem pagar nada”.

Não podíamos acreditar. Iríamos a um churrasco, a mais típica comida argentina, dormíriamos num hotel, tudo assim, de repente, do nada. Mas o mais tocante foi a atenção que recebemos. Beto nos mostrou a cidade, nos levava e buscava do hotel e, por sua insistência, acabamos ficando mais uma noite. Conhecemos sua família, seus amigos, até fui ao mercado com ele e sua filha. Pegaram dois carrinhos: enquanto ela fazia compras para a casa deles, ele comprava comida para uma senhora a quem ajuda. Abandonada pelo marido, desempregada e com cinco filhos pequenos para criar, ela mantém sua casa às custas de caridade. O carrinho dele estava cheio de carne, leite, queijo, frutas e besteirinhas para as crianças. “Pai, você vai gastar demais”, advertiu a filha. ”Quando a gente morre não leva nada junto, nem o dinheiro, não é verdade?”, disse Beto, com seu jeito bonachão.

No incidente “feira de artesanato na Plaza de Francia” fiquei muito decepcionada com o ser humano. Em momentos como aquele me pergunto se vale a pena tentar construir uma sociedade melhor, dedicar a vida a isso. Às vezes parece que o homem é um animal escroto por essência, que é essa a condição humana. Mas quando encontro pessoas como Beto, sua família e seus amigos, me encho de esperança, passo a acreditar que só precisamos de uma forçinha, que a bomba está prestes a explodir (se é que já não explodiu), que encontramos a escada, é só começar a subir. Brilha uma estrela no céu nublado.

*Esse post é refente ao livro que escrevi sobre a viagem que eu e Thiago Martins fizemos por países da América do Sul de agosto de 2006 a julho de 2007. O livro foi apresentado como trabalho de conclusão de curso em 2007 e chama-se Viajeros - nos fluxos da América do Sul. Há posts anteriores neste blog que contam a viagem desde o começo, e continuarei postando até o final do livro.

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quinta-feira, 29 de janeiro de 2009

Devaneios de infância

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Quando eu era criança, pensava como os carros seriam assustadores para quem viesse do passado, daquele passado onde só existiam cavalos e a carroça era o mais moderno meio de transporte. Grandes monstros sobre quatro rodas, grotescos, velozes e iluminados, comportando pessoas dentro. Nosso antecessor neste planeta faria oferendas ao deus da velocidade e da morte.

Também pensava como seria complicado voltar para o passado. Se uma máquina do tempo me transportasse à Idade Média, todos estranhariam minhas roupas. Se tivesse sorte de cair num lugar onde pudesse me comunicar, teria que explicar que vim do futuro. Contaria muitas coisas, desde guerras à invenção da televisão, um aparelho onde conseguimos ver imagens de todo o mundo na nossa frente. Falando em mundo, eu diria, vocês já sabem que ele é redondo?  Frase fatal. Considerada herege, morreria queimada na fogueira. Ainda tentaria me explicar, dizendo que realmente vim do futuro, podendo prever algumas coisas historicamente porque já havia lido nos livros de História. Simples: se você realmente veio do futuro, como ousa afirmar, construa essa tal de televisão, diria o inquisitor. Como nos nossos tempos modernos nunca sabemos como as coisas funcionam, só precisamos ter dinheiro para comprá-las, ficaria com cara de boba, e a multidão, insaciável, atearia fogo aos meus pés.

E os ETs, que tanto permeavam minha imaginação na infância! Eu pensava que o tempo de nossa vida era muito pequeno comparado com a deles. Nossa tão dramática e importante existência não passaria de um capítulo de novela, entretenimento antropológico para os seres intergaláticos.

Nostalgia, nostalgia… Me encanto com essa capacidade de se distanciar das coisas tidas como certas, de virar de ponta cabeça as regras básicas que norteiam o mundo dos adultos.

Nunca quero deixar de ser criança.

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sábado, 6 de setembro de 2008

Viajeros - Homem primata

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Nas situações mais corriqueiras me deparo com a necessidade urgente de uma grande mudança que parta da humanidade. É uma questão de mentalidade, dos valores básicos que regem nosso cotidiano, nossos relacionamentos, nossa visão de mundo, do outro e de nós mesmos.

Há pouco mais de um ano estive como turista em Buenos Aires. Naquela ocasião conheci a Plaza de Francia, que todo fim-de-semana é ocupada por uma feira de artesanato. Fiquei encantada com tantas coisas lindas, que por sua originalidade e engenhosidade atingiam a condição de arte. Hoje voltei à mesma praça, agora como artesã, e infelizmente o encanto se desfez.

Chegamos à praça e fomos fazer o “reconhecimento do local”. Percebemos que não havia artesãos estendendo panos no chão. Conversei com um vendedor e ele me confirmou que realmente a polícia não permite a venda informal. Amarrei nossos swings de fitas no pescoço e comecei a brincar com um par deles, mostrar como se faz. Se alguém parasse para olhar, daí sim diria que estavam à venda. Um jeitinho de driblar a polícia.

Ao meu lado, a uns seis metros, um senhor tocava seu violão, com o chapéu no chão. Ele pareceu fazer um gesto para mim. “Será que ele quer que eu saia?”, pensei. “Não, não deve ser isso”. Mas era. Ele se levantou e veio em minha direção. Disse que eu tinha parado muito perto dele, que era para eu sair dali. Argumentei que não estava pedindo dinheiro pelo “espetáculo” (eu estava treinando, minha habilidade com os malabares é pífia). Mas ele firmemente, ou rudemente, falou que eu desviaria a atenção das pessoas. “Há outros lugares por aí, aqui já tem gente suficiente”, concluiu. Virou as costas e voltou à sua posição. Eu, muito chateada, cedi. Afinal, se o trabalho de um artesão atrapalhasse o do outro, por que todos se juntariam em uma praça? Não é justamente a diversidade o atrativo das feiras?

Saí para dar uma volta, tirar fotos, espairar. Encontrei um outro senhor tocando violão e cantando. Apontei minha objetiva, estava ajustando o foco quando o vi fazer um gesto - dessa vez eu entendi, ele queria que eu colocasse uma moeda, justo eu, andarilha aspirante a artesã frustrada. “Sem dinheiro, sem foto”, disse ele. Parou a música só para me impedir de tirar uma foto. Fiquei tão chocada que não consegui argumentar. Nocaute. Justamente dois senhores, de quem se espera sabedoria, ou ao menos maturidade. No mínimo educação. Mas a pobreza de espírito não tem idade, sexo nem raça.

Lembrei dos artesãos de Isla de Cerrito. Sentiam imenso prazer em dividir seu espaço, sua comida, seu conhecimento com quem quer que fosse, inclusive dois brasileiros que haviam conhecido dois dias antes.

Sim, é uma questão de mentalidade, de valores. De pôr em prática a fraternidade e superar o egoísmo e o materialismo. Uma questão de se permitir evoluir, de plenamente ser humano.

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quinta-feira, 21 de agosto de 2008

Viajeros - Admirável Mundo Novo

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Aproveitando a passagem pela província de Córdoba, fomos à casa onde Che Guevara passou sua infância, transformada em museu dedicado à sua história. A casa se localiza em Alta Gracia, a cinqüenta minutos de ônibus da capital da província.
Pudemos conhecer a história do menino e adolescente que viria a tornar-se o homem-mito, símbolo da luta por justiça e igualdade, e sua posterior trajetória como guerrilheiro e líder político. Sua dedicação aos seus ideais é memóravel. Um homem que na vida privada e social seguia seus princípios, que dedicou a vida à construção de uma sociedade que não diferencia pobres e ricos, brancos e pretos, homens e mulheres. Acreditava que a luta armada era a única maneira de mudar o sistema opressor. Abdicou dos prazeres que sua condição social oferecia, da convivência com sua família, tudo na tentativa de concretizar o que achava ser o melhor para a humanidade.
“Sejam capazes de se indignar cada vez que virem uma injustiça”, escreveu Che Guevara aos seus filhos. Mas não queremos ver. Convivemos com crianças revirando lixo em busca de comida e desviamos o olhar. Selecionamos o que convém à estabilidade de nossos mundinhos de ilusão e consumo. Nos empilheiramos em grandes centros, cedemos à massificação, à desumanização e ao tratamento impessoal do homem moderno. Fazemos dos meios os fins. O dinheiro deixa de ser uma ferramenta, passa a ser um fim em si mesmo, o maior e incontestável valor humano. Somos incapazes de conversar com os moradores de rua, de oferecer-lhes um pedaço de pão. Trasformamos solidariedade e amor ao próximo em palavras vagas, esvaziadas de seu verdadeiro significado.
Somos egoístas. Competitivos. Capitalistas. “Que vença o melhor”, esse é o lema de nossa sociedade. Mas a maioria nem tem a oportunidade de desenvolver seu melhor, é explorada em subempregos, desempregada, sobrevive nas condições mais precárias de vida, excluída de infra-estrutura e tecnologia.
Tenho vergonha do que a humanidade se tornou. Bando de selvagens egoístas, isso que somos. Temos medo. Queremos poder, conforto e prazer. Não dialogamos, trocamos frases mecânicas que não dizem nada. Conveniência social, bons modos. Desumanização. Escondemos o que temos de mais rico, de mais espontâneo e único atrás de frases feitas. Nossos olhos estão presos aos nossos umbigos. E assim, insistentemente, seguimos.

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quarta-feira, 16 de julho de 2008

Donde Miras - Questão guarani

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Ao passar por aldeias guaranis, algumas questões inevitavelmente vêm à tona. Eles vivem praticamente isolados, em territórios determinados e protegidos - uma grande prisão para que tenham a possibilidade de conservar sua cultura

Os guaranis, nativos de grande parte do território brasileiro, foram mortos, escravizados, roubados, aculturados e hoje vivem de cestas básicas do governo. Com valores completamente diversos daqueles vigentes em nossa sociedade capitalista, foram banidos desse tempo. Vivem à margem da sociedade, atrás de cercas, para que não tomem o pouco que lhes sobrou.


Menino na Aldeia Rio Branco, Itanhaém.

Martim Afonso, o primeiro escravagista do Brasil, é tido como herói e tem seu nome em ruas e instituições públicas. Já os índios mortos foram esquecidos. Não sabemos da cultura indígena. No dia do índio as crianças colocam cocares como o fariam com qualquer fantasia de carnaval. A sociedade “branca” nega suas origens.

Os jesuítas também têm seus nomes em ruas e são lembrados como nobres homens que trouxeram a palavra de Deus aos índios selvagens. Padre Anchieta conta com milhares de devotos. Mas que direito o homem branco tinha de trazer sua verdade como A Verdade, que Deus é esse que priva o homem de sua cultura e suas crenças? Ouvi uma história de um guarani que virou crente e chorava desesperadamente porque acreditava que todos os seus antepassados estavam no inferno.

Os guaranis nos mostraram sua receptividade, seu sorriso fácil, sua harmonia com a natureza e a capacidade física natural do homem, que o povo da urbes esqueceu sentado no sofá em frente à TV. Também nos mostraram as imensas dificuldades que enfrentam, a pobreza, o alcoolismo e a falta de identidade cultural daqueles que não são nem rurais nem urbanos, no limbo entre sua ancestralidade guarani e a civilização atual. A sociedade enterrou o índio, mas ele está vivo, sufocando. Seus gritos são ouvidos, vindos debaixo da terra. É hora de descavar.

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quarta-feira, 25 de junho de 2008

Viajeros - Patriotismo Multinacional

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Coca-cola desenhada em ñanduti, em Casa de Cultura da capital paraguaia.

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quinta-feira, 12 de junho de 2008

Viajeros - Ruínas e “progresso”

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Partimos de Assunção e fomos a Encarnación, na fronteira paraguaia com a Argentina. Uma pequena cidade, com sinais do desenvolvimento: supermercados, ruas pavimentadas e praças. As outras cidadezinhas eram mais roots - algumas abandonadas, outras com a graça e a paz interioranas. A riqueza de Encarnación vem em grande parte da agricultura, subsidiada pelo governo. O município exporta trigo e soja.

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Perto de Encarnación se localizam as ruínas de uma antiga missão jesuítica. Lá as paredes só faltam falar. Provavelmente seriam histórias tristes de um povo que sofreu imposição cultural e religiosa, e depois de perder a “proteção” dos jesuítas foi escravizado pelos bandeirantes, aqueles “nobres desbravadores” dos quais ouvimos falar nas aulas de História.
Lindas imagens. Pedras corroídas pelo tempo e estátuas de santos já sem cabeças em contraste com o céu azul, sem uma nuvem sequer. Sóbrio e belo ao mesmo tempo.
Ruínas de todo um tempo, de toda uma história e de muito sofrimento. Mas afinal, os jesuítas cumpriram sua missão. É na América Latina que hoje se encontra o maior rebanho da Santa Madre Igreja Católica. Amém.


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quarta-feira, 4 de junho de 2008

Viajeros - Reflexão intensa e subjetiva

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É uma tarefa muito árdua a que me proponho: perceber e refletir culturas. A subjetividade da vida me surpreende, me assusta e, acima de tudo, me fascina. Como posso transmitir algo que só eu percebo? Como posso chamar meu ponto de vista de realidade? Quem sou eu para julgar, mesmo que nesse caso o julgamento tenha aspecto de análise?
Conhecer a dor, a luta e a força dos Sem-Terra já mudou a cor de meus olhos. Quem dirá um ano cruzando continentes?! Já fui muitas Micheles, ainda encarnarei muitas outras, até chegar a ser nenhuma. Queria apreender a alma do povo paraguaio, mas nem sei se tal coisa existe - fronteiras artificiais que separam os homens são romantizadas e enaltecidas, mas no fim geram mais guerras que unidades.
Sei que quero conhecer pessoas, sentir o outro - quem sabe até ser o outro, descobrir terras nunca dantes desbravadas dentro de mim. Sei que há uma hegemonia parasita mundial. Acredito na união latino-americana para que tenhamos autonomia e possibilidade. Mas a revolução, aquela que sensibilizará a mesquinhez da Terra (ou terra) não se fará com armas. A verdadeira revolução se dará (ou, infelizmente, não) na consciência. As armas não acabam com o medo e o egoísmo. O auto e alter conhecimento, creio que sim.
Estou abrindo minha pele, expondo minhas entranhas - no meio de tantos questionamentos, esse é agora meu norte. Mas minha bússola é caprichosa (ou despretenciosa) e pode apontar sua seta para qualquer direção a qualquer momento.


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domingo, 18 de maio de 2008

Viajeros - Pobre Paraguai

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Hoje fomos a duas cidades próximas de Assunção, Areguá e Ypacaraí. Areguá é a capital do departamento central (os departamentos são equivalentes aos estados no Brasil), o mesmo ao qual pertence Assunção, a capital federal. Ironicamente não passa de uma vila, uma cidadezinha típica de interior, constituída por uma praça, uma igreja, a prefeitura e poucas ruas. Muito charmosa, é repleta de artesanato típico, construções pertencentes ao Patrimônio Histórico Cultural e uma gente muito receptiva.
Quanto a Ypacaraí, não se pode dizer o mesmo: uma cidade sem muitos atrativos. Com poucas exceções, como Assunção e Cidade de Leste, os municípios paraguaios são pequenos e pouco desenvolvidos.
Existem somente duas rodovias no país, e quase todas as cidades localizam-se às suas margens. Beirando Assunção, várias cidades compõem a região metropolitana. Todas residenciais, alimentam-se da capital. Uma delas é Lambaré, onde estamos hospedados na casa da Ali.
A divisão das classes sociais é nítida: pelo modo de vestir, agir e falar - em grande parte devido à influência do guarani. Nos colégios elitizados, os estudantes são repreendidos quando usam expressões em guarani. Os pertencentes às classes sociais mais baixas têm o guarani como língua-mãe, e mesmo quando aprendem o espanhol suas origens continuam aparentes. Eles são discriminados, não conseguem bons empregos. Nem mesmo podem ser telefonistas ou atendentes, porque não são considerados apresentáveis.

O espantoso é que grande parte da população não fala o espanhol, o que demonstra quão estreitas são as portas da ascensão social. Os únicos que têm chance são aqueles que, por sua aparência, passam por ricos e modernos. Mesmo aqueles que têm um bom nível econômico, mas moram no interior, pertencem a um diferente nível social. É uma questão de se saber portar - “ter classe”.
Aqui a corrupção é firmemente institucionalizada. O ex-ditador Stroessner morreu, mas a hegemonia de quatro décadas do Partido Colorado continua, assim como a concentração de renda, o subdesenvolvimento, as situações precárias de educação e saúde, os problemas de infra-estrutura e a ineficácia do governo. Infelizmente são essas as expectativas para os países latino-americanos. Um povo com uma cultura tão rica, marcado pela exploração histórica e pela desorganização.

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quinta-feira, 8 de maio de 2008

A ilha e o progresso

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A Ilha do Mel, à primeira vista, é um paraíso. Pelo que se ouve falar, também. Tá bom, a Ilha do Mel ainda é um paraíso, um pedaçinho de céu, um presente de Deus, mas já podemos encontrar nela traços da civilização e seus problemas. A coisa está começando a feder.
Já nos primeiros dias deu para sentir um cheirinho ruim. Estava conversando com um nativo, ele falando que a ilha é muito tranqüila, comparando com a cidade, que não tem carro e que é bem melhor assim. “É, ainda bem que tem esse negócio de preservação, né?”, eu falei, como turista que vem de fora e que acha preservação um nome muito bonito. “É…é, por esse lado é bom”, ponderou ele. Esse “é…é” me deixou com a pulga atrás da orelha.
Com o tempo as peças foram se encaixando. A desculturalização da Ilha do Mel é evidente. E a falta de providências básicas que todo processo civilizatório pressupõe também.
Para obter mais informações, fui à Associção de Moradores da Ilha do Mel, situada em frente ao desembarque da praia de Encantadas. Quem me recebeu foi o senhor Neil Hamílton, que mora na ilha há dezoito anos e é o diretor responsável pelo jornal Ilha do Mel, cujo site, que contém informações turísticas e históricas, é www.ilhadomel.com. “Eu não sou jornalista, mas sempre fiz jornal, desde que eu morava em Curitiba”, justifica. Neil foi muito solícito, passou diversas informações e deu sua sincera opinião.
A ilha, que pertence ao município de Paranaguá, possui cinco povoados: Encantadas, Praia Grande, Farol, Brasília e Fortaleza, que compreendem 8% do território. Os outros 92% são área de preservação, sob responsabilidade do IAP - Instituto Ambiental do Paraná. “Eles só vêm aqui para multar”, acusa Neil. Ele conta que multaram 6 moradores em quinhentos reais cada, por não terem construído uma fossa em suas casas. Por incrível que pareça, não há tratamento de esgoto na Ilha do Mel, por isso cada casa e estabelecimento comercial deve construir sua fossa. Segundo Neil, não há educação ambiental e nem recursos para as obras. Ele escreveu uma carta ao Poder Judiciário em defesa dos moradores, para que o valor da multa fosse destinado à compra do material necessário para construir a fossa, ao invés de ir para o instituto, e que pudessem contar com a instrução de um agente do IAP. O juiz aceitou a proposta, o que para Neil foi uma vitória.
Mas há o outro lado da moeda. Em breve passará a funcionar a primeira estação de água, em Nova Brasília. E segundo Gil, paulista que há dez anos passa longas temporadas fazendo bicos na ilha, o IAP distribuiu o material necessário para a construção das fossas.
A grande cisma de Neil com o IAP faz sentido. Ele diz que a orientação vem de Curitiba, alheia aos interesses dos moradores, e que a instituição é centralizada - tudo depende da decisão do presidente. E o pior, que a taxa de 3 reais cobrada por visitante fica com o IAP e acaba não chegando na ilha. “O prefeito de Paranaguá é adversário político do Requião, por isso só entra dinheiro aqui em ano eleitoral”, aponta Neil, que afirma que não há planejamento por parte do governo porque a Ilha do Mel não é uma prioridade geo-econômica. “É o capitalismo, não adianta”, resigna-se Neil.
Ele diz que se sente de mãos atadas, que não há coletivismo na ilha. Não se pensa no futuro, mas cada um em si mesmo - principalmente os comerciantes, que vieram quase todos de fora, e só se preocupam em ganhar dinheiro.
Neil acaba seu depoimento num pedido de desculpas pela sua franqueza. Mas era exatamente isso que eu queria: um retrato sincero da ilha, de alguém que vive ali e está informado dos processos políticos da região, por mais parcial que fosse. A versão oficial não costuma ser franca: se defende com números manejados e põe a culpa de suas debilidades na oposição. Prefiro a versão de quem conhece os problemas do cotidiano de onde vive.

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sexta-feira, 2 de maio de 2008

No limbo

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A Ilha do Mel é um lugar de paz, muito verde e cara de vila de pescadores. Há duas horas e meia de ônibus e trinta minutos de barco de Curitiba, via Pontal do Paraná, a ilha é um refúgio para pessoas de todo mundo, lugar de esquecer os problemas do cotidiano urbano e se reconciliar com a natureza.
A população da Ilha do Mel segue a típica mistura brasileira: nativos indígenas, escravos de origem africana e brasileiros em geral, em sua maioria mistura de portugueses, índios e negros. “Na época do descobrimento, o litoral do Paraná, particularmente as margens da Baía de Paranaguá, eram habitadas pelos carijós, indígenas do grupo étnico tupi-guarani. Os cronistas referem-se aos carijós como indios de índole afável, pouco belicosos e de boa razão. Sustentavam-se de caça e pesca, bem como de lavouras. As casas eram bem cobertas e tapadas com cascas de árvore por causa do frio do inverno.”*
Os escravos eram trazidos para a Ilha das Peças, localizada entre a Ilha do Mel e Superagüi, por isso o seu nome: as peças eram os escravos. Outros brasileiros em geral se fixaram na ilha depois de trabalharem na construção da Fortaleza de Nossa Senhora do Prazeres, iniciada em 1763 e concluída em 1769, quando o Brasil ainda era Vice-Reinado de Portugal. O objetivo da fortaleza era combater a pirataria e defender o litoral paranaense de possíveis ataques. Dizem que seus canhões só atiraram uma única vez e erraram. Em 1870, durante o império de Dom Pedro II, foi construído o Farol das Conchas, o que trouxe mais moradores.


A fortaleza


O Farol das Conchas

Conversando com o nativo Nenê, fiquei sabendo de histórias que não estão nas revistas de turismo. Ele me contou que antigamente a ilha era como uma fazenda; havia bois, cavalos, e cada família tinha seu pedaçinho de roça no morro que delimita a praia das Encantadas e a praia do Belo, hoje tomado pela mata nativa. Atualmente a guarda florestal não permite o desmatamento, o que tem o ótimo resultado de preservar as matas, porém interferiu no cotidiano e na cultura do caiçara, o nativo da ilha.
Mesmo sendo protegida, o avanço da civilização não poupou a Ilha do Mel. Há algumas décadas atrás a população se auto-sustentava, plantando seus alimentos, criando seus animais, pescando e produzindo para seu próprio sustento. Atualmente, com a política de preservação, tudo que é consumido na ilha vem de Paranaguá ou Pontal, o que torna produtos básicos como frutas, pão e legumes bastante acima do preço de mercado.
A população aqui vive no limbo: não são mais nativos, seus hábitos e seus conhecimentos ancestrais se perderam, com excessão da pesca; por outro lado, não têm os conhecimentos que a civilização oferece. Muitos são analfabetos e não sabem lidar com tecnologia. Vivem do turismo, como barqueiros, carregadores; alugam seus quartos para turistas. Os que vieram de fora, com dinheiro, construíram restaurantes, lojas, bares e pousadas.
A tradição do fandango, que consiste em música e dança tradicional do litoral do Paraná e sul de São Paulo, não deixou nem vestígios na Ilha do Mel. A música, onde a rabeca, instrumento de corda artesanal, se destaca, é marcada pela dança e pelos sons de sapato de madeira que dão a batida da música. A festa é regada a muita cataia, bebida típica da região. Hoje não se vê mais rabeca, sapato de madeira, nem cataia. Só ficou o dissimulado e justificado ressentimento do nativo com quem vem de fora.

* www.ilhadomel.com/historico

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quinta-feira, 24 de abril de 2008

Viajeros - Questão de desordem

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Quem controla a minha vida?
Minha família? O dinheiro?
A preocupação com a estética?
Meus sonhos e ideais?
Meu corpo, como consciência de matéria?
Minhas aspirações profissionais?
Meus laços de amizade, de sangue, de sentimento?
Tudo isso. Ou nada.

Cruz e Sousa diria que o corpo é o cárcere da alma. Temo discordar. A maior das prisões é quando fazemos nossas as exigências do mundo. Amadurecer, estudar, casar… “Um emprego e uma namorada, quando você crescer”.
Buscamos esses padrões de segurança, mesmo contra nossa vontade, mesmo quando duvidamos desses estigmas sociais. Deixamos de lado nossa pureza, nossas loucuras, nossa dúvida existencial, para continuarmos rodando a engrenagem social.

Capitalismo selvagem, selva de pedra
Olho por olho, dente por dente.

Assim nos tornamos quem somos - atores procurando destaque no cenário mundial.

Reflexão trocada por verdades prontas
Cultura por entretenimento
Filosofia por auto-ajuda
Amor por atração
Sonhos por dinheiro

Tudo isso porque queremos, porque aceitamos o mais cômodo, embalado e pronto para consumo. Não sabemos mais ousar. Temos medo do futuro.
Tememos a noite, mas nos sentimos atraídos por ela.
O imprevisível nos fascina, mas fazemos tudo para evitá-lo.
Cada vez mais procuramos por “aventuras seguras nos fins-de-semana” para quebrar a rotina. Mas somos nós que construímos a rotina.

Procuramos nossa “cara metade”, “alma gêmea”, “o amor de nossas vidas”. Não sabemos aceitar os outros. Evitamos olhar nos olhos. Temos medo de nos expor, de transparecer nossas fragilidades e inseguranças. Criamos uma personagem social para esconder nossa real personalidade, ocultando nossas características mais pessoais e humanas.

Temos medo da solidão.
Temos medo do escuro,
do sofrimento, da desilusão.
Temos medo da vida.

Vivemos num quarto frio,
com paredes padronizadas de tempo e espaço.
Olhamos a vida pela janela
com olhos de fascinação e medo.
Poucos ousam pular.
Costumamos chamá-los de loucos ou gênios.
Eu os chamo de livres.

Esse texto eu escrevi em Curitiba um pouco antes de sair de viagem. Encontrei-o no meu caderninho, onde rascunho os textos. A citação é de Raul Seixas, da música “Quando você crescer”.

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