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Olhares de (apenas) uma latino-americana

sexta-feira, 2 de maio de 2008

No limbo

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 No limbo

A Ilha do Mel é um lugar de paz, muito verde e cara de vila de pescadores. Há duas horas e meia de ônibus e trinta minutos de barco de Curitiba, via Pontal do Paraná, a ilha é um refúgio para pessoas de todo mundo, lugar de esquecer os problemas do cotidiano urbano e se reconciliar com a natureza.
A população da Ilha do Mel segue a típica mistura brasileira: nativos indígenas, escravos de origem africana e brasileiros em geral, em sua maioria mistura de portugueses, índios e negros. “Na época do descobrimento, o litoral do Paraná, particularmente as margens da Baía de Paranaguá, eram habitadas pelos carijós, indígenas do grupo étnico tupi-guarani. Os cronistas referem-se aos carijós como indios de índole afável, pouco belicosos e de boa razão. Sustentavam-se de caça e pesca, bem como de lavouras. As casas eram bem cobertas e tapadas com cascas de árvore por causa do frio do inverno.”*
Os escravos eram trazidos para a Ilha das Peças, localizada entre a Ilha do Mel e Superagüi, por isso o seu nome: as peças eram os escravos. Outros brasileiros em geral se fixaram na ilha depois de trabalharem na construção da Fortaleza de Nossa Senhora do Prazeres, iniciada em 1763 e concluída em 1769, quando o Brasil ainda era Vice-Reinado de Portugal. O objetivo da fortaleza era combater a pirataria e defender o litoral paranaense de possíveis ataques. Dizem que seus canhões só atiraram uma única vez e erraram. Em 1870, durante o império de Dom Pedro II, foi construído o Farol das Conchas, o que trouxe mais moradores.

 No limbo
A fortaleza

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O Farol das Conchas

 No limbo

Conversando com o nativo Nenê, fiquei sabendo de histórias que não estão nas revistas de turismo. Ele me contou que antigamente a ilha era como uma fazenda; havia bois, cavalos, e cada família tinha seu pedaçinho de roça no morro que delimita a praia das Encantadas e a praia do Belo, hoje tomado pela mata nativa. Atualmente a guarda florestal não permite o desmatamento, o que tem o ótimo resultado de preservar as matas, porém interferiu no cotidiano e na cultura do caiçara, o nativo da ilha.
Mesmo sendo protegida, o avanço da civilização não poupou a Ilha do Mel. Há algumas décadas atrás a população se auto-sustentava, plantando seus alimentos, criando seus animais, pescando e produzindo para seu próprio sustento. Atualmente, com a política de preservação, tudo que é consumido na ilha vem de Paranaguá ou Pontal, o que torna produtos básicos como frutas, pão e legumes bastante acima do preço de mercado.
A população aqui vive no limbo: não são mais nativos, seus hábitos e seus conhecimentos ancestrais se perderam, com excessão da pesca; por outro lado, não têm os conhecimentos que a civilização oferece. Muitos são analfabetos e não sabem lidar com tecnologia. Vivem do turismo, como barqueiros, carregadores; alugam seus quartos para turistas. Os que vieram de fora, com dinheiro, construíram restaurantes, lojas, bares e pousadas.
A tradição do fandango, que consiste em música e dança tradicional do litoral do Paraná e sul de São Paulo, não deixou nem vestígios na Ilha do Mel. A música, onde a rabeca, instrumento de corda artesanal, se destaca, é marcada pela dança e pelos sons de sapato de madeira que dão a batida da música. A festa é regada a muita cataia, bebida típica da região. Hoje não se vê mais rabeca, sapato de madeira, nem cataia. Só ficou o dissimulado e justificado ressentimento do nativo com quem vem de fora.

* www.ilhadomel.com/historico

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