Parte do coletivo Soylocoporti

Olhares de (apenas) uma latino-americana

domingo, 18 de maio de 2008

Viajeros – Pobre (e rico) Paraguai

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 Viajeros   Pobre (e rico) Paraguai

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Hoje fomos a duas cidades próximas de Assunção, Areguá e Ypacaraí. Areguá é a capital do departamento central (os departamentos são equivalentes aos estados no Brasil), o mesmo ao qual pertence Assunção, a capital federal. Ironicamente não passa de uma vila, uma cidadezinha típica de interior, constituída por uma praça, uma igreja, a prefeitura e poucas ruas. Muito charmosa, é repleta de artesanato típico, construções pertencentes ao Patrimônio Histórico Cultural e uma gente muito receptiva.  Também estivemos em Ypacaraí.

Com poucas exceções, como Assunção e Cidade de Leste, os municípios paraguaios são pequenos e pouco “desenvolvidos”. Existem somente duas rodovias no país, e quase todas as cidades localizam-se às suas margens. Beirando Assunção, várias cidades compõem a região metropolitana. Todas residenciais, alimentam-se da capital. Uma delas é Lambaré, onde estamos hospedados na casa da Ali.

A divisão das classes sociais é nítida: pelo modo de vestir, agir e falar – em grande parte devido à influência do guarani. Nos colégios elitizados, os estudantes são repreendidos quando usam expressões em guarani. Os pertencentes às classes sociais mais baixas têm o guarani como língua-mãe, e mesmo quando aprendem o espanhol suas origens continuam aparentes. Eles são discriminados, não conseguem bons empregos. Nem mesmo podem ser telefonistas ou atendentes, porque não são considerados apresentáveis.

 Viajeros   Pobre (e rico) Paraguai

O espantoso é que grande parte da população não fala o espanhol, o que demonstra quão estreitas são as portas da ascensão social. Os únicos que têm chance são aqueles que, por sua aparência, passam por ricos e modernos. Mesmo aqueles que têm um bom nível econômico, mas moram no interior, ocupam posição subalterna na escala social. É uma questão de se saber portar – “ter classe”.

Aqui a corrupção é firmemente institucionalizada. O ex-ditador Stroessner morreu, mas a hegemonia de quatro décadas do Partido Colorado continua, assim como a concentração de renda, as situações precárias de educação e saúde, os problemas de infraestrutura e a ineficácia do governo. Infelizmente são essas as expectativas para os países latino-americanos. Um povo com uma cultura tão rica, marcado pela exploração histórica, que “sofre com os dentes cerrados”, como disse Eduardo Galeano – mas que, apesar de tudo, resiste. E a diversidade cultural, que em meio a tantas dificuldades persiste e floresce, é sintoma e resultado desse contínuo re-existir.

 

Esse texto faz parte do livro Viajeros, que foi publicado em posts nesse blog.

Veja o post anterior.

Veja o próximo.

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13 comentários em “Viajeros – Pobre (e rico) Paraguai”
  1. Linda essa foto da bandeira em contra-luz.

  2. bandeira em contra-luz. bingo mesmo.

  3. Adorei o texto, parabéns!
    É uma tristeza esse contraste todo, mas ao mesmo tempo países assim me despertam muito interesse…

  4. Obrigada!

    Sim, é a nossa realidade, a realidade do ser humano, e nós não estamos alheios a isso. Conhecer essas “outras realidades” é conhecer mais de nós mesmos, da nossa história.

  5. Michele, Bom Dia. minha sugestão é que vc direcione sua mirada para a valorização do
    povo,sua arte,costumes e modo viventes,você deixou por exp. de nos mostrar as peças ceramicas desenvolvidas na cidade de Aregua, la tem peças super originais pintadas a mão um trabalho verdadeiramente artesanal,tem o sapo que representa a fortuna,etc.
    Dificil de sobreviver, mas la estão eles trabalhando todo dia, se no brasil o mercado e dificil imagine la com 6.000.000milhoes de habitantes.
    Se quiser maiotes informações fale comigo meu e-mail. chefmalafaia@hotmail.com
    abraços.

  6. Olá Edson

    no blog que escrevi quando estava viajando (estive no Paraguai em agosto de 2006) tem fotos das cerâmicas – é http://www.projetocancion.blogspot.com

    Enfim, obrigada pela sugestão, mas escrevi sobre aquilo que me tocou, que me gerou reflexão, um trabalho com certeza incompleto e imperfeito mas… é a minha mirada!

    Abraços,

    Michele.

  7. pena que vc não conheça as pobrezas do brasil,e uma objeção ao falar que o guarani e falada somente pelos pobres no paraguay more la e a lingua guarani e obrigatorio tanto e que vem impressa na moeda local e todos na escola são alfabetizado tanto em español e guarani, o presidente lugo fala guarani e outros grandes como augusto roa bastos

  8. que bom, realmente o guarani é muito, mas muito mais falado lá do que aqui. mas o que soube e percebi é que sim, há uma grande diferenciação entre aqueles que falam o espanhol “correto” (mesmo q saibam falar guarani tbm) e os q falam essa mescla de espanhol com guarani.

    ah, e já estive em alguns lugares bem pobres do brasil sim. só não entendi o que tem a ver. não se trata de uma competição, pelo menos não para mim.

  9. me parece que há uma certa irritação por eu falar que o paraguai é pobre… e não é? creio que só conseguiremos alterar a realidade quando pudermos encará-la sem nos enganar.

    mas a pobreza material não significa pobreza cultural. nesse quesito, com certeza o paraguai é riquíssimo!!

  10. Por acaso o Brasil é rico?

    Brasileiros, o salário mínimo do Paraguai e 2 vezes maior que a miséria do salário mínimo no Brasil.

    No dia que vocês brasileiros deixarem de morar como primatas nas milhares de favelas e no dia que milhares de brasileiros deixarem de atravessar para o Paraguai procurando uma vida melhor, esse dia podem criticar.

    Bando de favelados cínicos!

  11. só aprovei o comentário acima para mostrar a que ponto o “debate” pode chegar (por ser ofensivo, realmente pensei em não aprovar).

    mas tbm entendo que esse ressentimento não vem do nada, e que muitas vezes os brasileiros desrespeitam os paraguaios – a visão predominante do Paraguai no Brasil é de fato bem feia e preconceituosa. mas daí a não se poder olhar a realidade criticamente…

  12. A ignorância de ambos os lados me assusta – A questão não e quem e mais ou menos, por que diferenças existem em todo o lugar, seja ela cultural, social e econômica. O que traz a reflexão e sobre a visita feita em um determinado local do Paraguai, e que aos olhos do viajante ele resolveu expressar o que se viu e em momento algum menosprezar o POVO paraguaio. Sou professor e amo estudar sobre o Paraguai, aliás sou fascinado, e o que espero e que possamos a cada dia procurar nos instruir mais em relação ao por que,ou seja, se existe têm um por que, e se ele nos incomoda vamos mudar a realidade, buscar focar em mudanças necessárias e deixar de murmurar. Quando alguém nos chama de ” bandos de favelados cínicos “, este e tão igual que se expressa em bravatas.

  13. Primeiro acho o nome da capital linda Assunção, depois achei interessante, por ter duas rodovias…

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