Parte do coletivo Soylocoporti

Olhares de (apenas) uma latino-americana

quinta-feira, 15 de janeiro de 2009

Impressões caminhantes (Barueri – Pirapora)

, ,

A Expedición Donde Miras partiu em seu terceiro trecho, rumo a Botucatu, no dia 27 de dezembro. Nos encontramos no metrô do Campo Limpo e seguimos de trem até Barueri, onde realizamos o primeiro sarau da caminhada. Muitos rostos sorridentes, apreensivos, de quem dá o primeiro passo rumo ao desconhecido.

Luan, Toninho Poeta, Zinho Trindade, Dessa, Binho e Gunnar, entre outros, conduziram o sarau com música e poesia, contando também com a participação de um músico da cidade. Após o sarau, a companhia de teatro carioca Tumulto, da Cidade de Deus, contagiou a praça com sua apresentação, um chocante desabafo da contradição da vida na periferia.

De lá fomos para Santana do Parnaíba, passando por uma linda estrada em Aldeia da Serra. Incrível como é tênue a fronteira entre cidade e interior – de uma hora para outra estávamos com os pés na terra e sob a sombra das árvores. Entre a cruz e o despacho na beira da estrada dançava o sincretismo religioso, tão marcante em nossa cultura latino-americana.

Chegando em Santana do Parnaíba, sentamos para descansar no bar e pesqueiro Lago Azul e fomos surpreendidos por um casal e sua filha numa apresentação de roda de viola. Definitivamente, a metrópole havia ficado para trás. Crianças soltando pipa indicavam que não é preciso ter pressa, necessário é usufruir.

Nesta cidade, o sarau não ocorreu na praça central, como costuma ser – foi na quebrada, mais precisamente na Vila Esperança. Na tarde do dia 28, saímos com a bicicloteca pela periferia, e surgiu a idéia de fazermos um sarau por lá, afinal nem o sistema de lixo lembra que aquele lugar existe, quanto mais as (escassas) políticas culturais. Dona Maria abriu as portas de sua casa, com muito amor e atenção, e a criançada tomou conta do sarau. Tonho, o macaquinho de Penha, teve sua noite de glória.

 

As sinistras espumas do Tietê

A caminhada para Pirapora do Bom Jesus foi sofrida, sol estalando na cabeça em plena rodovia. Desviamos por uma estradinha de terra em busca do oásis – sombra, sorvete e lago. Chegando em Pirapora não resisti à mangueira, para surpresa da senhora que lavava sua calçada. Ficamos alojados na casa do samba, uma delícia de lugar. Infelizmente não chegamos a conhecer o samba de roda de Pirapora,  pois o grupo local está parado por desentendimentos internos.

Ainda não havia visto o Tietê cortando a cidadezinha, mas ele é onipresente. Seu fedor está em todos os lugares, não adianta fugir, não adianta se esconder. Rondando a cidade vi suas sinistras espumas branco-acizentadas, consequência da depuração do rio que tenta se limpar dos vestígios da megalópole, mas ufa!, é imundície demais meu deus!

O sarau reuniu muita gente da cidade – teve blues com viola, poesia de Carlos Drummond sobre as fétidas espumas de Pirapora, clown, dança do ventre, samba… estava bom demais. Após o sarau, a interação continou na praça paralela, mesclando piraporenses e dondemirantes num só som.

 

Milagreiro

Pirapora do Bom Jesus, assim como Santana do Parnaíba, faz parte da rota religiosa, devido às romarias que ocorrem na região em busca das graças do Bom Jesus de Pirapora.  Essa história dos milagres surgiu no século XVIII, quando pescadores encontraram no rio uma imagem de Jesus em tamanho original, conservada até hoje na igreja da cidade. A estátua foi guardada num paiol, que durante a noite pegou fogo. Enquanto tudo ao redor ardia e se transformava em cinzas, a imagem permaneceu intacta.

Após esse primerio milagre, tentaram levar a estátua para a igreja matriz em Santana do Parnaíba, que na época abarcava o atual município de Pirapora. Colocaram a imagem no carro de boi e seguiram caminho. Quando estavam prestes a deixar Pirapora, o carro de boi empacou. Não teve santo – nem homem, nem cavalo, nem boi – que fizesse a roda girar. Nesse momento um surdo-mudo soltou a voz dizendo “a imagem do Bom Jesus deve ficar em Pirapora”. Após mais esse milagre, a devoção pelo Bom Jesus atingiu em cheio o coração dos fiéis e muita gente passou a vir de longe para fazer suas ofertas e pedidos. Muitos casos de milagres são contados desde então.

Os senhores devotos se alojavam de um lado da cidade – os  escravos tinham de ficar do outro lado do rio, que só podia ser atravessado a barco. Acontece que os negros davam um jeito de atravessar o rio para cultuar a imagem (seja por devoção ou por esperto disfarce), até que a primeira ponte foi construída e o samba invadiu a cidade.

Pirapora é uma cidadezinha agradável –  casinhas coloridas, coreto, clima de interior. Para ser perfeita, só faltava o rio ser limpo. O nome Pirapora tem origem guarani e significa “peixe que pula”. Pulava. Até algumas décadas atrás podia-se pescar e tomar banho no rio. Hoje, sobre as águas, boiam as nuvens podres, prova acusatória contra nossa civilização.

Assim como em Santana do Parnaíba, em Pirapora o que não falta é polícia. Um exagero visual, viaturas por todos os lados. E a cidade pacata, indiferente às armas e às luzes vermelhas-azuis. Em contraponto, poesias, poesias ao vento, surfando os ares, navegando as terras desse interior caipira-pora.

 

Currtura

E onde está a cultura caipira? O que é essa cultura? A música que se ouve no interior não vem do canto da viola, é aquela massificada, a mesma da capital. Putz, putz, vou atolar. A cultura de raiz não está escancarada e perde espaço, se desidentifica, mas ainda se conserva na tranquilidade, no sorriso frouxo, na hospitalidade, no tempero, na estrada de chão margeada por suas vaquinhas. Fruta, criança no pé, formigueiros colossais, árvores majestosas e gente que olha no olho e diz bom dia, normalmente seguido de algum comentário espontâneo, livre.

Gunnar comentou que o caipira é o vencido, o bandeirante que largou mão de sua missão de desbravar. Mas a palavra “vencido” não me convenceu. Imaginem se todos os bandeirantes tivessem olhado o límpido rio Tietê, com seus peixinhos pulando, fumado um cigarro de palha e resolvido viver em paz, sem subjugar índios ou escravizar negros. Vencido não. Plácido, plácido caipira.

share save 171 16 Impressões caminhantes (Barueri   Pirapora)
2 comentários em “Impressões caminhantes (Barueri – Pirapora)”
  1. pirapora esta uma porcaria…

  2. Car(o)as amig(o)as,
    Gostei muito do texto e dos eventos levados a cabo.
    Gostaria que vissem um texto que fiz sobre Pirapora em http://www.grabois.org.br, seçãoProsa e Poesia.
    Grato,

    ACAS
    PS: o texto (sem fotos) está também no http://www.recantodasletras.com.br/autor.php?id=1678

Deixe um comentário





Blog integrante da rede Soylocoporti