Parte do coletivo Soylocoporti

Olhares de (apenas) uma latino-americana

terça-feira, 30 de agosto de 2011

Saramago, Lis.boa e a “Europa”

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Tá, vou continuar a contar a história dessa viagem. É minha terapia, no mínimo. E algo me diz que eu só vou conseguir pintar um quadro do que vivi na minha cabeça depois que eu contar essa saga todinha.

Então senta que lá vem história.

Depois de nossa memorável viagem de carnaval, passei alguns dias em Lisboa na casa da Roberta. Li Levantado do Chão, do Saramago, e me toquei que toda essa luta portuguesa, a esperança contra a opressão do latifúndio, é irmã da que existe no Brasil. Nem tão impecável é a história da Europa… Aliás, nem um pouco. E é tudo tão recente. A ditadura de Salazar foi até 1974!  Tivemos duas guerras mundias sobre suas terras, totalitarismos, intolerâncias, perseguições. Isso sem falar nos séculos anteriores. Como podemos ter essa miragem de estabilidade da Europa?

Há muitos problemas que são problemas da humanidade toda. Como esse: “Emprestam-te uma espingarda, mas nunca te disseram que a apontastes ao latifúndio, toda tua instrução de mira e fogo está virada contra o teu lado, é para o teu próprio e enganado coração que olha o buraco do cano da tua arma, não percebes nada do que fazes e um dia dão-te voz de atirar, e matas-te”. Assim conta Saramago. Não é igual por toda parte?

O prólogo do livro é uma citação de Almeida Garret: “E eu pergunto aos economistas políticos, aos moralistas, se já calcularam o número de indivíduos que é forçoso condenar à miséria, ao trabalho desproporcionado, à desmoralização, à infância, à ignorância crapulosa, à desgraça invencível, à penúria absoluta, para produzir um rico?”

Saramago continua sua denúncia poética: “A grande e decisiva arma é a ignorância. É bom, dizia Sigisberto no seu jantar de aniversário, que eles nada saibam, nem ler, nem escrever, nem contar, nem pensar, que considerem e aceitem que o mundo não pode ser mudado, que este mundo é o único possível, tal como está, que só depois de morrer haverá paraíso, o padre Agamedes que explique isto melhor, e que só o trabalho dá dignidade e dinheiro, porém não têm de achar que eu ganho mais do que eles, a terra é minha, quando chega o dia de pagar impostos e contribuições, não é a eles que vou pedir dinheiro emprestado, que aliás sempre foi assim, e será, se não for eu a dar-lhes trabalho, quem o dará, eu e eles, eu que sou a terra, eles que o trabalho são, o que for bom para mim, bom para eles é, foi Deus que quis assim as coisas, o padre Agamedes que explique melhor, em palavras simples que não façam mais confusão que têm na cabeça, e se o padre não for suficiente, pede-se aí à guarda que dê um passeio a cavalo pelas aldeias, só à mostrar-se, é um recado que eles entendem sem dificuldade. Mas diga-me, senhora mãe, bate também a guarda nos donos do latifúndio, Credo, que esta criança não regula bem da cabeça, onde é que tal se viu, a guarda, meu filho, foi criada e sustentada para bater no povo, Como é possível, mãe, então faz-se uma guarda só para bater no povo, e que faz o povo, O povo não tem quem bata no dono do latifúndio que manda a guarda bater no povo, Mas eu acho que o povo podia pedir à guarda que batesse no dono do latifúndio, Bem digo eu, Maria, que esta criança não está em seu juízo, não a deixes andar por aí a dizer estas coisas, que ainda temos trabalhos com a guarda.”

“Europa”

Mas eu estava falando… da Europa! Mas há tantas Europas dentro da Europa. Falar “Europa” é um tanto absurdo! Até agora estou me referindo exatamente a esses lugares que as pessoas visitam e voltam contando; Portugal, Espanha, França, Itália e Holanda, onde estive, fazem parte desse pacote que por essas bandas chamamos de “Europa”. Esses lugares de bebidas refinadas, atrações turísticas, museus, cultura erudita e souvenirs. Coisas que existem, mas acredito que são só fachada. Às vezes é difícil conseguir penetrar além dessa fachada. Por isso gosto de viajar visitando pessoas que moram nos lugares. Dá pra sentir um pouco como é de fato viver ali, ouvir histórias das diferenças culturais e seus cômicos confrontos ou vivenciá-los, tentar entender um pouco da dinâmica própria do local e como ela se relaciona com a dinâmica do todo.

Em Portugal só se ouvia falar da crise. Incrível como todos me falaram dela o tempo todo. E não foi só um português que me disse que queria ir para o Brasil, tentar a vida, que agora a situação se inverteu e os portugueses é que têm que migrar para o Brasil. A realidade é que eles possuem uma qualidade de vida ainda bem melhor que a nossa em vários aspectos, mas não sabem disso – só ouvem falar que o Brasil não para de crescer. Lá eles contam com transporte mais eficiente e barato, mais direitos assegurados, infra estrutura pública. Parece que as cidades foram feitas para as pessoas transitarem nelas  (algo que deveria ser óbvio, mas repare nas nossas cidades aqui e pense se elas são construídas para a população como um todo, ou se vão surgindo assim meio ao léu, seguindo interesses particulares e momentâneos).

Esse papo é engraçado mesmo, porque ao mesmo tempo que é uma fachada, é real. É uma camada fina, que dificulta ver o que está dentro, mas que de fato existe por toda essa Europa que conheci, em maior ou menor grau.

Lis.boa

Percorri a noite lisboeta (poeta? – pra mim é inevitável que uma palavra siga a outra, na velocidade do inconsciente). Foi o período mais festeiro desses três meses de viagem. Roberta, Roberta, que me tirava de casa em Curitiba nas noites mais improváveis, naquelas em que eu já estava de pantufa tomando um mate. Fui sua fiel escudeira pelos bares e ruas e centros culturais da capital portuguesa. Fomos duas noites ao Festival 5 Elementos, que nos lembrou o Festival de Cultura que ajudamos a construir em Curitiba. Era em Oeiras, na região metropolitana – um longo trajeto de metrô, mas nada que nos impedisse de ir.

Foi muito bonito estarmos juntas lá vendo aquilo – acontece pelo mundo inteiro. Tem gente boa e dedicada no mundo inteiro. E tem algumas coisas do nosso festival que eles achariam fantástico, como a comunicação compartilhada. E nós poderíamos aprender tanto com a experiência de lá… Eles eram super mega ultra organizados. Tudo no horário, tudo funcionando direitinho, gente vendendo artesanato, outros com barraquinha da iniciativa que participam contando do seu trabalho, outros vendendo comida e bebida, área para crianças… Além do palco principal havia um palco pequeno, que era uma construção circular a partir de feixes de vários bambus, grossos, que se cruzavam – semelhanças com as bioconstruções do Festival daqui. Não levei câmera fotográfica porque nessas horas privilegio o momento – entre registrar e poder dançar sem incômodo… escolhi dançar. Pretendo aprofundar essa história de festivais, presenciei mais um no decorrer da viagem, em Lyon – mas fica para os próximos capítulos.

Outra característica da “Europa” é a grande quantidade de imigrantes, principalmente nas metrópoles. No caso de Portugal, são os brasileiros que mais migram, seguidos pelos africanos das ex-colônias lusas – Guiné Bissau, Moçambique, Angola, Cabo Verde. Dá para sentir que não há uma integração harmônica: os imigrantes costumam ficar com os piores empregos, os mais baixos salários e muitas vezes acabam vivendo um circuito à parte. Atualmente são apontados pelos governos conservadores como culpados pela crise e estão sofrendo maus bocados.

Confesso que não senti nenhum preconceito explícito e direto por ser brasileira – mas alguma má vontade exagerada me deixou desconfiada… Na Itália obtive uma prova concreta: Valentina, a italiana que morou seis meses em Blumenau comigo na casa de meus pais, foi estudar em Portugal, alguns anos depois de voltar do Brasil. Ela falava português muito bem, pegou o sotaque direitinho, quase não dava para perceber que era gringa. Quando estava a procura de casa para alugar em Coimbra não conseguia de jeito nenhum… porque achavam que ela era brasileira! Ela só foi fechar negócio com sua mãe junto, aí acreditaram que ela era italiana, e aí havia lugar para ela. Pode?

“Ah, esses portugueses são uns nojentos mesmo”. Não, não é isso. O objetivo dessa anedota é demonstrar que a discriminação étnica realmente existe por lá, ASSIM COMO EXISTE NO BRASIL. Aqui discriminamos pessoas da nossa própria nacionalidade – por questões de cor, credo, orientação sexual, origem, entre outras – e estrangeiros, principalmente nossos hermanos sulamericanos: paraguaios, argentinos, bolivianos, peruanos e por aí vai. Só com os estrangeiros europeus e americanos é diferente – para eles pagamos um pau.

É claro que existem muitos portugueses legais e muitos portugueses chatos – não sejamos reducionistas. E eles tem um jeito tão engraçadinho, tão diferente do nosso… Não vou explorar muito isso para não martelar estigmas, mas … só um pouquinho vai – o que segue, reitero, são impressões pessoais. Os portugueses são muito sinceros e diretos, o que para nós brasileiros às vezes soa rude. Se você pedir algo para alguém que não pode ou não quer fazê-lo, o sujeito vai lhe dizer “não” ao invés de falar que vai fazer e acabar não fazendo, ou inventar uma desculpa idiota, ou desconversar – como em geral nós brasileiros faríamos. Além disso, eles levam tudo muito ao pé da letra. “Moço, esse transvia [= ônibus em português de Portugal] vai para o aeroporto?” – Não, ele passa pelo aeroporto, me responde o tio. Sacou? O ponto final não é o aeroporto, então não dá para dizer que ele “vai para o aeroporto”. Daí é óbvio que nessas horas faço uma cara meio irônica de “me poupe”, e o cara faz uma cara de “você que não sabe perguntar direito” e fica aquele embate cultural implícito.

Outra coisa: café da manhã é pequeno almoço. Hahahahahaha. Tá, parei.

O negócio é que dancei muita música africana em Lisboa pelos bares do Bairro Alto – um morro cheio de caminhos antigos e estreitos, reduto da boemia lisboeta, que fica com suas ruelas apinhadas de gente nas noites quentes. E confesso que não fui em nenhum museu em Lisboa, mas fiz longas caminhadas, guiada por minha amiga Rô ou errando solita. Gostei muito das artes urbanas e deu para perceber a ânsia por mudança nas ruas, as demandas populares tornadas evidentes pela crise. Também fui com Roberta conhecer uma iniciativa que trabalha com economia solidária, comércio justo e articulação popular – a Mó de Vida. Tivemos uma conversa muito boa sobre o surgimento da organização, seus focos de atuação e as dificuldades que enfrenta. Havia uma bandeira do MST lá.

E teve uma noite que acabamos presenciando um fado, meio ao acaso. Fomos tomar um vinho na tasca [= bar em português de Portugal] e de repente o garçom pediu silêncio e anunciou os músicos e o cantor, que tocaram uns fados cômicos – com aquele sotaque português, simplesmente engraçadíssimo. Depois veio uma senhora que assumiu o microfone e chorou todas as suas mágoas de amor. Vez ou outra eles paravam para um intervalo. E se alguém falasse alto durante os fados ganhava um shhhhh! do garçom (eu ganhei…). Apesar do pito, achei bem lindo e me encantei com o respeito que inclusive os jovens mantêm pelo fado.

Aconchego

Um dos motivos que me fez ir para a Europa – essa decisão foi tomada uns três dias antes de eu partir para o Senegal, ou seja, foi bem difícil resolver largar tudo e tomar todas as medidas práticas para isso – foi justamente a oportunidade de conhecer esse pedaço de chão na companhia de amigos. E quero aproveitar para agradecer mais uma vez à Roberta, que abriu sua casa e seu coração. Valeu muitíssimo a parceria!! Eu me emociono mesmo ao pensar em como essas pessoas me acolheram pelo caminho… Grata pelas pessoas, pelo mundo, pelas coincidências, pelo universo. Deixo e recebo um tanto

De Lisboa peguei um voo para Lyon, na França. Je ne parle pas français. Couchsurfing e caronas. Bioconstruções e alternativas de vida. Interiorzinho e Paris. Muita história pela frente.

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2 comentários em “Saramago, Lis.boa e a “Europa””
  1. Olá. Vim parar a este seu blog um pouco por acaso e acabei por ler este seu post sobre Lisboa, Saramago e a Europa. Às vezes é preciso ‘escutar’ – neste caso ler :) – pela boca de alguém de fora o óbvio: que apesar da crise, o caminho percorrido foi longo e que há coisas bastante positivas por aqui. A história da Europa tem sido feita por crises…se calhar a própria história do mundo, não é? A emigração para o Brasil deve-se à possibilidade de participar numa evolução, de contribuir e evoluir profissionalmente – estamos a falar de pessoas bastante qualificadas. Há, no entanto, neste interesse pelo Brasil uma certa hipocrisia. Quando estavam na merd@, os europeus não queriam lá por os pés, e agora… andam todos a aprender a sambar! Okay…agora diz que Portugal também o fez…mas tantos anos a ‘papar’ com novelas, música e igrejas envangélicas deveria-nos dar uns créditos adicionais! :)
    Bons posts!

  2. É, Manuel, infelizmente o que chega do nosso país aí não é do melhor… Triste ter como referência de nossa cultura as novelas. A música que chega deve ser aquele axé enlatado. E as igrejas evangélicas estão dominando o mundo, bem aquelas de pensamento reducionista, obediente, discriminatório e nada contestativo e criador…

    Estive na casa de vários europeus que viveram no Brasil e levaram para a Europa um pouco da abundância criativa da nossa cultura. Espero que eles façam um bom trabalho por aí e se multipliquem ;)

    Obrigada pela visita, abraço!

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