Parte do coletivo Soylocoporti

Olhares de (apenas) uma latino-americana

domingo, 1 de janeiro de 2017

O absurdo e a graça

c0a6848c784acf3c2226b395f6a275e0 O absurdo e a graça

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Trechos de “O absurdo e a graça”, autobiografia de Jean-Yves Leloup. Campinas, SP: Verus Editora, 2003.

p. 8
Não receio ser muito espiritual ou muito humano. Receio não ser nem um nem outro ou não ser o bastante. Receio faltar humanidade em minha busca de Deus e faltar espiritualidade em minha vida cotidiana.
Estes fragmentos de um itinerário desejam ser o testemunho de um homem na busca de sua inteireza, que não pisa no ego em nome do Self, que mesmo estando muito saturado pelo seu ego não esquece oSelf. Um homem inteiro é também um homem que, após ter fugido de sua sombra ou tê-la negado, acaba por aceitá-la e amá-la como a si mesmo. Penso frequentemente em Francisco de Assis, o belo cavaleiro que um dia desce de sua montaria para beijar o leproso… Ele beija o que então lhe causa mais medo, o que se mantém na raiz de suas aversões mais profundas e aí, no âmago da sombra encarnada, reconhece o Cristo vivo… Mas aceitar a sombra não é comprazer-se nela: Francisco volta do seu beijo ao leproso com lábios de luz… Frequentemente me ocorreu ter descido do cavalo e desabado na sombra… para o encontro de um outro sol.

p. 13
Cada família tem o seu fantasma – aquele de quem não se fala, aquele que se crê tenha desaparecido para sempre nos escaninhos da memória. Mas, às vezes, as crianças estão mais próximas dos mortos que dos vivos, mais próximas dos espíritos que dos corpos que as envolvem; elas têm traços de cordas no coração, nós que suas mãozinhas jamais teriam sabido amarrar. O homem nasce velho e levará muito tempo para se tornar jovem. Eu nunca fui tão velho quanto em minha juventude. Para mim, é fácil crer carregarmos dentro de nós estrelas mortas, sendo suficiente cavar um pouco nas camadas tão mal-exploradas do inconsciente para nelas encontrar a memória do universo.
“Como era seu rosto antes do nascimento de seus pais?”, pergunta o koan zen. Sabe-se realmente de onde se vem? Nasci do encontro hesitante de dois códigos genéticos veiculados, mais ou menos amorosamente, por Jean-Claude e Pierrette? Sou uma velha alma errante, atraída pelo arfar do abraço amoroso que se introduziu sub-repticiamente no útero a fim de terminar uma obra recusada muito cedo? (Veja o Bardo Thodol). Sou um bodisatva, um verbo feito carne, de volta ao mundo para trabalhar no despertar das criaturas ou sou, simplesmente, uma ilusão, um murmúrio das ondas, um eu composto que vai se decompondo, a bolha de um grande sabão mergulhando na água morna do tempo…?

p. 18-9
Contrariamente ao que se pensa, essa fé na ressurreição não é própria do judeu-cristianismo. Ela é encontrada também no hinduísmo onde, ao lado da crença popular na reencarnação, se afirma a possibilidade de ressurreição, da anastasis, quer dizer, do novo nascimento, do nascimento para o alto, do qual fala o Evangelho de João. Em sânscrito, distringue-se a palavra punarjanman, “reencarnado”, que, de acordo com a raiz punar, traduz ao mesmo tempo um movimento de retorno ao passado e uma repetição, e a palavra dvijanman que traduz, segundo a raiz dvija, aquele que é “nascido duas vezes”, “nascido de novo”, saído de encadeamento de causas e efeitos, que está além do ego e do espaço-tempo, chamado a tornar-se um jivan mukta, um “liberto vivo”, desperto desde esta terra para a sua condição de eternidade, “já ressuscitado”. Em inglês distinguem-se igualmente bem os dois termos: back again (de retorno) e born again (nascido de novo).
Mais do que a preocupação com as vidas anteriores ou com as vidas futuras, parece-me importante a preocupação com a vida presente e com a vida eterna. Como diz Simeão, o Novo Teólogo: “Aquele que não conheceu a vida eterna desde esta vida, não a conhecerá também na outra.” Como se trata de vida “eterna”, ela era “antes”, será “depois” e é durante. É a dimensão de eternidade que habita nossa vida mortal, este não-tempo que é preciso saborear no coração do tempo. O Cristo, o Buda, os grandes despertos, são assim chamados porque despertaram precisamente para um outro Dia, para o grande Dia sem o avesso da sombra, para a pura luz que É no princípio, “não nascida, não feita, não criada” e que não passa. Reencarnar-se é ainda pertencer ao “ser para a morte”, prolongar o tempo. Ressucitar é sair do tempo, não mais ser “para a morte”, permanecer no Vivente. Parece-me difícil crer nisso sem ter sido tocado, nem que seja por um instante, por uma outra dimensão. Entretanto, pode-se colocar honestamente o questionamento: O que é que resta quando não resta mais nada? Quem sou eu antes do meu nascimento? Quem sou eu depois da minha morte? O que é que morre quando eu morro? O que é que nasce quando eu nasço? Quem passa, quem permanece?

p. 20
Não me venham dizer que é bonito o nascimento de uma criança! Aquela mistura de açougue e sanitários, aquele pedaço de carne que berra e que é colocado em seus braços sem pedir licença… Eu não sabia nem mesmo como me sentar… E despois, de repente, uma grande calmaria, a criança dorme, a pele se desenruga, a mãozinha parece que vai abençoar e, naquele instante, descubro que não é a vida que é absurda, mas eu é que sou um tolo. Dou-lhe seu primeiro banho, seu primeiro batismo. Cantarolo para ela, em silêncio, uma canção:

Bem-vinda, cocozinho, alminha, alminha enlameada neste mundo metade podridão metade maravilha.
Nele verás papoulas e cães que te mordem.
Nele verás azuis…
Como uma onda, nasceste para morrer
na praia do tempo.
Como o mar, nasceste para viver
dessas ondas que morrem, e para nunca perecer.
Bem-vinda, cocozinho, alminha, alminha enlameada.
Boa terra para teus pés.
Bastante água em tua semente.
Bom vento para teu sopro.
Shalom! Shanti! Paz em teu coração! Deus em tua alma!

p. 32-3
(…) como diz Pascal: “O erro é o esquecimento da verdade contrária.” No Evangelho e na Bíblia é bom procurar a palavra que diz o contrário daquela que se acaba de ler, senão se cai na ideologia. Levei muito tempo para encontrar essa “palavra contrária” e, no entanto, ela está no Decálogo: “Honra teu pai e tua mãe” (Dt 5, 16) – a raiz kbd significa menos honrar ou glorificar do que dar a alguém a sua importância, reconhecer sua realidade. “A ordem de dar ao pai e à mãe a importância devida insere o homem em sua realidade própria, devolve-o às fontes de seu ser.”
Há ódios que dão mais importância ao outro do que amores piegas. Odiei apaixonadamente minha mãe, dei-lhe todo o seu peso, toda a sua importância. Estou seguro de que foi mais fácil carregar esse peso do que se eu a tivesse amado com a mesma paixão. Hoje é mais fácil estar livre desse ódio e lhe pedir perdão. É mais difícil pedir perdão quando se ama demais à sua mãe…
“A sombra”, dizia Gra Dürkheim, é apenas “uma luz encolhida, que não chega a se dar, a se difundir”. Não é o ódio um grande amor recalcado? Odiar não é estar impedido ou se impedir de amar? Dizer a alguém que o detestamos, amá-lo ainda o bastante para odiá-lo, olhar de frente esse ódio, amar esse ódio e ver o gelo derreter… esse gelo esconde a água viva.
Roche Marotte, pedra negra de minha infância, esse longo absurdo… olhá-la de frente, deixar correr as lágrimas, o passado é o passado. Deixar derreter estar velhas memórias, descobrir a água viva do instante.

p. 45
(…) a tristeza que acompanhava minha devassidão lembrava-me que alguma coisa não devia estar em ordem e que eu devia me encontrar fora do meu eixo, ao lado de mim mesmo (descobriria mais tarde que o sentido da palavra pecado, harmartia em grego, é “cair ao lado”, “não visar o alvo corretamente”). Mas, não tendo objetivo a visar, como poderia sentir que as flechas do meu desejo caíam ao lado?

p. 52
Não era mais um errante. (…) de vagabundo tornei-me um peregrino.

p. 59
A escola da estrada é dura.

p. 66
(trecho que cita Shri Nisargadatta Maharaj:)
Enquanto vos sentirdes competentes e confiantes, a realidade permanecerá fora de vosso alcance. Se não aceitardes a aventura interior como modo de vida, a descoberta não virá a vós… Não ser nada, nada conhecer, nada ter, é a única vida digna de ser vivida, é a única felicidade que vale a pena possuir. Deveis encontrar vosso próprio caminho. Se não o encontrardes por vós mesmos, é que não é vosso caminho e não vos levará a parte alguma. Vivei com seriedade vossa verdade, tal como a haveis encontrado, agi em função do pouco que compreendestes. É o estudo sério que vos ajudará na travessia e não a habilidade, seja a vossa, seja a de qualquer outro…
Não trapacear, não ferir, isso não é importante? Aquilo de que tendes necessidade, acima de tudo, é paz interior, que exige harmonia entre o interior e o exterior. Fazei aquilo que credes, crede naquilo que fazeis. Todo o resto não é senão perda de tempo e de energia.

p. 74-5
De um lado, tudo está no exterior, pensava eu; só existem o mundo, os corpos, a vontade. Do outro lado, tudo está no interior, doçura, paz, acolhida. Só existe o absoluto, o mundo é um sonho mau ou um longo sono do qual os budas despertaram. (…)
No ponto em que eu estava, não tinha mais vontade de negar o que quer que fosse para afirmar o que quer que seja. Negar a existência de Deus para afirmar a existência da matéria (Sartre não tinha dito que,”se Deus existe, então o homem não existe”?), negar a existência do mundo para afirmar a existência de Deus. Minha pergunta era de preferência: Como manter os dois juntos?
Por que negar meu corpo? Ele me tinha feito sofrer suficientemente para que eu não duvidasse de sua existência. Além disso, não era dentro de um corpo que eu dizia que o corpo era uma ilusão, não era um ser finito que dizia que só o infinito existe, e tudo o que se sabede Deus ou do Absoluto, não é o homem relativo que o sabe?

p. 82
(…) Explicou-me que a palavra “cristo” pressupunha, ao mesmo tempo, aquele que é ungido (este é o sentido da palavra christos em grego, tradução do hebraico messiah), aquele que unge e a unção: o Filho – o Pai – o Espírito.
(…) Dizer que Deus é Trindade é dizer, em linguagem evangélica, “Deus é amor.” A Trindade é a interioridade do Deus Uno. Deus não é Um como um “sublime celibatário” (Chateaubriand). Deus é Um como o Amor, o Amante e a Amada são Um.

p. 86
“Sim, olhe bem o horizonte”, disse-me um monge, “o mar e o céu não estão separados, não estão confundidos, no Cristo é assim, o criado e o incriado…” E ele continuou a pequena canção da Calcedônia que eu começava a conhecer: “O infinito e o finito, o tempo e o eterno não estão confundidos, não estão separados, o Cristo é o horizonte do homem…”
(…) Eu procurava, sobretudo, uma verdade que não fosse “contra”; uma verdade vasta, capaz de conter as apalpadelas e os extravios daqueles que dela se aproximam; uma verdade paciente diante das formulações sempre inadequadas àquilo que nela permanece inefável; uma verdade oceânica, capaz de conter suas tempestades, integrando as águas calmas do verão às suas mais altas ondas. Quanto a mim, eu vivia essas horas de verdade e de certeza, como tempestades apaziguadas, mas guardava o barco do meu espírito pronto, disponível para todos os temporais – eles também fazem parte da verdade.

p. 87
Não tenho medo do julgamento final, sei que seremos julgados por um olhar de criança…
Quando hoje me coloco diante desse terrível olhar inocente, não consigo ter ilusões sobre mim mesmo e, ao mesmo tempo, não posso mais desesperar. Quando fomos olhados assim, não nos sentimos mais fora do alcance do amor, qualquer que seja a espessura de nossas máscaras.

p. 89-90
(…) Como eu lhe contei minha vida e as experiências que tinha precedido minha vinda ao Monte Atos, ele me disse: “Nunca vi ninguém tão orgulhoso como você. Peça a Deus a humildade, senão você está perdido. O orgulho é a raiz de todos os males e está, sobretudo, na raiz do desespero. Enquanto você achar que é alguma coisa e estiver na expectativa de que devem a você o merecido reconhecimento, você nunca estará em paz, nunca feliz. Se você for humilde, souber que não é nada, não haverá mais lugar para a inquietação, e você será feliz.”

p. 90
Como disse tão bem Bernanos: “O inferno é não amar.”

p. 91
Se existe o desespero, é porque existe ainda um “eu” que se desespera, que se deleita na dor e que se leva muito a sério. Se renuncio a este eu, renuncio, ao mesmo tempo, ao desespero.
Estar no inferno e não se desesperar é manter-se nos limites do eu (transgredi-los seria orgulho) e conservar este eu vulnerável, aberto à graça.

p. 96
(…) a tecelagem era para mim uma meditação, esse trabalho não estava separado da busca interior. René Guénon nos ajudava a compreender melhor o simbolismo de nossos ofícios e de nossos atos:
“É preciso notar que a corrente, formada pelos fios verticais estendidos sobre o trabalho, representa o elemento imutável e principal, enquanto os fios horizontais da trama, passando entre aqueles da corrente no vaivém da lançadeira, representam o elemento variável e contingente, quer dizer, as aplicações do princípio em tais ou tais condições particulares. Por outro lado, se consideramos um fio da corrente e um fio da trama, percebemos que sua união forma a cruz, da qual eles são respectivamente a linha vertical e a linha horizontal. Todo ponto do tecido, sendo assim o ponto de encontro de dois fios perpendiculares entre si, é, por si mesmo, o centro de uma cruz. (…)
A manifestação de um ser em um certo estado de existência é determinada, como todo acontecimento – seja ele qual for -, pelo encontro de um fio da corrente com um fio da trama. Cada fio da corrente é, portanto, um ser considerado em sua natureza essencial (…). Nesse caso, o fio da trama que o fio da corrente encontra em um certo ponto, corresponde a um estado definido da existência, e sua interseção determina as relações desse ser quanto à sua manifestação, nesse estado, com o meio cósmico no qual ele se situa sob essa conexão. A natureza individual de um ser humano, por exemplo, é a resultante do encontro desses dois fios.

p. 98
(trecho citado do starets Silouane:)
“O imperialismo da modernidade não é senão uma contracultura, uma contra-religião, e só pode resultar em uma catástrofe: a situação é “humanamente irreversível”. Enquanto na Idade Média se queria uma supremacia da alma pelo espírito, um mundo harmonizado por cima, cujos ritmos e estruturas qualitativas não podem ser compreendidos pelos historiadores modernos (estranhos a tudo o que ultrapassa o mundo sensível), a Renascença múltipla, perturbadora, horizontal, voltada para o formal, criou rupturas cujo resultado é um interesse crescente pelas coisas da terra e conduziu ao triunfo de uma tecnocracia absolutamente centralizada… É pela poesia que as civilizações se constroem; é pela sua ausência que elas param de brilhar.”

p. 108
A luz está lá, são nossos olhos que não a enxergam…

p. 147
Raramente ele me falava dEle. Tinha esse pudor que têm os grandes amantes, que raramente falam do objeto de seu amor. Não se encontram palavras para falar de seu maior sofrimento e também não se encontram palavras para falar de sua maior alegria.
(…)
Quanto maior é a verdade que se recebeu por partilha, maior é a humildade que se deve ter para transmiti-la.
p. 164
(…) “o esquizofrênico e o místico frequentam certamente as mesmas águas ou o mesmo oceano, mas, lá onde um nada, o outro se afoga.”

p. 175
Talvez a poesia, o símbolo, sejam uma linguagem possível. Eles falam, mas eles guardam, no coração das palavras, grandes oásis de silêncio. Não é essa a linguagem dos profetas, linguagem mais próxima das sensações que das ideias?

p. 177
(…) Os animais que o Evangelho nos dá como exemplo são muito diferentes: a serpente e a pomba. Não se trata agora de dissertar sobre a inocência ou a prudência que se atribui a elas. Notarei somente que uma se mantém ao nível do solo e que a outra está sempre pronta a elevar-se na alturas.
Não é um belo programa, o de querer manter unidos o realismo e a prudência mais terrena, a inocência e a elevação mais espiritual? Mas é possível um político que seja também um místico, ou ainda, como dizia Simone Weil, um santo que seja também gênio?
Dizia-se de Newman que ele era infinitamente cético e infinitamente crente… Trata-se com efeito, diante da complexidade de algumas situações, de não ser ingênuo, mas de experimentar todas as coisas, todas as afirmações e, em seguida, aderir de todo o nosso ser quando a verdade mostra a sua face. Este é, além disso, um dos traços marcantes de são Domingos: ele não se decide facilmente, mas, tendo decidido, ele sabe o que quer, ele se mantém firme…

p. 180
(…) é uma certa maneira de marchar sobre a terra que a faz santa.

p. 182
A verdadeira gnose é a inteligência do coração, nela o amor e o conhecimento não podem ser separados.

p.187
Esses textos pareciam-me familiares, eles me lembravam com efeito a literatura sagrada da Índia, onde a causa da infelicidade e do sofrimento é avidya, a ignorância, a ignorância do Self, o esquecimento de nossa identidade em Deus. O Évangile de vérité falava de uma embriaguez, de um obscurecimento do qual é preciso sair, e o caminho de saída ou de libertação é o conhecimento de si, o discernimento das ilusões e a reintegração de nosso ser verdadeiro – “retração das projeções”, diria um analista contemporâneo (Carl Gustav Jung).

p. 190
A causa maior de nossas perturbações, de nossas doenças e do mal-estar está, para Graf Dürkheim, no recalque do Ser essencial:
“O recalque dos impulsos vitais da criança, causado por palavras desencorajadoras, por uma falta de compreensão e de amor, prejudica seus impulsos naturais e suas necessidades de expressão e de desenvolvimento em seu conjunto. Impede também que ela tome consciência de sua essência sobrenatural e de como desenvolvê-la (…). É preciso também que o mal-estar nascido do Ser essencial contrariado se torne consciente como tal e que depois seja eliminado pelos meios apropriados.”
Esse ser essencial, contrariado ou recusado, vai estar, pra Graf Dürkheim, na raiz de nossas sombras mais pesadas:
“Na sombra está aprisionada nossa verdadeira natureza, nosso Cristo interior, nosso Ser essencial (…). O Ser recalcado é prisioneiro do nosso ser existencial. Cada experiência, na qual por um momento o Ser essencial é libertado, deveria ser acompanhada de uma tomada de consciência daquilo que bloqueia o caminho para o Ser (…). A recusa na consciência, do Ser essencial, produz a sombra mais profunda. Essa sombra é, entretanto, a luz primordial recalcada.”

p. 192
(citando novamente Dürkheim)
“Faz-se, depois de algum tempo, uma diferença entre pequena e grande terapia. Por pequena terapia entendem-se os tratamentos dirigidos às neuroses e que visam restabelecer a saúde psíquica. Seu objetivo é tornar um indivíduo apto a fazer seu caminho na sociedade, a trabalhar e nela criar contatos. A primeira condição é libertá-lo de suas angústias, de sua culpa, de seu isolamento… É uma terapia puramente pragmática.
Mas, às vezes, o sofrimento humano, físico ou psíquico, enraíza-se muito longe, além do psicologicamente acessível, atinge o núcleo do ser metafísico, situando-se, portanto, a uma profundidade do inconsciente cujas manifestações têm um caráter numinoso: a vida espiritual está então em jogo. Nesse caso, a “cura” só é possível se o “doente” aprende a se perceber nesse nível. É preciso que ele compreenda seu fracasso no mundo com o bloqueio de uma realização de si mesmo, através da qual seu próprio Ser transcendente deveria manifestar-se. Uma tal terapia (…) tende ao testmunho do Ser essencial no eu profano e, nesse sentido, à realização do Self verdadeiro. Ela se chama a grande terapia (…). Ela deve ter um sentido iniciático.”

p. 193-4
(cita Todtmoos-Rütte:)
“Logo no início de nossa entrevista, confiei a Graf Dürkheim o motivo de minha visita. Ele sorriu: “O livro já foi feito” (Diálogo sobre o caminho iniciático, de Alphonse e Rachel Goettmann). Depois de um momento de silêncio, Graf Dürkheim falou-me: “Bem, estamos livres! Você tem algum problema, uma pergunta?” Eu procurava, mas nada de problemas, nada de perguntas! Era evidente (!), já que eu não tinha mais livros para escrever, nem entrevistado a entrevistar… Não era a alta vacuidade, eu me sentia simplesmente estúpido… Então, de onde me veio esta ideia estranha, completamente alheia a meu tipo de comportamento habitual? Escutei-me perguntando a Graf Dürkheim: “Posso ficar aqui, simplesmente, e olhar nos seus olhos?”
Ele se aprumou ligeiramente, sorriu, pegou o telefone e pediu que não o perturbassem, mesmo se ultrapassássemos a hora prevista; e depois, tranquilamente, mergulhou seus olhos nos meus… O que dizer agora que não sejam palavras, emoções, memória e que não traia o segredo, esse ponto inacessível onde os olhares se encontram?
Sentir o coração do outro bater
em seu próprio peito?
Sentir a inteligência do outro
iluminar e varrer nossos próprios pensamentos?
E este calor no sangue,
na respiração…?
Não se pode falar disso se não se viveu e quando se viveu não se pode dizer mais nada… “I shin den shin” – transmissão-transfusão “de meu coração a teu coração”, “de meu ser a teu ser”, dizem simplesmente os japoneses.
Dois olhares
Uma luz
Duas asas
Um pássaro.
Agora
onde está o Pássaro?
Permanece o Espaço
que conheceu seu vôo.
Esse Espaço, nós o reencontramos em cada uma das entrevistas que se seguiram, entrevistas, aliás, cada vez mais silenciosas, como se estivéssemos apressados em encontrar “Aquilo” que se tinha aberto em nós.”

p. 196
- Mas invocar o Nome de Jesus durante a postura silenciosa não signiica trair o zen? Não é preciso guardar pura a vacuidade?
Ele olhou-me sorrindo, sabendo que ressonância essas palavras podiam ter em mim (no dia anterior, havíamos invocado Mestre Eckhart!).
- Não foi Jesus que nos conduziu ao perfeito silêncio, à pura vacuidade que está no seio do Pai? Não procure demais explicar tudo isso, não tenha medo do silêncio puro para onde o conduz a invocação do Nome de Jesus, porque ele o conduz mais seguramente do que quando você quer fabricar o vazio com seu pequeno eu místico!
Gostei muito da alusão ao “pequeno eu místico”. Tinha notado que todas as práticas propostas em Todtmoos-Rütte, se não tomássemos cuidado, podiam desenvolver em nós um narcisismo espiritual extraordinário. Elas desenvolviam uma tal consciência de si mesmo, uma tal atenção ao mínimo gesto, à mínima diferença de voz, que o belo eu individualizado tornava-se atrapalhado e não permitiria mais qualquer vulnerabilidade nem qualquer espontaneidade… Em lugar de nos tornarmos como crianças, livres e contentes, poderíamos nos tornar como velhos pavões, sempre prontos a mostrar a plumagem de seu “grande ser” grave e pretensioso…

p. 198
Shâtan (Satanás) em hebraico quer dizer obstáculo; ao mesmo tempo que é despertado nosso desejo de união com o Cristo ou com Deus, também é despertado o que faz obstáculo, o que quer impedir essa união. No pensamento judaico-cristão, Satanás não é um deus diante de Deus, uma potência do mal e das trevas que se oporia, como nos esquemas dualistas, à potência do bem e da luz. Shâtan é uma criatura cuja função é provar-nos, tentar-nos a fim de tornar-nos mais fortes ou, simplesmente, de permitir-nos tomar consciência do nosso grau de fé e de confiança em Deus.
“Sem os demônios e as ciladas que eles colocam em nosso caminho, não poderíamos progredir”, diziam os antigos Pais do Deserto.

p. 206
Alguns quadros de são Sebastião exprimiam bem a ambiguidade desse desejo de martírio. As flechas que o transpassavam e o extasiavam estavam mais próximas das flechas de Eros do que da flagelação de Jesus Cristo. (…)
Se a faca deve tocar em alguma coisa, na relação de Abraão com Isaac, não é no filho, é no “meu” filho, e não é o outro que é preciso matar, mas o apego ou a imagem que se tem do outro. Devolvê-lo, a si mesmo, desamarrá-lo para que, enfim, uma verdadeira aliança seja possível…

p. 207
Se no Cristo só havia sim, Ele também sabia dizer não: não aos mercadores do templo, não à injustiça e ao pecado. A força destes “nãos” autenticava a qualidade de seu sim à verdade e a um amor sem complacência.
Eu, porém, continuei a procurar no Evangelho de Mateus uma justificação para minha covardia e para meu medo dos conflitos:
“Vós ouvistes o que foi dito: ‘Olho por olho, dente por dente.’ Eu, porém, vos digo, não resistais ao homem mau: antes, àquele que quer te fazer julgar para tomar tua túnica, deixa-lhe também teu casaco. E se alguém te obriga a andar uma milha, caminha com ele duas”. (Mt 5, 38-41)
Posso dizer que vivi cada uma dessas palavras ao pé da letra, mas não estou certo de que a causa tenha sido sempre o amor. Frequentemente havia apenas o medo de recusar, de dizer não. Jean e Hildegarde Goss Mayer, esses dois apóstolos da não-violência, que eu pude encontrar quando de uma passagem por Viena, fizeram-me notar que, entre a violência e a covardia, Gandhi ainda preferia a violência. Mas a minha visão sacrificial da existência não me permitiria escutar tais palavras.
Marie Balmary diz também: “O masoquismo consiste em apresentar a mesma face àquele que bate, para que ele recomece. A ‘santidade’ consiste em apresentar uma ‘outra’ força àquele que bate, para que ele desperte.”

p. 210
Novamente compreendi que se podia ser mais orgulhoso sofrendo do que pertencendo ao Cristo. Mesmo de nossas feridas podíamos fazer medalhas de orgulho, podíamos ser mártires sem cessar de ser narciso.

p. 214
Aceitei, assim, o inaceitável: ser ambíguo, levar uma vida dupla, estar casado, ser dominicano. Ao mesmo tempo aceitava, talvez, tornar-me um homem! Eu aterrissava! Meu pequeno planador quebrava suas asas, era preciso aprender a andar a pé, a colocar um pé diante do outro, sem saber aonde ia. Era preciso viver minha bela mística no cotidiano. Aprendi novamente que a graça consiste em conservar o espírito no inferno e não deseperar.

p. 217
Lacan especifíca que a análise deve aceitar ser sicut palea, como adubo. Eu não tinha esquecido que Lacan, muito cedo, falava de constituir a cada instante seu mundo, por seu suicídio”, nem que ao fim de sua vida ele sonhasse com a morte como aquela que o faria enfim o Outro.
Curiosamente, o comentário de seus Écrits (Escritos) devolvia-me o clima de minha adolescência: “A verdade é a morte.” Eu podia testemunhar a meus estudantes que isso era a verdade, mas não toda. A morte era apenas o meio-dizer da verdade, a anastasis (ressurreição) era sua outra metade.

p. 221
(citando Syracuse:)
“A compaixão da qual nos fala o budismo Mahayana não é o amor ordinário que podemos experimentar para com aqueles que nos são caros e próximos. Esse amor pode coexistir com o egoísmo e com a ignorância. Devemos igualmente amar nossos inimigos. Se ajudei alguém o melhor que eu pude e se essa pessoa me ofende da maneira mais ignóbil, possa eu olhar essa pessoa como meu maior mestre. Quando nossos amigos estão em boas relações e próximos de nós, não tomamos consciência de nossos pensamentos negativos. Somente quando nos combatem e nos criticam é que podemos julgar a qualidade de nosso amor. Nossos inimigos são, também, nossos maiores mestres. Eles nos permitem testar nossa força, nossa tolerância, nosso respeito aos outros. Se, em vez de sentirmos ódio de nossos inimigos, nós os amarmos mais, então não estaremos longe de atingir o estado do Buda, a consciência iluminada, que é o objetivo de todas as religiões.”

p. 228
Assim, não há “coisa”, só há relações ou interconexões. Bernard d’Espagnat me dirá mais tarde, por ocasião de um curso dado em conjunto para futuros politécnicos: “Devemos admitir que os objetos, mesmo se ocupem regiões do espaço muito afastadas umas das outras, não estão verdadeiramente separados… Se somos obrigados, pelos fatos, a admitir a não-separação em tal ou tal caso, não temos mais, então, um motivo aceitável para não crer igualmente em todos os casos em que a mecânica quântica é a teoria mais geral dos átomos e como o mundo é feito de átomos, somos assim levados a considerar que a não-separabilidade é, sem dúvida, um fato geral.”
Como eu tentasse explicar isso a um velho monge, mostrando-lhe assim que os sábios haviam descoberto o que já viviam os eremitas havia muito tempo em suas orações, eles que se diziam “separados de todos para estarem unidos a todos” (Evágrio), o velho monge respondeu-me: “Eles nada descobrirão enquanto não tiverem vivido. A interconexão de todas as coisas no universo é uma teoria interessante, mas não eficaz, enquanto não se tiver renunciado a si mesmo para descobrir todo o universo presente em si. Enquanto não se tiver passado pela grande metanóia (além do noûs, do mental), não se compreendeu nada, seja sábio ou não.”

p. 231-2
As palavras de Joseph Chilton Pearce, que me tinham chocado quando comparou Dom Juan a Jesus, voltaram-me ao espírito:
“Dom Juan e Jesus consideram o mundo como uma construção arbitrária e não como uma ilusão (Oriente) ou um obstáculo (Ocidente). Já que o mundo é uma construção arbitrária, os meios ou os produtos de sua construção levantam uma questão importante. Don Juan e Jesus crêem que a matéria do mundo está sujeita a modificações e a reorganizações devidas à atividade do espírito. Os dois sistemas se aplicam a diminuir o limiar entre o pensamento ajustado à realidade e a interioridade, e isso sem levar a uma perda de identidade. Eles analisam as estruturas pelas quais se formam os acontecimentos da realidade e procuram, em seguida, dissolver essas estruturas comuns, isto é, aquelas do consenso social. Uma tal dissolução ameaça, bem entendido, o ego que foi “centrado” e formado por essas estruturas, mas isso é um risco a assumir.”
Mudar de olhar é mudar de mundo e, sem a ajuda do peiote, parecia-me importante ensaiar diferentes óticas sobre o mundo. Todos tinham sua coerência interna e seus próprios sistemas de validação, todas pareciam igualmente irrisórias:
“Somos seres que percebem. Somos uma consciência, não somos objetos, não temos solidez, estamos atados, o mundo dos objetos e dos sólidos é apenas uma maneira de facilitar nossa passagem na terra. Essa não é senão uma descrição criada para nos ajudar. Nós – ou melhor, nossa razão – nos esquecemos de que a descrição é apenas a descrição, e, assim, a totalidade de nosso ser está presa na armadilha do círculo vicioso do qual nós só raramente emergimos no curso de nossa vida.”
Mas o que é que nos pode fazer “emergir”: um riso, um encontro, um cansaço muito grande? O Real está sempre lá; ele é, pois, imprevisível!

p. 233
A escrita não é a palavra escutada pelo poeta. Ela é apenas seu eco… O eco é, por vezes, rico, como no Cântico, mas não é mais que um eco. É preciso saber os limites do poema; ele está longe do beijo. A Escritura se mantém ali, em lembrança do Sopro, testemunha da Respiração.

p. 234
É que o amor não é fácil… Ele não se entrega ao primeiro olhar. Ele não se conta, ele nos derrota; e as imagens mais elevadas, as mais inesperadas, estão lá apenas para nos cortar a respiração, para nos converter o coração.

p. 235
A verdade, se permanece indissociável do amor, é talvez esse charme, no sentido mágico do termo. Alguma coisa que nos faz vibrar em uma outra realidade, no centro mesmo de nossas realidades as mais cotidianas.
(…)
*Charme: do latim carmen, que significa, ao mesmo tempo, “canto” e “encantamento”. (N. T.)

p. 242
Krishnamurti aparecia-me como a encarnação perfeita do gnóstico do qual fala o Evangelho de Tomé, “um e nu”, não propondo uma nova religião ou uma nova prática pessoal, pedindo apenas para parar com a mentira, mais radicalmente ainda parar o mental, para “ver”, enfim, o que é, com inocência. O templo é o espaço que nos envolve, toda situação é ocasião de um encontro com o Real. Observar o que é, instante após instante, sem auto-análise, sem julgamento. Como para Graf Dürkheim, o cotidiano era para ele a ascese mais exigente, o exercício mais eficaz para conduzir à realização do homem extraordinariamente ordinário que parou de procurar “em outro lugar” o que lhe foi dado desde sempre. Por que Prometeu procuraria furtar o fogo que estava na lareira do seu próprio coração?

p. 242-3
(citando Krishnamurti)
“A meditação é a inocência do presente: portanto, ela está sempre só. O espírito completamente só, intocável pelo pensamento, cessa de acumular. Assim, o ato que esvazia o espírito está sempre no presente. Para um espírito solitário, o futuro, que pertence ao passado, desaparece. A meditação é um movimento, não uma conclusão, não um objetivo a perseguir.”

p. 244-7
Foram Graf Dürkheim e Jacques Breton que me iniciaram na prática da postura sentada, silenciosa. Essa postura se harmonizava bem com a oração do coração e me ajudava a não perder “o centro” entre os diferentes grupos mais ou menos espirituais que eu encontrava. Fiquei feliz de poder verificar essa prática junto a um mestre japonês autêntico, Maezumi Roshi.
Seu ensinamento era, antes de tudo, sua postura, o peso de uma presença completamente unida, ali. “Eu me assento para me assentar”, dizia ele. “Quem fala de meditação?”
Não pode haver nenhuma significação no simples fato de estar. Mas o zen considera que o fato de estar é a sua própria significação:
“Que maravilha, que mistério
respiro, bebo um pouco d´água.”
O que me dizia Maezumi Roshi não me parecia longe do que eu havia escutado junto a Krishnamurti: “O zen em sua essência é a arte de ver claro em sua própria natureza.” Sentar-se imóvel durante longas horas parecia-lhe o método mais adequado para ver claro. A água lamacenta, quando não é mais agitada, torna-se límpida, as nuvens se dissolvem, o céu puro aparece. Foi perto dele que eu comecei a traduzir o Hakuim Zenji Zazen Wasan:
A água corre no gelo.
Segundo sua natureza original,
todos os homens são budas.
Fora da água, onde está o gelo?
Fora dos seres sensíveis,
onde encontraremos budas?
Como um homem mergulhado no rio
que morre de sede,
esquecemo-nos quanto a Verdade está próxima.
Partimos para longe à sua procura, ai de nós!
Somos ricos herdeiros
que vagueiam entre os mendigos.

Perdidos nas trevas da ignorância
enterramo-nos a cada dia
um pouco mais no Obscuro;
isso é porque nos transmigramos
através de seis mundos.
Quando seremos libertados do nascimento e da morte?

Faltam-nos palavras para fazermos um justo elogio
da prática de zazen no Mahayana.
Ele desenvolve as mais nobres energias
da compaixão, da atitude correta,
da invocação do nome de Buda, da aceitação,
da ascese e de outras ações favoráveis.

Tudo o que nós fazemos
é a simples afirmação do “Aquilo que É”.
Aqueles que têm experiência do Aquilo,
têm apenas o tempo de sentar-se,
e todo o seu mau carma se apaga.
Eles não se perdem mais nos becos.
A terra pura está sob seus passos.

Se escutamos essa Verdade,
por uma vez que seja,
com um coração pleno de reverência,
e se a fizermos nossa com alegria,
seremos benditos infinitamente.

Se estamos interiormente atentos,
atestando a não-existência de uma natureza própria do ego,
estamos além dos vãos discursos.
A Unidade da causa e do efeito nos aparece.
O caminho da não-dualidade e da não-multiplicidade
abre-se diante de nós.

Ver a forma do sem-forma como forma,
avançar, recuar,
estamos sempre onde estamos.
Ver o pensamento do não-pensamento como pensamento,
Cantar, dançar,
Somos o Canto do Dharma.

Sem limites, o céu puro do Samadhi!
Transparência, a quádrupla Sabedoria!
Luar – plena luz!
Existe esse Instante, o que mais?
Eternamente, a Verdade se desdobra dela mesma.
Aqui é a Terra puro do Lótus,
este corpo é o corpo do Buda.

p. 249
A sabedoria não é querer a todo o preço não sofrer mais, é aceitar o sofrimento e a morte como elementos inevitáveis da vida humana (inevitáveis e transitórios).
Diante das dificuldades que eu ainda tinha para aceitar esta palavra “aceitação”, Maezumi Roshi dizia-me sorrindo: “A sabedoria é aceitar não ser o santo ou o sábio que se gostaria de ser. É aceitar o fracasso que se é.”
E continuou, citando-me Alan Watts que, aliás, não apreciava muito: “A iluminção é, inicialmente, a liberdade de ser o fracasso que se é. É preciso começarmos pelo que somos, mas todo inteiro, sem reservas e sem pesares. Fora dessa aceitação, toda tentativa de disciplina moral ou espiritual permanece um combate estéril de um espírito dividido e de má fé…”

p. 267
Somos poeira de estrelas, o lugar onde o universo toma consciência de si mesmo, se ajoelha e reza…

p. 277
Este trabalho no nível do coração profundo é o que se chama, na tradição cristã, metanoia ou conversão (…). Essa reviravolta de todo o ser e a maturação psicoafetiva que o acompanha realizam-se quando o homem pára de idolatrar a si mesmo, quando o “pequeno eu” se transforma na presença do Outro que o habita, para tornar-se capacidade de acolhida, amor ontológico a todos os seres.

p. 316
Para onde eu quero ir, não existe caminho.
Onde eu quero entrar, não existe porta.
Lá está aquele que é desde sempre, que ninguém me pode dar, que ninguém me pode tomar.
Não há nada a guardar, nada a defender:
É o galo, é a aurora
ou é a noite que é a chave do dia?
Onde começa Deus, onde acaba o homem
em um olhar de criança?

 

p. 317
Não se pode chamar verdadeiramente a luz senão quando, por princípio e verdadeiramente, se aceitou a noite.

p. 317
“Na morte, a máscara cairá do rosto do homem e o véu, do rosto de Deus” (Hugo).
Não esperar esse momento último e observar que é no próprio movimento de se retirar a máscara que o véu é afastado.

p. 318
O amor humano é, sem dúvida, uma das melhores vias de acesso a um Deus que não seja um ídolo, isto é, um Deus que não se possui, como não se possui o amor.
Deus não é o que o homem faz de sua mais alta solidão, é o que ele faz de seu mais belo encontro.

p. 319
Por que preocupar-se tanto com o seu futuro e estar tão pouco preocupado com a sua eternidade?

p. 321
Nem um itinerário nem uma errância, a vida interior é uma “itinerância”. O caminho não é traçado por antecipação, nossos pontos de referência, nossos marcos, nossas balizas frequentemente se apagam ou são levados pelo vento. Entretanto o caminho tem um sentido, uma orientação. No deserto, mais importante que um mapa, é uma bússola, para não perder o norte. Qualquer que seja o deserto a atravessar, você nunca estará completamente perdido se, neste deserto, você tem um coração.

p. 322-9
“YHWH disse a Abraão: ‘Vai para ti mesmo, deixa teu país, teus parentes, a casa de teu pai, vai para o lugar que eu te indicarei’” (Gn 12, 1).
Ir para o deserto é, inicialmente, partir em direção a si mesmo. É para isso que somos convidados. Para conhecer-se verdadeiramente a si mesmo, trata-se de deixar um certo número de memórias com as quais confundimos nossa identidade. Deixar o conhecido, o reconhecido que cremos ser, pelo desconhecido, o desprezado que somos. Inútil aqui detalhar os múltiplos apegos ou referências, todos legítimos, à casa, ao pai, à mãe, que nos evitam o face a face com o nosso nada. Fílon de Alexandria diz que deixar a casa de seu pai é deixar a linguagem, quer dizer, as referências que nos estruturam. Quando a consciência não tem mais uma palavra, nem uma imagem, nem um conceito para dizer a si mesmo, ela entra em um espaço infinito que simboliza bem o espaço sem limites do deserto.
Mas esta marcha através do silêncio, em direção ao infinito e ao sem-limite de si mesmo, não é tentativa de aniquilamento. Ela faz as pazes com o que o homem tem de eterno, este eterno que está nele mesmo e que as ocupações e preocupações do tempo lhe escondem.
Para Abraão, este eterno é um Outro, uma Alteridade que o fundamenta. “Conhecer-se a si mesmo é descobrir-se conhecido”, dirá mais tarde o Evangelho de São Tomé. Na imensidão e imobilidade do deserto, sabemos que não nos criamos a nós mesmos, sabemos que a menor das nossas respirações vem de outro lugar.
Conhecer-se a si mesmo é conhecer o Vivente que nos concede ser o que somos e conhecer que este Vivente está sempre pronto a nos retirar, como a nos oferecer, o sopro de nossas narinas.
Há pretensões e auto-suficiências que não resistem a um real quarto de hora de meditação no deserto.
Abraão e seus patriarcas gostavam, ao cair da noite, de sentar-se diretamente na terra nua, olhando as estrelas, bendizendo seu cansaço, sorrindo de seus desejos irrisórios. Acontecia-lhes de estar ali, terrivelmente ali! A ponto de não fazerem senão um com “aquele que está ali, presente”, Ya-hou, Oh! Ele! o Deus de Abraão, de Isaac e de Jacó, Presença ardente e silenciosa, Presença do Ser, Presença do Outro, que nos apaga e fundamenta.
Pode-se ir ao deserto para conhecer-se a si mesmo ou para encontrar o Outro, que nos fundamenta. Pode-se ir lá também para fugir, fugir do mundo, fugir da injustiça. Pode-se ir lá porque uma pergunta nos atormenta e não conheceremos o repouso antes de termos recebido a resposta.
A primeira vez que Moisés foi ao deserto, foi para fugir, fugir do Estado totalitário que ele acabara de descobrir e que mantinha seus irmãos na escravidão. À violência ele tinha respondido pela violência, matando um guarda que maltratava um hebreu sem defesa… A história de Moisés nos lembra a de um outro príncipe, também educado na corte, ao abrigo de todos os sofrimentos e que um dia descobriu a dor e a morte: o príncipe Sidarta Gautama. Ele também, depois desse encontro com o sofrimento, partiu para o deserto, com esta pergunta que era sua, que foi a de Moisés e que é, sempre, a nossa: Por que o sofrimento, por que o mal, por que a injustiça?
O que Moisés descobre no deserto é que, antes de se colocar a questão do mal, é preciso colocar-se a questão da existência. Antes de se perguntar por que há sofrimento no mundo, é preciso perguntar por que há um mundo. “Por que, em vez de nada, há alguma coisa?”
A experiência de Moisés vai se juntar àquela de Abraão. No infinito do deserto, ele vai descobrir a vaidade e a fragilidade do universo. O que é o homem, o que é o mundo? “Uma gota de orvalho na borda de um cântaro”, dirá mais tarde o profeta Isaías.
Como a gota de orvalho ao sol, ao mesmo tempo que seu eu, desaparecem as perguntas de Moisés. Ele tornou-se o mais humilde dos homens, ele fez-se húmus, Adamah, quer dizer, “terroso”, “argiloso”, terra nua sob o céu vertical, ele se ocupa de suas ovelhas, os negócios do Egito não têm nada a ver com ele.
(…) Mas, no deserto, Moisés esqueceu a linguagem, sua palavra tornou-se curta e hesitante. O desejo de ordenar e de conduzir deixou-o, o convívio com seus abismos levou-o a apagar-se.
(…) “Quem sou eu?” é uma boa pergunta a colocar-se no deserto. A resposta, após alguns dias de sede, nunca se faz esperar: “Nada!”
“Eu não sou nada.” Moisés viveu mais de uma vez essa resposta, mas agora ele descobre que no coração desse nada, um nada espinhoso, vive uma força, uma Presença, um “Eu estou contigo”. E é este um dos grandes presentes do deserto: descobrir que nunca se está menos só do que quando se está só. Além do eu há um puro “Eu Sou”. Onde cedem nossas forças, revela-se uma nova energia. Onde pára nossa compreensão, nasce uma outra Consciência.
Descobrir que há um Eu maior que eu, mais amoroso, mais inteligente que eu, é o que nos dá a graça, como a Moisés, de voltar à cidade e convidar os amigos para irem ao deserto…
(…)
O Ser do qual Moisés fala não é visível, não é palpável, é sem medida, a alegria para ele é de sentir sua Presença “no silêncio de um sopro sutil” (veja Elias). A festa para ele é de manter-se imóvel sob o céu estrelado. Uma festa simples demais talvez, uma alegria sem objeto, alegria pura que nenhuma ausência pode embaçar.
(…) Porque o deserto não é um jardim, mas um cadinho onde nossa sarça de humanidade passa pelo fogo para se despertar ao Ser essencial, se ele é o lugar das revoltas e das saudades, se lá se lamentam seus hábitos, se lá se tem medo do desconhecido, se ele aguça nossa fome de conhecimento e de ternura… o deserto também é um jardim para aquele que cava no instante, a cada passo, o seu poço… Ele conhecerá em seus lábios ressecados o gosto sempre inesperado da Água viva…

p. 332-3
Por que provar tanto amor e só estar bem na solidão?
Parece que a maturidade é proporcional ao número de paradoxos e de ambiguidade que se podem suportar. Quarenta anos é uma idade em que, de acordo com Jung, pode-se pretender entrar em um processo de individuação (realizar a unidade ego-Self ou a transparência entre seu ser existencial e seu ser essencial). De acordo com Tauler, é a idade onde se pode, seriamente, considerar a vida mística.
(…)
Para mim, o absurdo e a graça não estão mais separados. Dizer que “tudo é absurdo” ou dizer que “tudo é graça” é igualmente mentir ou trapacear… Como morrer e ressuscitar, o absurdo e a graça são os dois lados de uma mesma moeda.
(…)
Não mais separar esta alegria e esta dor.
Não mais vazar os olhos da história (já que tudo isso foi vivido no mesmo instante).
Viver até o fim os paradoxos, por vezes insustentáveis, da encarnação.
Nossa vida inseparável da morte não pode ser senão paradoxal… Então, amar a noite e esperar o dia; amar o dia e deixar vir a noite… sem esquecer este Outro espaço ou este Outro tempo que os contém: a Estrela infinitamente próxima e sempre inacessível, que nos cega e nos ilumina, a fim de que, cegos ou na luz, nos descubramos livres e guiados…

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