Parte do coletivo Soylocoporti

Olhares de (apenas) uma latino-americana

quinta-feira, 7 de agosto de 2008

Itinerário Donde Miras – Sol, Mar e Natureza

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Depois de Peruíbe, o planejado era cruzar a mata atlântica novamente, desta vez na reserva da Juréia. Para atravessar a reserva é necessária uma autorização, que infelizmente não nos foi concedida. O itinerário teve que ser mudado – a Barra do Una foi cortada do trajeto. A solução encontrada foi alugar uma van para ir até Barra do Ribeira, no município de Iguape, sendo que a distância era muito grande para ser percorrida a pé sem estrapolar o cronograma.

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Na van de Peruíbe para Barra do Ribeira.

Lua cheia. Rio e mar. Calor no inverno, fogueira na areia. Momento de sentir, cheirar. O sol se pôs e a lua nasceu vermelha no mar. O concreto do cotidiano urbano da caminhada até então cedeu para a magia da natureza na Barra do Ribeira. Mais um sarau e mais uma oficina – teatro, com Gil Marçal – desta vez, à beira-mar. Novamente, hora de partir.

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Binho cuidando da fogueira em Barra do Ribeira.

O percurso da Barra do Ribeira até o centro de Iguape é lindo – balsa, estrada de terra, asfalto sinuoso rodeado por mata, bica na montanha. Pôr-do-sol no mirante na entrada da cidade. O alojamento era uma estação do Ibama. A mata, o jardim do quintal. Os pingüins, nossos vizinhos de quarto. Eles foram encontrados na praia por estagiários do Ibama, exaustos da sua viagem desde o sul da Argentina até o litoral paulista. Eles vêm em busca de alimento e calor, por isso os estagiários os colocam dentro de uma caixa de papelão junto com garrafas de água quente – por mais absurdo que isso pareça. Na caminhada de Itanhaém a Peruíbe, havíamos encontrado um pingüim morto na praia. Mais uma vez eles faziam parte de nossa viagem.

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Pingüim morto em Peruíbe.

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Estação do Ibama em Iguape.

Em Iguape, saí com a Bicicloteca pela primeira vez, junto com outros Donde Miras. Pude percorrer essa linda cidade histórica doando e arrecadando livros, batendo de porta em porta e conhecendo de perto a população local. Pessoas sem medo de conversar com o outro, longe da paranóia da metrópole, da cultura da violência – crianças, poetas, escritores, vovós, comerciantes, operários. Pessoas que não temem outras pessoas.

O sarau em Iguape foi marcante. Participaram o grupo de percursão da cidade, formado por crianças, a companhia kiwi de teatro, que veio de São Paulo especialmente para essa noite, e poetas – gente se expressando, independente de títulos artísticos. O filme Leonel pé-de-vento de Jair Giacomini foi exibido, como em outros saraus, e mais uma vez encantou o público. No final uma linda roda, ritual sempre presente nesta caminhada, uniu todos os presentes, envolvidos com os cantos de Lívia e a energia do círculo. E a festa continuou na pastelaria dos taiwaneses – que diabos será uma porção de guioza?

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Lívia na bicicloteca em Vila de Pedrinhas.

De Iguape atravessamos a ponte até o centro de Ilha Comprida. Mais um sarau, mais um companheiro – o colombiano Mono, que seguiu caminhada conosco até Vila de Pedrinhas e nos passou um pouco do seu vasto conhecimento sobre nossa América Latina. “A revolução latino-americana só acontecerá quando trocarem as armas pelas canetas”, disse o ex-guerrilheiro Mono, que atualmente trabalha para o governo venezuelano.

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Comoção durante a fala de Mono – Mucho, Joana, Kátia e Marivone.

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Mono sendo abraçado por Marivone.

O centro de Ilha Comprida não é nada do que se espera quando se vai a uma ilha – muitos carros e concreto, poucas árvores. Já Pedrinhas, povoado de Ilha Comprida, é um paraíso. Estrada de terra, vegetação abundante, pássaros e estrelas cadentes. Muita paz e, pela primeira vez na caminhada, chuva. Um viajante chegou de bicicleta desde Curitiba para nos encontrar – Thiago, com seus malabares de fogo. De São Paulo veio Allan da Rosa, com sua voz forte e seu olhar marcante, e coordenou uma oficina de literatura.

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Crepúsculo em Vila de Pedrinhas.

No sarau, ao contrário do que acontece nas grandes cidades, a vila toda veio participar. Duas meninas conduziram a roda final com “tchu tchu ê, tchu tchu á”, um momento mágico em que todos voltaram a ser crianças e se permitiram brincar. Três músicos de São Paulo – Erik, Hugo e Douglas – casualmente se juntaram a nós em Pedrinhas, e seguimos até Cananéia, destino final de nossa caminhada.

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Vagnão, Allan, Hugo e Erik fazendo um som.

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Vanessa, nossa amiguinha de Pedrinhas, com a bandeira Donde Miras.

O trecho São Paulo – Cananéia da Expedição Donde Miras chegou ao fim em vinte e sete de julho. Hora da despedida. Foram vinte e três dias de muitos passos, aprendizado, compreensão e revolução – nos olhos, na consciência e no coração. A última roda, a última fogueira, o último sarau. Por enquanto. Novos projetos brotam e a vontade de seguir desbravando a América Latina e a nós mesmos cresce mais e mais. Avante, caminhantes! A jornada mal começou.

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Thiago no sarau em Cananéia.

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Hugo, Douglas, Thiago e Erik tocando a música que comporam para a expedição.

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