Parte do coletivo Soylocoporti
olhares sobre o cotidiano da América Latina

Sítio Arco-íris. O pôr-do-sol daqui é lindo - nuvens de algodão doce de Rondônia amareladas e rosadas. O fiel súdito vento anuncia a chuva, dando uma noção prévia do seu poder, trazendo consigo nuvens densas e promessas de vida. Ela, a Majestade, vem pelo lago - do outro lado as árvores já estão envoltas numa espécie de névoa aquática. Quando todos estão preparados para recebê-la, a chuva chega - momento de paz e quietude.
Porto Velho estava um saco. A paradoxal cidade amazônica onde não há árvores. Muito trabalho, pouco dinheiro. No auge do tédio, escrevi um poema-desabafo:
O tédio me envolve
com paredes de azulejos brancos,
conversa de novela vindo da sala de um hotel barato,
vestígio de goteira,
cheiro de mofo.
O tédio amarra meus pés e mãos na cama,
hipnotiza minha cabeça para achar tudo um saco.
Porto velho, novo, morto e eterno.
Eterno tédio que se faz vapor,
calor, gotas de suor.
Calypso infernal amolece minhas pernas,
aborta a sede do novo,
me tranca num quarto com as mãos nos ouvidos.
O tédio me tece um ninho, me faz cafuné,
minha musa, meu carrasco,
meu bicho de pé.
Até que um dia, enquanto trabalhávamos, um menino veio falar conosco. O nome dele era Alan, disse que vivia num sítio e que seríamos muito bem-vindos lá. A história é a seguinte: Jackson, um cara que já foi artesão-viajante e percorreu muita estrada, sempre buscou algo, estudou várias religiões e linhas esotéricas, até que decidiu morar num sítio, primeiramente sozinho.
Depois de uns anos sua mulher, Cláudia, e seus filhos, que viviam na cidade, também foram para lá. Eles se sustentam com a cerâmica e os tapetes que produzem, e recebem quem quer que seja, é só contribuir com comida, nos afazeres e respeitar a harmonia do lugar. Também vivem lá o acreano Leandro, a argentina Veronica e Valéria, irmã de Cláudia. Há quatro ou cinco dias Valéria deu à luz a uma criança linda, o Ba’aaruda, que trouxe mais alegria e paz ao sítio.
Nasce Ba’aaruda
O Santo Daime
O pessoal do sítio freqüenta uma igreja do Santo Daime. Trata-se de uma corrente cristã que utiliza em seus rituais uma bebida elaborada a partir de plantas que altera a consciência e que, segundo Jackson, desbloqueia um mecanismo de censura do nosso cérebro. Essa bebida é conhecida no Peru e na Bolívia como ayahuasca, parte de uma tradição indígena, usada até hoje em rituais de auto-conhecimento e purificação física e espiritual. A bebida foi legalizada no Brasil depois de estudos comprovando que ela não oferece riscos à saúde.
“Sabe aquela sujeirinha debaixo do tapete, que só você sabe que tá lá? Vem tudo à tona”, me disse um maluco brasileiro no Peru sobre a experiência com o ayahuasca. Jackson e Alan dizem que o Daime aponta um caminho, faz compreender os processos que ocorrem na vida e leva além desse mundo físico espacial-temporal que conhecemos.
Ao contrário do que algumas pessoas podem pensar, a igreja do Santo Daime é bem careta - eles usam farda, uma roupa cerimonial que mais parece roupa social, e os homens têm que estar com cabelo cortado e barba feita. Nas cerimônias eles cantam os hinos, que falam de Deus, do Daime, do Mestre Irineu - o fundador do Santo Daime, entre outras coisas.
O Daime é a mistura de duas plantas, controladas desde o plantio até a preparação. Os fardados elaboram a bebida na cerimônia do feitio.
Retiro espiritual

Valéria nos últimos dias de gravidez
Aqui no sítio encontrei sossego, pessoas tranqüilas que trilham um caminho de aperfeiçoamento e ar puro. É um lugar lindo, repleto de árvores, às margens de um lago. O único infortúnio foi o desenvolvimento de uma doença no meu pé. Uma bactéria, o estafilocócus, se instalou em feridas de picada de insetos, creio que no fétido hotel em Porto Velho. Thiago também está infectado, mas em menor proporção. Aprendi a usar a necessidade de não poder me movimentar muito a meu favor aproveitando para ler, pensar e aprender bastante.
Depois de quinze dias tentando tratar minhas feridas de forma natural, o que exigia toda uma rotina diária de cuidados, me rendi à alopatia: tomei um “pics” de benzetacil no bumbum. Agora é esperar melhorar e seguir caminho - a estrada chama.
Preso à minha classe e a algumas roupas,
vou de branco pela rua cinzenta.
Melancolias, mercadorias espreitam-me.
Devo seguir até o enjôo?
Posso, sem armas, revoltar-me?
Olhos sujos no relógio da torre:
não, o tempo não chegou de completa justiça.
O tempo é ainda de fezes, maus poemas, alucinações e espera.
O tempo pobre, o poeta pobre
fundem-se no mesmo impasse.
Em vão me tento explicar, os muros são surdos.
Sob a pele das palavras há cifras e códigos.
O sol consola os doentes e não os renova.
As coisas. Que tristes são as coisas, consideradas sem ênfase.
Uma flor nasceu na rua!
Vomitar esse tédio sobre a cidade.
Quarenta anos e nenhum problema
resolvido, sequer colocado.
Nenhuma carta escrita nem recebida.
Todos os homens voltam para casa.
Estão menos livres mas levam jornais
e soletram o mundo, sabendo que o perdem.
Crimes da terra, como perdoá-los?
Tomei parte em muitos, outros escondi.
Alguns achei belos, foram publicados.
Crimes suaves, que ajudam a viver.
Ração diária de erro, distribuída em casa.
Os ferozes padeiros do mal.
Os ferozes leiteiros do mal.
Pôr fogo em tudo, inclusive em mim.
Ao menino de 1918 chamavam anarquista.
Porém meu ódio é o melhor de mim.
Com ele me salvo
e dou a poucos uma esperança mínima.
Passem de longe, bondes, ônibus, rio de aço do tráfego.
Uma flor ainda desbotada
Ilude a polícia, rompe o asfalto.
Façam completo silêncio, paralisem os negócios
garanto que uma flor nasceu.
Sua cor não se percebe.
Suas pétalas não se abrem.
Seu nome não está nos livros.
É feia. Mas é realmente uma flor.
Sento-me no chão da capital do país às cinco horas da tarde
e lentamente passo a mão nessa forma insegura.
Do lado das montanhas, nuvens maciças avolumam-se.
Pequenos pontos brancos movem-se no mar, galinhas em pânico.
É feia. Mas é uma flor. Furou o asfalto, o tédio, o nojo e o ódio.
Carlos Drummond de Andrade
Sempre sinto que estou atrasada,
mas agem como se estivesse correndo demais.
Atrasada pra quê? Correndo pra onde?
Me engano fazendo de conta que controle meu destino,
que brinca comigo
- ao menos me faz acreditar que me gosta,
que zela por mim.
Sabe aquela coisa que não dá para explicar?
É bem isso.
Sou senhora, escrava e rebelde.
Me imponho, mas ignoro o que há dentro de mim.
E daí? E você? Sabe quem é?
Vou dançando. Cantando.
Se não sei quem sou, me invento.
Há coisas que ainda não é hora de abrir.
Me vou. Vamos?
O que será que há além daqui?
Abri o portão
O coração rangeu.
Rangeu
dentro de mim
e eu sorri
como um lavrador sorri
com seu rosto de terra
e a boca rasgada de riso
diante da terra lavrada.
Abri o portão partido. Partiu-me
em dois horizontes.
Em dois gomos de um fruto fugaz.
Igual e desigual.
Abri o portão da minha casa.
E a ferrugem (ou seria orvalho?)
desatou o nó da palavra
pendurada por um fio
no fundo da garganta.
Abri o portão da casa de minha infância.
Mapa dobrado dentro de mim
desdobrado,
mapa mudo
onde afundei
em areia movediça
palavra por palavra.
Abri o portão da casa.
A boca do jardim, a travessia
do mundo.
O tempo fendeu
dentro e fora de onde vim
e espatifou as asas de papel
que vesti em mim.
Manchei roupa, amor e ávidos tatos
em polpa de fruto proibido.
Puiu-se a pele nova na vivência,
no corpo dividido.
Entre sonhos, frêmitos, tristuras
e o real vivido.
Pois ainda que sonhe o tempo todo
ter o tempo de encontrar a verdade
em minhas mãos,
nada sei de mim
além de fotografias estampadas no jornal.
E pouca coisa mais saberei
ainda que acredite o contrário a cada instante
e que meu campo de batalha comigo mesmo
dure a vida inteira deste sonho
como dura o sonho a vida inteira
e, muitas vezes, se projete
além do horizonte aberto
do portão,
pouco mais ou nada mais
saberei.
A caixa vazia
de um velho relógio colonial
desliza sobre as águas do rio Itajaí-Açu
entre a lua cheia partida
e a nuvem veloz.
E todas estas palavras
e outras tantas nem escritas nem ditas
(esfacelada luz de uma estrela sem face nem foice)
fazem parte da minha biografia transparente.
Nada menos
nada mais.
Lindolf Bell, poeta catarinense pouco conhecido fora de suas terras, apesar de sua densa obra.
Feijão, farofa, água de coco. Voltar a falar e ouvir português. O jeito aberto dos brasileiros. Deixar para trás o castelhano, a riquíssima cultura andina, a deliciosa e variada culinária peruana e o desafio de estar em outro país. Mas a expectativa de conhecer um pouco do Brasil que não conheço, do qual sempre ouvi falar, do qual dizem que eu faço parte; essa exploração da própria pátria me deixou ansiosa por chegar.
Peru tropical
De Cusco partimos para Puerto Maldonado, já na floresta amazônica. Apesar de ser a capital da região, a cidade é pequena e tranquila. Muito calor, sol, frutas e sucos. As pessoas pareciam mais receptivas, quentes, assim como o clima. Ficamos na casa de César - ele nos ofereceu abrigo sem nem nos conhecer direito. Estava vendendo artesanato no centro da cidade, quando esse rapaz veio falar comigo. Disse que não tinha dinheiro e perguntou se podia só ficar olhando. À minha afirmativa, ele foi puxando assunto e, ao saber que eu era brasileira, começou a falar de futebol. Perguntei se ele sabia onde poderíamos acampar. “Não tem problema se for num lugar simples?”, ele contestou. Claro que não tinha. A casa, assim como ele, era realmente muito simples - estrutura de madeira e banheiro de fossa no quintal. Nem precisamos armar acampamento, ele nos abrigou dentro de sua casa. Ficamos lá mais ou menos uma semana.
Encontramos Kae e Gina, artesãos peruanos que já havíamos cruzado em Arequipa. No último dia em Puerto Maldonado, todos vendemos surpreendentemente bem. “Quando chega uma onda de boa sorte, outra de má está vindo”, alertou Kae. O pior é que ele estava certo.
Chegamos até a última cidade peruana antes do Brasil pedindo carona. Muita selva, estrada de terra, cheiro de mata. E mosquitos, muitos mosquitos. A única maneira de ir a Assis Brasil, município acreano na divisa com o Peru, é de táxi. Ao chegar, já pudemos perceber nitidamente a diferença: os traços indígenas já misturados com brancos e negros, pessoas mais altas, ruas pavimentadas e a cidade mais arrumadinha. Comemos num restaurante com buffet, coisa que não lembro de ter visto no Peru - arroz, feijão, farinha, macarrão e salada. Que delícia. Bem mais fácil negociar um prato sem carne em português.
Acre, deveras acre

Esperamos carona três dias num posto na saída de Rio Branco
No mesmo dia tomamos um ônibus para Rio Branco. Percebemos que do lado brasileiro a selva foi trocada pelo asfalto. Tudo devastado, transformado em pasto. No lugar de árvores, gado. E chegou a tal da onda de má sorte. Só conseguíamos dinheiro para comer e pagar o hotel. Rio Branco é bem ajeitada, muito diferente do que eu poderia imaginar, mas sem nenhum grande atrativo. Na mata o interessante não é a cidade - é a mata.
Conhecemos os malucos e micróbios. Nos países hermanos que percorremos, quem trabalha com artesanato é artesão; quando é um viajante, provoca interesse nas pessoas com sua aura lúdica e suas longínquas histórias. No Brasil não existe artesão: é maluco, micróbio ou hippie, e geralmente desperta cautela ou desprezo. A coisa aqui é bem mais marginalizada.
O micróbio vai com a roupa do corpo aonde for, dorme em qualquer lugar, fala o que quer na hora que quer. “Micróbio não tem medo de nada”, canta Ventania com sua voz estragada. Até agora não tivemos problema com ninguém, a convivência tem sido boa. Mas acabamos nos distanciando, trabalhando mais isolados, buscando a tranquilidade.
Decidimos ir para Porto Velho. Encontramos Kae novamente em Rio Branco, ele estava sozinho e decidiu ir para a estrada pedir carona com a gente. Dormimos duas noites num posto na saída da cidade - nenhum caminhoneiro queria nos levar. Conseguimos carona até um povoado uns quilômetros mais para a frente. Tivemos que dormir lá, numa escola abandonada. Nossa janta: arroz com cebola e molho de tomate cozido na latinha com álcool. Era tudo que tínhamos. No dia seguinte decidimos nos separar: carona em três seria difícil, ainda mais que os motoristas dirigiam um olhar bastante desconfiado ao peruano. Engraçado que no país mais violento da região, os estrangeiros que levam a fama de ladrão.
Consegui convencer um caminhoneiro a levá-lo, apesar de que iria apenas uns quilômetros mais adiante. Acho que o azar estava com ele - eu e Thiago conseguimos uma carona de cerca de 200 km logo depois. Descemos em plena estrada, prontos para mais uma maratona de espera, mas a sorte parecia voltar: o primeiro carro que passou parou ao nosso sinal e nos levou até Porto Velho.
Texto escrito em 2007, parte do livro Viajeros.
sim, quero mais, muito mais,
e daí?
por isso me movo, rosno, mordo
- antes a ferida aberta que o ser estagnado
por isso canto e ouço
não tenho metas, retas
somente ideais, curvas e setas
não quero me embalar em papel celofane
- me cansam as exigências do mundo
(por onde passo distraída
enquanto observam vitrines)
eu quero a sorte de um amor tranquilo
com sabor de pera mordida
quero olhares entregues e mãos abertas
sonos pesados e passos leves
quero a terra livre e o diálogo franco
quero
quero
quero
Michele Torinelli
de Francisco Beltrão
Seminário da Jornada de Agroecologia aborda questão de gênero
“Resistência não significa resistir ao que é novo. Resistência é permanecer com aquilo que é do nosso bem-viver, que nos garante a liberdade de vida”. Foi assim que Luciana Piovezan, coordenadora nacional do Movimento das Mulheres Camponesas (MMC), iniciou o seminário de gênero, uma entre as mais de quarenta atividades realizadas sexta-feira (21) na 9 ª Jornada de Agroecologia.
A partir de exemplos históricos da resistência feminina – Juçara, indígena que sobreviveu ao massacre do povo guarani no Rio Grande do Sul em 1729, e Aqualtune, princesa e guerreira africana que foi vendida como escrava para o Brasil e participou da fundação do quilombo dos Palmares – a coordenadora fez um balanço do processo histórico do patriarcado e da repressão da mulher.
Luciana explicou que grande parte das mulheres é responsável pela manutenção do cotidiano, da segurança e da soberania alimentar dos lares, dando sustentação à vida produtiva da sociedade. “70% desse trabalho, não remunerado, passa pela mão das mulheres”, indica. Na época da fundação, ao discutir qual nome assumiria, o MMC concluiu que o alimento é o que conecta as mulheres desde o sul ao norte do país, seja na etapa de cultivo ou preparo. Percebeu-se assim a profunda relação feminina com a agricultura, o alimento e a manutenção da família. “Entretanto, o trabalho da mulher é invisibilizado”, alerta.
Experiência agroecológica
Manoela Pereira, integrante do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra e do Movimento dos Pequenos Agricultores, compartilhou sua experiência organizativa. “Há oito anos, mulheres da Via Campesina promovem um grande encontro no Dia Internacional da Mulher na região central do Paraná, de forma autônoma e itinerante”, conta Manoela.
Ela participa da Ceagro, escola de agroecologia e centro de desenvolvimento sustentável da região, onde mulheres atuam com plantas medicinais, produção agroecológica e comercialização de produtos. “Há necessidade de organizar cada vez mais os trabalhos e as iniciativas já presentes”, conclui.
Solidariedade e luta
A coordenadora do MMC apontou que a solidariedade, tão presente nas práticas femininas, é uma importante faceta do projeto de mudança social. “Ao sermos solidários, estamos indo contra um dos principais pilares do capitalismo: o individualismo”, acredita. De acordo com Luciana, o capitalismo não permite que a diversidade prevaleça – como ocorre nas práticas de monocultura – e gera a dominação, como a que se dá entre o homem e a mulher.
“Nós todos estarmos aqui em Francisco Beltrão, as mulheres estarem aqui, é um ato de resistência”, enfatizou Luciana. O MMC está articulado nacionalmente há cinco anos, e atua na construção de um projeto de agricultura camponesa ecológico, fundamentado na defesa da vida, na mudança das relações humanas e sociais e na conquista de direitos.
[...]
As mulheres organizadas
De fato representam perigo
Ainda mais quando o inimigo
É provocador e algoz
Por mais que seja feroz
Elas o esmagaram à mão.
Qual fúria de um furacão
Fizeram ouvir sua voz.
O que era gigante tombou
O que era valente não veio
O bicho era tão feio
Soltou bramidos de dor
E elas mostraram que o amor
À vida está acima de tudo
Mostraram elas pro mundo
O que se faz com o opressor!!!
Seu moço, eu nem sabia que sabia, de Isaura Isabel Conte
Poema inspirado na ocupação da Aracruz Celulose em 8 de março de 2006 – cerca de 2 mil mulheres da Via Campesina tomaram a fábrica com o objetivo de denunciar os estragos sociais e ambientais causados pelo monocultivo de eucaliptos.
Texto e imagens por Michele Torinelli
de Francisco Beltrão
Debate com Plínio de Arruda Sampaio e Letícia Silva abre o segundo dia da Jornada de Agroecologia

O primeiro painel da 9ª Jornada de Agroecologia, que acontece em Francisco Beltrão (PR), denuncia o modelo do agronegócio e apresenta a agroecologia como alternativa sustentável. Com o auditório lotado, Plínio de Arruda Sampaio, presidente da Associação Brasileira de Reforma Agrária (ABRA), indica logo ao que veio: explicar como o capital atua na agricultura. Já Letícia Silva, gerente de normatização e avaliação da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (ANVISA), apresentou um panorama do comércio de agrotóxicos no país.
O capitalismo é caracterizado pela propriedade privada e pela busca do lucro. Contudo, não necessariamente o que dá lucro é o que satisfaz as necessidades da sociedade. “A gente tem que entender como o capitalista pensa. A cabeça dele funciona assim: onde eu coloco meu dinheiro para obter mais capital?”, ilustra Sampaio.
Na agricultura, a lógica é a mesma. O objetivo é obter lucro, e o que mais rende para o agronegócio é a exportação. “Está dando mais lucro vender para fora”, resume o presidente da ABRA. A técnica utilizada é a monocultura, que segundo o painelista, não convive bem com a pequena propriedade. A agroecologia vem justamente contrapor essa concepção. Seu objetivo é produzir alimento de qualidade, respeitando o ambiente e o próximo.
Agronegócio: cultura de morte
“O capital na agricultura é muito perigoso – ele precisa ser controlado”, alerta Sampaio. Os dados são alarmantes. Seis empresas controlam 80% do mercado brasileiro de agrotóxicos, o maior mercado mundial do produto. Foram comercializados mais de 790 mil toneladas de agrotóxicos no país em 2009, de acordo com o relatório da ANVISA, considerando somente o peso dos componentes (sem os produtos aos quais são agregados). “Isso dá uma média de 3 kg por habitante”, esclarece Letícia Silva.
Segundo a gerente da ANVISA, o capital dessas empresas transnacionais é maior que o PIB da maioria dos países da ONU – só no Brasil elas obtiveram 6,8 bilhões de dólares em 2009. Comparando com dados de 2008, o país consumiu mais que o dobro de agrotóxicos no período. “O relatório acaba com a lenda de que a liberação dos trangênicos diminuiria o uso de agrotóxicos”, contesta Letícia.
Escoamento de veneno
Mais do que lucrar no Brasil, empresas como Monsanto, Syngenta e Bayer enviam para cá produtos que foram proibidos nos EUA e na Europa por motivo de saúde pública. Além disso, outros agrotóxicos que já não eram mais utilizados no Brasil voltaram à circulação, pois as pragas estão cada vez mais resistentes.

Letícia Silva, da Anvisa, durante sua fala. Ao lado, Plínio de Arruda Sampaio
Letícia conta que foi aprovado na União Européia o “direito à informação”, obrigando o agricultor que utiliza agrotóxicos a informar aos vizinhos a quantidade utilizada e respeitar a distância necessária para impedir a contaminação. Já no Brasil, não existe regulamentação semelhante.
Além de causar danos ao ser humano, os agrotóxicos são uma ameaça ao ecossistema. “O aquífero Guarani pode ser afetado e não há ninguém monitorando isso”, denuncia a gerente. “Podemos estar contaminando a maior reserva de água doce do mundo”, complementa.
Mudança de modelo
Ao final de sua fala, Letícia cobrou da sociedade civil que pressione o poder público , que diga “queremos que a ANVISA cuide de nossa saúde e não fique liberando veneno”. Em relação à propriedade da terra, Sampaio acredita em uma lei que restrinja o agronegócio. “É que nem um boi bravo; tem que cercar. Isso até agente poder acabar com ele”, provoca.
Os painelistas apontaram os dois principais pontos de uma renovação no campo: desconcentração da propriedade da terra, por meio de uma reforma agrária, e mudança no modo de cultivo, trocando a monocultura pela agroecologia. “Gente, precisamos da ajuda de vocês”, disse Letícia, convocando as 3 mil pessoas presentes.
“Hoje nós dependemos desse modelo. Mas num país socialista, o que vai valer é ter o povo alimentado e a natureza em equilíbrio”, acredita Sampaio. O objetivo, além da justiça entre os homens, é cultivar uma relação de integração com o meio. “A terra é nossa mãe. Dela nós viemos e para ela nós vamos voltar. A agroecologia é a sabedoria da vida”, acrescenta.
Veja mais sobre a Jornada de Agroecologia aqui

Ollantaytambo é uma cidadezinha ainda não tão parasitada pela exploração turística. Os moradores preservam a capacidade de ver os viajantes como pessoas, não somente como alvos de bolsos cheios. As ruas e muros mantêm as estruturas de pedra originais do período incaico e pré-incaico. As construções pré-incaicas eram feitas de pedra e barro, utilizado como rejunte. Já as incaicas utilizavam somente pedras. As ruínas rodeiam a cidade, e algumas podem ser visitadas de graça.
Tá, mas eu vou falar a verdade. Fomos ao celeiro incaico, no alto de uma montanha - onde não é preciso pagar entrada - e tentamos entrar sorrateiramente (mais uma vez, após o fracasso em Machu Picchu) na ruína principal da cidade. O preço era mais acessível que o de Machu Picchu, mas mesmo assim resolvemos nos lançar à sorte. Dessa vez, nada de trilhas secretas e escaladas de muro. Bastava pular um riachinho e ploft, lá se estava no sítio arqueológico. Fácil demais…
Visita guiada
O vigia percebeu que não havíamos chegado pela entrada, e nossas vestes de andarilhos nos denunciavam - brilhávamos em meio às tradicionais roupas bege dos turistas. E lá veio ele falar conosco. Thiago, que desenvolveu uma polida cara de pau durante a viagem, perguntou se não havia nenhuma maneira de resolver a situação e ofereceu vinte pesos ao sujeito. Ele não só aceitou como resolveu fazer o pagamento valer cada centavo: foi nos guiando pelas ruínas.

As construções incaicas impressionam pela inteligência e funcionalidade - entretanto, sempre com um toque de mistério. As pedras, algumas enormes, eram levadas ao alto das montanhas por um sistema de rolamento e rampas. Os incaicos as cosrtavam de maneira que encaixassem perfeitamente, sendo inclusive à prova de terremotos.
Chegamos ao surpreendente calendário solar. No solsístio de inverno, os raios de sol, que passam primeiramente pelo “perfil do Inca” talhado na outra montanha, batem perfeitamente na marca talhada no painel de pedra, onde também está representada a trilogia sagrada da cultura incaica - o condor, o puma e a serpente. O condor representa o mundo superior, a espiritualidade; o puma corresponde ao mundo terreno; a serpente simboliza o mundo subterrâneo, o lugar dos mortos. Tudo isso soubemos por meio das histórias de nosso dedicado guia.
No solsístio de inverno, data apontada pelo calendário solar, é comemorado o Inti Raymi, dia do Pai Sol. Esse dia representa o fim de um ciclo, que corresponde ao período das colheitas, e o início de outro, com a aproximação diária do Pai Sol, que retorna à Terra. É a principal festa do calendário incaico.

Na hora da despedida, o guia nos apresentou a tuna, a fruta do cacto. Bateu em duas delas com um pano, para derrubar seus microscópicos espinhos, e entregou-as a mim e a Thiago. Docinha e suculenta - irônico que venha de uma planta tão árida.
O equilíbrio entre o macro e o microcosmo

Há muitas histórias sobre o lugar, a origem de seu nome, a invasão espanhola, mas o que mais valeu à pena foi sentir um pouco de uma sociedade de valores e costumes tão diferentes dos nossos. O código de ética dos incaicos pode ser resumido em três princípios: não mentir, não roubar e não ser preguiçoso.
Não creio no idealismo embasbacado: há trechos conflituosos nas histórias daqueles tempos, repletos de autoritarismo, disputas e derramamento de sangue. Mas havia uma diferença primordial: o homem e a natureza eram tidos como um e a tecnologia não obstruía o equilibrío universal.
Texto escrito em 2007, parte do livro Viajeros.
Sarau do segundo trecho da Expedición Donde Miras, de São Paulo a Cananéia.
Poesia, música e debate sobre cultura e políticas culturais no município.
São Vicente, julho de 2008. Em preto e branco, película.






Veja mais sobre a Expedición Donde Miras - Caminhada Cultural da América Latina em http://expediciondondemiras.blogspot.com
Filho de pastor, criado para ser pastor, ele negou toda sua herança moral. Em meados do século XIX, Nietzsche abriu mão do comodismo e foi o mais fundo que conseguiu na busca da compreensão humana.

Assim Falou Zaratustra é o primeiro livro que leio deste filósofo. Ainda estou na metade de suas páginas, mas suas reflexões têm me tocado intensamente. A obra trata dos ensinamentos deste personagem, que após anos e anos lapidando sua conscência e seus sentidos em companhia da natureza, percebe que sua sabedoria não pode se saciar sozinha. Seu cálice deveria esvaziar-se para novamente poder ser preenchido.
No trecho abaixo, Zaratustra fala ao povo de um vilarejo chamado Vaca Malhada. Ouso insinuar que poderá ser melhor compreendido por aqueles que se dedicam de coração a pensar e praticar conscientemente a evolução humana. Ou, espero, possa despertar fagulhas nos corações embrutecidos.
Das três transformações
“Três transformações do espiríto vos menciono: como o espírito se converte em camelo, e o camelo em leão, e o leão, finalmente, em criança.
Há muitas coisas pesadas para o espírito, para o espírito forte e de carga, respeitoso. A força desse espírito clama por coisas pesadas.
O que há de mais pesado? - pergunta o espírito de carga. E ajoelha-se feito camelo e quer que o carreguem bem. Que há de mais pesado, heróis? - pergunta o espírito de carga - para que eu o deite sobre mim, e a minha força se recreie?
Não será rebaixarmo-nos para o nosso orgulho padecer? Deixar brilhar a nossa loucura para zombarmos da nossa sabedoria?
Ou será separarmo-nos da nossa causa quando ela festeja a sua vitória? Escalar altos montes para tentar o que nos tenta?
Ou será sustentarmo-nos com bolotas e erva do conhecimento e sofrer fome na alma por causa da verdade?
Ou será estarmos enfermos e despedir a consoladores e travar amizade com surdos, que nunca ouvem o que queremos?
Ou será nos afundar em água suja quando é a água da verdade, e não afastar de nós as frias rãs e os quentes sapos?
Ou será amar os que nos desprezam e estender a mão ao fantasma quando nos quer assustar?
O espírito de carga sobrecarrega-se de todas estas coisas pesadíssimas; e à semelhança do camelo que corre carregado pelo deserto, assim ele corre pelo seu deserto.
No deserto mais solitário, porém, se efetua a segunda transformação: o espírito torna-se leão; quer conquistar a liberdade e ser senhor no seu próprio deserto.
Procura então o seu último senhor, quer ser seu senhor, quer ser seu inimigo e de seu último deus; quer lutar pela vitória com o grande dragão.
Qual é o dragão a que o espírito já não que chamar Deus, nem senhor?
‘Tu deves’, assim se chama o grande dragão; mas o espírito do leão diz: ‘Eu quero’.
O ‘tu deves’ está postado no seu caminho, como animal escamoso de áureo fulgor; e em cada uma das suas escamas brilha em douradas letras: ‘Tu deves!’
Valores milenários cintilam nessas escamas, e o mais poderoso de todos os dragões fala assim:
‘Todos os valores das coisas brilham em mim.
Todos os valores foram já criados, e eu sou todos os valores criados. Para o futuro não deve existir o eu quero!’ Assim falou o dragão.
Meus irmãos, que falta faz o leão no espírito? Não será suficiente a besta de carga, que abdica e venera?
Criar valores novos é coisa que o leão ainda não pode; mas criar uma liberdade para a nova criação, isso pode o poder do leão.
Para criar a liberdade e um santo NÃO, mesmo perante o dever; para isso, meus irmãos, é preciso o leão.
Conquistar o direito de criar novos valores é a mais terrível apropriação aos olhos de um espírito de carga e respeitoso. Para ele isto é uma verdadeira rapina e próprio de um animal rapace.
Como o mais santo amou em seu tempo o ‘tu deves’, e agora tem de ver a ilusão e arbitrariedade até no mais santo, a fim de conquistar a liberdade à custa de seu amor. É preciso um leão para esse feito…
Dizei-me, porém, irmãos: que poderá a criança fazer que não haja podido fazer o leão? Para que será preciso que o altivo leão se converta em criança?
A criança é a inocência, e o esquecimento, um novo começar, um brinquedo, uma roda que gira por si mesma, um primeiro movimento, uma santa afirmação.
Sim; para o jogo da criação, meus irmãos, é necessário uma santa afirmação; o espírito quer agora a sua vontade, o que perdeu o mundo quer alcançar o seu mundo.
Três transformações do espírito vos mencionei: como o espírito se converteu em camelo, e o camelo em leão, e o leão, finalmente, em criança.”
Assim falou Zaratustra.
Quase uma raridade hoje em dia…
Fotos das filmagens do curta-metragem curitibano Rua José Cadilhe, uma produção da Asteróide Filmes.
Em película. Preto e Branco. Recém revelado.



Sinto que penso que sei o que acho que sonho
Ouço o silêncio noturno contar-me segredos do tolo e do rei
Fecha os olhos
Sente o cheiro
A rosa que surge na praça brotou no cimento e se ergue no ar
A poesia, a rua, o beco
o castelo e o pedreiro
a bruxa e o cocar
É tudo meu
é meu cantar
O tempo parado na sala
o pão e a mortalha
o medo de amar
É tudo meu
é caminhar
É o equilíbrio entre o chão e o Universo
na tênue linha que corta o ar
Mal sei o que sou,
identidade entre névoas,
pistas discretas indicam meu Eu
Cultivo com carinho
os retalhos que me criam
colagem efêmera de fotografias de Deus
Meus caros amigos que sonham em conhecer Machu Picchu, sinto informar que a melhor palavra que encontro para definir esse sítio arqueológico dominado pelo turismo é: palhaçada. Bom, vamos começar do começo, ou seja, como chegar lá. Há três opções: pagar o olho da cara e ir de trem de Cusco a Machu Picchu Pueblo; pagar o olho da cara e fazer a “trilha do Inca”, que dizem ser muito bonita - três dias de caminhada passando por várias ruínas; ou, finalmente, fazer o caminho do andarilho sem grana. Nem preciso dizer que escolhemos a terceira opção.
Como chegar a Machu Picchu de classe econômica

No caminho para as águas termais de Santa Tereza
Primeiro passo: pegar um ônibus de Cusco a Santa Maria. Você chega lá agradecendo por estar vivo depois de passar por penhascos em estradas de terra deslizante. Aliás, depois de viajar pela Bolívia e pelo Peru, você já se acostuma a esperar qualquer coisa de uma viagem de ônibus. De Santa Maria é necessário ir a Santa Tereza, cruzando montanhas numa estradinha de terra à beira do abismo dentro de uma kombi lotada, passando por povoadinhos de quatro casas que parecem todos iguais - infinitos deja vus. “Ai meu Deus do céu, ai meu Jesus amado” - a criação católica aparece nesses momentos, e o patético medo da morte também. Pior foi na volta, de noite, o motorista alucinado descendo as montanhas como um coubói em dia de rodeio.
Santa Tereza é uma vila tranquila, que apesar da altitude elevada é úmida e quente. Depois de muito tempo víamos uma vegetação tropical, com bananeiras, e também muita chuva. Para recarregar as energias, uma boa pedida são as águas termais. Armamos acampamento no próprio local de banho, à noite as piscinas foram só nossas. Mas não era piscina azulzinha não, era de pedra com fundo de areia, mais natural impossível.
A etapa seguinte da jornada consiste em caminhar até o trilho do trem, o que leva umas duas horas - também existe um caminhão que faz o transporte para lá. Mas antes disso é necessário sair de Santa Tereza, e o bagulho é roots: um rio vociferante a atravessar. E não é pela ponte não: o veículo é uma cesta de madeira pendurada num cabo de aço. Você senta na sesta, ajeita a mochila atrás, e vai deslizando até a metade - rio estupidamente nervoso, mas concentração! - tem que puxar a corda para chegar até a outra margem. Dá medo, mas é bem divertido.
Chegando no trilho do trem, mais três ou quatro horas de caminhada. Aí já é mata fechada. Montanhas verdes, rodeadas no topo por densas nuvens de vapor. É difícil ver o céu azul. Há nuvens o tempo todo e chove quase o tempo todo. O lugar é alucinante - pequenos vales cobertos por selva e água brotando por todos os lados; rios caudalosos, ferozes - parecem indomáveis.
O dia em que não conhecemos Machu Picchu

Vista de Machu Picchu Pueblo, no caminho entre a cidade e as ruínas.
Novamente encontramos Lucas e Luciana, o brasileiro e a chilena, dessa vez em Cusco. Eles nos passaram um esquema de como entrar em Machu Picchu sem pagar nada: no final da subida para as famosas ruínas, pegar uma trilha no mato que leva até o muro, pular discretamente e se mesclar aos turistas. Na primeira tentativa, num dia pela manhã, fomos barrados no controle da ponte, no sopé da montanha - único caminho para a trilha. Descobrimos que de madrugada não havia vigilância - fomos lá pelas cinco da manhã, mas o guardinha já estava no batente.
Decidimos comprar o ingresso mesmo, Lucas e Luciana deviam ter tido sorte, afinal nem nos haviam falado desse controle. No guichê, apresentamos nossos documentos da universidade e o passaporte. “Só aceitamos a carteirinha internacional de estudante”, falou de forma maquinal o atendente. “Mas isso comprova que somos estudantes, tem números e carimbos”, argumentei. “Nós só aceitamos a carteirinha internacional de estudante, são regras da empresa”. Tentei mais um pouco, expliquei a situação, mas nada feito. A meia-entrada custa 60 soles, ou seja, a inteira sai por absurdos 120 soles (aproximandamente 80 reais). Confesso que até tínhamos o dinheiro, mas era exploração demais! Optamos por tentar entrar na surdina uma última vez.
No dia seguinte, saímos às três horas da manhã. Um casal de argentinos nos passou os tickets usados deles - com a data do dia anterior e a metade já destacada, mas enfim, poderia ajudar. E, novamente, o guardinha já estava lá. Eu fiz alguma pergunta besta e me pus a olhar o rio e as árvores enquanto ele pedia as entradas para Thiago, que lhe entregou os tickets dos argentinos. Ele pegou sua lanterna e olhou bem as entradas: obviamente percebeu a situação, mas deixou a gente passar. Ufa, que alívio, depois dessa eu tinha certeza que tudo daria certo, que entraríamos de graça em Machu Picchu.
A subida é uma escada de pedras do tempo dos incaicos, no meio da floresta, que vai cruzando a estrada por onde o ônibus-para-turista-com-ar-condicionado-cujo-o-preço-é-um-absurdo passa. É degrau que não acaba mais, para mim então, que ainda não estava 100% depois de vinte dias de cama, foi muito cansativo.
A indicação era que deveríamos desviar para a trilha na segunda barraquinha de palha. Pegamos uma entrada na mata em frente à barraca, andamos, andamos e chegamos em outro ponto da estrada e nada de muro. Não podia ser por ali. Voltamos e descubrimos uma trilha ainda mais fechada atrás do quiosque para descanso. Tinha hora que nem dava para ver os pés, de tanto mato. Depois de um certo esforço, chegamos ao muro. Justamente no momento em que eu estava encaixando meus pés nas pedras, já me preparando para pular, surgiu um vigilante.
- Ei, o que vocês estão fazendo aí?
- Explorando novos caminhos - disse Thiago cara-de-pau.
Nós nos explicamos contando que tentamos pagar meia-entrada e não aceitaram nossos documentos, que achávamos um absurdo ter que pagar 120 soles simplesmente para poder entrar e coisa e tal. O senhor veio com uma história que nos levaria até a administradora e falaria com ela para que pagássemos meia-entrada. Cruzamos o sítio arqueológico atrás dele - que lugar impressionante. Chegando à administração, ele apontou a sala e deu meia volta.
A administradora cuspia prepotência, se deliciava com a pequena autoridade que lhe foi outorgada. Entre as grosserias e frases tiradas do discurso oficial, ela disse que tínhamos que pagar ou seríamos deportados e, depois de certa insistência, aceitou analisar nossos documentos da universidade. Para melhorar ainda mais a situação, os documentos tinham ficado no hotel. Thiago desceu a longa escadaria, foi ao povoado, voltou, subiu tudo de novo, e colocou os papéis em cima da mesa dela. Eu tinha um documento no qual constava que eu estava viajando fazendo meu trabalho de conclusão de curso - havíamos tomado essa cautela antes de partir. Thiago, além deste, tinha ainda sua declaração de matrícula - a minha havia ficado no albergue em Cusco.
“A sua documentação eu posso aceitar”, disse a ele, “mas a sua não”, declarou me fitando. Insisti que o documento continha meu número de matrícula. Ela não suportou o que considerou uma afronta. “Você acha que eu sou estúpida? Eu já li esse texto e isso não serve, pois você pode estar fazendo um curso sem ser aluna”. A discussão era algo inadmissível. Não adiantava argumentar que para ter um número de matrícula e para fazer um trabalho de conclusão de curso de graduação eu tenho que ser o que se considera oficialmente um estudante universitário.
Já tinha perdido toda a graça, toda a mística. Eu ía pagar 120 soles para quê? Como a própria administradora frisou, “aqui só pode entrar quem tem como pagar”. E o mais irônico é que se trata de um Patrimônio Universal da Humanidade. Nome bonito…
Em Machu Picchu Pueblo (antiga Águas Calientes, que teve seu nome mudado num golpe de marketing) os únicos peruanos são os que mantêm a engrenagem do turismo funcionando - garçonetes, cozinheiros, pedreiros e balconistas, com raras exceções. Enquanto a parte turística é toda colorida e “bonitinha”, o lugar onde eles vivem, do outro lado de uma pequena ponte, é cinza e pobre, como em outra cidade qualquer. Para quem vão os milhões faturados em cima das ruínas da civilização que foi dizimada sob a bandeira dessa mesma lógica, que só enxerga cifrões?
Dane-se Machu Picchu. Eu cortei a onda da administradora, afinal estávamos do lado de fora do muro quando o vigilante apareceu e nos convenceu a entrar - ele podia ter simplesmente mandado a gente embora. Sendo assim, não havíamos invadido nada. Thiago, mesmo podendo pagar meia, não quis entrar também. Sinceramente, não me arrependo. Não havia mais clima, ia ser tudo falso demais. Cultura transformada em caro souvenir.
Mas havia ficado a vontade de conhecer um pouco mais dessa antiga civilização. Já na última parada do caminho de volta para Cusco, conversando por acaso com um senhor da região, comentamos sobre nossa tentativa frustrada em Machu Picchu. “Aqui perto há outras ruínas, em algumas não precisa nem pagar”, ele disse. Foi assim que fomos a Ollantaytambo.
Texto escrito em 2007, parte do livro Viajeros.
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