Parte do coletivo Soylocoporti
olhares sobre o cotidiano da América Latina
Assista o vídeo da Expedición Donde Miras - caminhada cultural pela América Latina.
Donde miras: De la periferia de Sao Paolo a Latino América from desinformémonos on Vimeo.
Publicado no portal popular colaborativo Desinfomémonos.
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva disse sexta-feira, 19, que a Telebrás será reativada para “fazer a banda larga neste País”. Questionado por jornalistas, durante visita a fábricas de papel e celulose em Três Lagoas (MS), sobre o motivo da enorme valorização que as ações da Telebrás tiveram no seu governo, o presidente respondeu que todas as empresas valorizaram no período, que não houve vazamento de informação de dentro do governo e, por fim, confirmou a reativação da empresa.
“Olha, primeiro não saiu informação de dentro do governo. No meu governo as ações de todas as empresas cresceram. Se o jornal que você trabalha tiver ações na bolsa, pode ficar certa de que ela cresceu muito também. Se a CVM entende que houve o vazamento e por isso alguém foi privilegiado aí cabe a investigação. Agora que ela vai crescer, vai. Porque nós vamos recuperar a Telebrás. Porque nós vamos utilizá-la para fazer banda larga nesse País”, disse o presidente de acordo com a degravação oficial da entrevista.
Repercusão
As ações da Telebrás na Bovespa reagiram às declarações do presidente Lula. O papel preferencial da companhia (TELB4) fechou o pregão com valorização de 14,81%, sendo negociada a R$ 2,48. A ação ordinária (TELB3) valorizou-se 14,22%, negociada a R$ 2,41. As ações da empresa figuraram entre as maiores altas do pregão desta sexta e o papel preferencial teve o terceiro maior volume de negócios do mercado à vista (R$ 219,5 milhões) atrás apenas dos papéis preferênciais de Vale do Rio Doce e Petrobras.
Fonte: Teletime
Cavalcante, Goiás
Dezembro de 2009


Casa de Cultura de Paraty, eu e os funcionários
Nos quadros que retratam a colonização,
somente nomes de pintores europeus
“Engraçado que é sempre os outros que contam a nossa história”, desabafei
… silêncio …
“Não tem arte indígena?”
“Ahn?”
“Arte indígena.”
“O quê??”
“A-r-t-e i-n-d-í-g-e-n-a!”
“Acho que tem uma peça de artesanato lá em cima.
Mas foram os espertos que contaram a história.
Os índios não tinham papel e pincel.”
Artesanato indígena
no chão das ruas
Arte branca
em galerias e museus
Pedras, igrejas
e casarões coloniais
Macaquinhos pulando
sobre telhados e quintais
Montanhas de Mata Atlântica,
porto e cachoeira
Paraty, mas não para aqueles
de pele amarela e negra
Paraty, gringo
Paraty, elite branca
Paraty
mas não para nós

Binho no sarau na Praça do Surf, em Maresias

Perfil de Jesus

Trampos de Raíssa e músicos caminhantes


Bandeiras Donde Miras

Coco

A roda
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Faz mais de quinze dias que saímos de Santos. Podiam ser trinta, quinhentos ou 20347 dias passados. O tempo Donde Miras é outro, não se mede em calendários ou relógios. Estamos há muito tempo caminhado? Pouco? Quantos quilometros andamos? Quantas reflexões surgiram? Quantas ideais se derreteram e se metamorfosearam? O olhar vai além e não se prende a números e convenções.
Poetas, palhaços, espanhóis, músicos, argentinos, atores, a cambada da Zona Sul e até uma menina do sul que não hesita em vir a cada caminhada. Somos um, mas somos tão diversos. “Na poesia e na pura ritmia, a família é Donde Miras e o que eu quero é andar”, rimou Zinho.
O território percorrido é a cultura e o litoral norte de São Paulo. É alta temporada e o turismo não dá sossego. Do coração da metrópole, as veias asfaltadas espalham a degradação de um sistema – mesmo no seu período de descanso, os turistas carregam consigo seus hábitos e uma ânsia de extravasar toda a repressão de um ano inteiro. Na virada do ano, em Bertioga, o clima era tenso, mesmo em plena festa. Alegria violenta e artificial. Vida violenta e artificial. Os fogos e os sonhos são de artifício – um pequeno encanto fugaz.
Vamos caminhando debaixo do sol de escaldar do nosso Brasil, molhando o pé nesse marzão de deus, bebendo das fontes exuberantes, pisando, rimando e mirando. Os mosquitos não perdoam nossas peles macias. O verde abraça a beira das estradas, e os carros se movem, dirigindo-se aos residenciais de luxo do litoral norte paulista. Ilhas de conforto forjadas para simular um mundo que não existe, construído sobre a miséria das vilas e favelas. Na verdade, não existem dois mundos. São extremos de uma mesma realidade desigual.
Este solo é rico – boa parte do pouco que sobrou da Mata Atlântica brasileira encontra-se nesse trecho. Contudo, há outras riquezas em cheque. Essa é a região do Pré-Sal. Em São Sebastião, onde estamos agora, a Petrobrás impera. Em todos os lados há reservatórios de petróleo, centrais e cartazes publicitários da empresa. Grande parte da população depende diretamente dela. A pretensão é ampliar o porto da cidade – mais pessoas virão para trabalhar nessa obra. E a estrutura da cidade, irá acompanhar o crescimento? Haverá moradia, educação, sistema de saúde, cultura e alimentação para todos? E o ambiente, esse resquício de Mata Atlântica que ainda não destruímos? Iremos passar por cima dele com nossos rolos de concreto também?
Tivemos esse debate ontem, quando Soraia, amiga do Binho que trabalha com Biodança, veio fazer uma vivência conosco. Sua amiga Malu a acompanhou. Ela mora na região há sete anos e nos contou um pouco da conjuntura local. Esse debate, assim como aquele que tivemos sobre o Pré-Sal em Santos, nos leva a pensar que há muito o que mudar. Nossos hábitos estão distorcidos, nossas relações muitas vezes se dão de maneira equivocada. Enquanto o objetivo de nossa sociedade for individual e monetário, de pouco servirão mudanças. Por isso nossa caminhada procura desenvolver novos olhares. Afinal o que queremos? Onde almejamos chegar? Preparemos nossas setas, mas antes definemos o alvo.
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Cachoeiras do litoral paulista. As duas primeiras imagens são de Maresias. As restantes são da aldeia guarani pela qual passamos.






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Chegando a Maresias, templos de fé e morte. O cemitério da cidade e a capela de São Sebastião.




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Fotos tiradas em janeiro de 2010, no trecho da Expedición Donde Miras de Santos a Paraty. As quatro primeiras fotos são referentes à caminhada de Boiçucanga a Maresias, e a última de Maresias ao centro de São Sebastião.





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Caminhantes e convidados debatem o Pré-Sal no segundo dia da Expedición Donde Miras
No seu quarto trecho, que compreende a região de Santos (SP) a Paraty (RJ), a Expedición Donde Miras caminha sobre terras peculiares: a região do Pré-Sal. A reserva petrolífera, mapeada recentemente, constituiu-se na separação da Pangéia – a imensa massa terrestre que separou-se e formou os atuais continentes – entre a América e a África. Algas azuis soterradas debaixo de sal foram amalgamadas ao longo dos milênios e resultaram em imensas aglomerações de petróleo de qualidade. O sal serviu como uma “tampa”, o que permitiu a maturação do petróleo. A camada está a 7 km de profundidade a partir do solo marinho e consiste em um volume monstruoso de óleo, principalmente na bacia de Santos (que vai desde Florianópolis ao Espírito Santo). A partir dessa descoberta, o Brasil pode passar a constar entre os três principais produtores de petróleo mundial.
Anderson Mancuso, diretor do Sindicato dos Petroleiros do Litoral Paulista, foi convidado pela expedição para fazer uma apresentação sobre o tema. O encontro ocorreu no alojamento dos caminhantes em Santos e resultou num interessante debate. Anderson defende que o Pré-Sal não é uma discussão restrita – deve ser feita por todos os brasileiros; e não é isolada, por ser transversal a diversos temas estruturais, entre eles a soberania nacional, questões ambientais e sociais. “Esse é um momento ímpar, pois fomenta a questão da soberania nacional: continuaremos entregando nossas riquezas?”, provoca Mancuso.
O diretor acredita que hoje a geração de energia está voltada para a produção de lucros, não para suprir as necessidades sociais. Essa é uma oportunidade para revermos a lógica de exploração dos recursos e o investimento público resultante. A descoberta do Pré-Sal faz do Brasil um alvo internacional, por isso é necessário desenvolver um projeto político de gestão das nossas riquezas naturais como um todo.
A legislação e a soberania
O atual modelo de exploração do petróleo brasileiro data de 1997, quando o governo de Fernando Henrique Cardoso quebrou o monopólio estatal. Tal postura bate de frente com os princípios da campanha O Petróleo é Nosso, que em 1954 resultou na fundação da Petrobras. O modelo de concessão de FHC consiste no mapeamento dos blocos petrolíferos e sua venda por meio de leilões, cuja dinâmica é controlada pela Agência Nacional de Petróleo (ANP). A empresa vencedora deve cumprir uma série de etapas, mas grande parte da produção fica para o capital privado – pouquíssimo vai para o Estado.
A contradição é que o petróleo é um bem público, não privado. Por isso o modelo atual não condiz com a histórica luta popular pela soberania energética. Mancuso explica que Lula perpetuou o modelo de FHC – o governo petista afirma que na época a lei era apropriada (apesar de que a contestava naquele momento), mas que agora deve ser aprimorada devido ao Pré-Sal. “O filé mignon do Pré-Sal, concentrado em 30% de suas reservas, já foi entregue para multinacionais”, denuncia o sindicalista.
Alguns projetos de lei que buscam avançar na questão da soberania energética já passaram pelo Congresso Nacional. Um deles estabelece o modelo de partilha (“modelo híbrido”), no qual a empresa que ganha a concessão é aquela que cede mais para o Estado - uma espécie de barganha. Contudo esse modelo valerá somente para as áreas ainda não exploradas. Mancuso acredita que esse sistema mantem a lógica de entrega das nossas riquezas naturais. Já Bruno de Tarso, militante do movimento estudantil e participante da caminhada, defende que o modelo de partilha já é um avanço. “O ideal seria que a Petrobras voltasse a ser 100% estatal e obtivesse o monopólio de exploração do petróleo nacional. Mas como isso não é possível na atual conjuntura, o modelo de partilha ao menos direciona parte dos recursos ao poder público”, argumenta.
Construção de um novo projeto
O debate comprovou o que Mancuso havia dito: a discussão do Pré-Sal é transversal a diversos temas e diz respeito a toda a sociedade. Ana Estrella Vargas, socióloga e caminhante Donde Miras, questionou inclusive se devemos explorar o petróleo. “O que acontece quando tiramos essa substância tão profunda que está há tanto tempo sendo produzida pela terra? Quais os efeitos colaterais disso?”, indagou.
O fato é que os danos ambientais são irreversíveis, por isso temos que repensar nossa lógica e encarar o Pré-Sal como um recurso estratégico a ser explorado com responsabilidade. “Temos que transpor a visão produtivista e pensar em novas formas de energia, inclusive utilizando os recursos advindos do próprio Pré-Sal para desenvolver novas tecnologias”, indica o sindicalista.
A crise que enfrentamos não é somente econômica, mas estrutural. Por isso a urgência de construirmos novas formas de relação entre os seres humanos e destes com o meio. Existem várias pessoas se dedicando a criação de um projeto alternativo. A Expedición Donde Miras alimentará esse debate ao longo da caminhada, pois também entende que esse tema diz respeito a todos nós. Todas as formas de conscientização podem fazer parte desse projeto – o desafio é conseguir de fato dialogar e construí-lo coletivamente.
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Onze horas da noite do dia 26 de dezembro na rodoviária de Curitiba. Malas, corpos, confusão e ansiedade. Para onde vão todas as pessoas? Sonhos, obrigações, reencontros, destino e vontade. O limbo daqueles que ainda não foram.
Minha ansiedade mira. Os andarilhos já haviam saído de São Paulo para a largada oficial de mais uma caminhada da Expedición Donde Miras, o quarto trecho, agora de Santos a Paraty. Ânsia de passos, versos, cores e timbres. Será um mês de caminhos percorridos, saraus, poesia, fotografia, cinema e teatro - cultura a cada passo.
Meu ônibus percorreu as horas mortas paranaenses e paulistas. Pinga lá, pinga cá, desembarco às seis da matina em Santos. Minha referência é o alojamento cedido pelo Sindicato dos Bancários – silêncio matutino, o descanso dos que caminharão. “Abre a porta pra mim, Donde Miras”. Luan sonolento me recebe – a cidade dorme.
Barracas, colchões e cozinha improvisada. Eu descanso da viagem conturbada enquanto aos poucos os caminhantes despertam – feliz reencontro. É o início de mais um ciclo de troca e mutação. As trilhas da América Latina se abrem.
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Parte da bancada paranaense

Delegado Amarelo

Rádio Megafone movimentando a entrada da Confecom

Afro-brasileira

Plenária final

Representantes do poder público e do empresariado na abertura da Confecom
Pela primeira vez no nosso país, uma conferência na área da comunicação está sendo realizada. Reivindicada veementemente por movimentos sociais e entidades que atuam na luta pela democratização da comunicação, a Confecom é uma conquista histórica. Mas até que ponto podemos legitimar um processo amarrado, no qual o segmento empresarial chantageia e impõe suas demandas? Quais são as alternativas para a sociedade civil nesse cenário?
Nos bastidores do primeiro dia da Confecom, 14 de dezembro, um novo golpe se desferiu. O governo nacional mais uma vez demonstrou sua opção de não enfrentar o poder dos oligopólios da comunicação. Cansada de ceder, e vendo a finalidade da conferência ameaçada, a sociedade civil precisou definir sua estratégia: tencionar ou buscar avanços específicos dentro dessa conjuntura limitada.
O processo: embates na Comissão Organizadora
Três meses após o presidente Lula ter anunciado a convocação da I Confecom em janeiro deste ano no Fór um Social Mundial, compôs-se a Comissão Organizadora Nacional (CON) da conferência. Desde o início, o poder empresarial manteve sua postura histórica, impondo seus interesses corporativos. Após a chantagem exercida por esse setor, e do abandono da conferência por diversas entidades empresariais, a vontade dos dois únicos representantes remanescentes desse segmento prevaleceu: a composição de poder de decisão e número de delegados de 40% para a sociedade civil, 40% para o setor empresarial e 20% para o poder público, tanto na CON como na conferência em si. Isso significa que o empresariado recebeu o mesmo peso que toda a sociedade civil, cujos anseios deveriam ser a motivação e o objetivo das políticas públicas. Mas, ao menos nessas terras, historicamente não é assim que acontece.
Dessa maneira, o poder público, apesar de ser minoria nessa divisão do poder de decisão, é o ponto chave para definir quais dos dois outros segmentos prevalece. E, apesar de haver de fato convocado a conferência, demonstra claramente não optar por enfrentar os abusos de poder e a falta de regulamentação e fiscalização no setor das comunicações. Basta observar os fatos para percebê-lo.
AI – 8: precarização do processo democrático
Às vésperas das conferências estaduais, os empresários exigiram a implementação da resolução 8, apelidada de “AI -8” por entidades da sociedade civil. Tal medida definiu mudanças já nos estados: a extinção da votação de propostas nas plenárias finais, que resultou no encaminhamento direto de todas as propostas estaduais diretamente para a etapa nacional sem passar por debate, e a implementação de um processo peculiar – as questões polêmicas passaram a ser consideradas “tema sensível” e necessitam de quórum qualificado (60% + 1 do total de votos) para serem aprovadas. Essa resolução foi apresentada como premissa para a continuação da Associação Brasileira de Radiodifusores (ABRA) e da Telebrasil – Associação Brasileira de Telecomunicações no processo, as únicas representantes do empresariado na CON.
Na prática, a resolução definiu que para encaminhar propostas para a etapa nacional não era mais preciso construir coletivamente – valoriza-se a vontade individual em detrimento da construção colaborativa. Implica também no impedimento prático de avanços que não interessam ao segmento empresarial: mesmo com o consenso da sociedade civil e do poder público, ainda seria necessário um voto do outro setor para validar as propostas “polêmicas”. Entre elas estão o direito de antena às rádios comunitárias, o controle social de conteúdo, a universalização da banda larga estatal e gratuita e a regulamentação do artigo 221 da constituição que estabelece cotas para a produção regional e independente e limita a publicidade na programação.
Os representantes da sociedade civil na Comissão Organizadora argumentam que os acordos foram necessários para garantir a conferência, que só teria legitimidade com a participação dos três segmentos. Já o governo nacional cede às pressões empresarias e age como interlocutor na defesa desses interesses com a sociedade civil.
O último (ou mais recente) golpe
Enquanto todos esperavam a abertura oficial da Confecom, que iniciou com mais de duas horas de atraso, uma reunião da CON se dava nos bastidores. Aos 45 minutos do segundo tempo, a ABRA ameaçou se retirar do processo novamente. Como preço para sua permanência, exigiu a extensão de “tema sensível” aos Grupos de Trabalho, sendo que anteriormente estava previsto somente para a plenária final.
Pela manhã, tal medida já havia sido votada e o intento da ABRA derrotado. Mesmo assim, uma nova reunião foi convocada para discutir o mesmo tema. Com o poder público pressionando para que a proposta empresarial fosse aceita, a sociedade civil teve que reagir ao imprevisto. A única saída seria classificar essa reivindicação como “tema sensível” que, por tanto, precisaria ser aprovada com quórum qualificado, que exige voto de todos os segmentos, o que inviabilizaria sua aprovação se o campo popular estivesse unificado. Contudo, entidades da própria sociedade civil votaram contra: a Central Única dos Trabalhadores (CUT), a Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj), o Fórum Nacional pela Democratização da Comunicação e a Associação Brasileira dos Canais Comunitários (ABCCOM). Como a votação se deu por maioria simples, a ABRA consolidou sua intenção.

Plenária da sociedade civil
Ao término da cerimônia de abertura, a sociedade civil reuniu-se em plenária para expor o ocorrido e tentar apontar caminhos. Rosane Bertotti, secretária nacional de comunicação da CUT, defendeu a postura da entidade. “Muitas reuniões foram feitas, houve bastante negociação para que a Confecom acontecesse. Fizemos as concessões com responsabilidade política, e se não tivéssemos feito isso hoje nós teríamos implodido a conferência”, argumentou.
Contudo, outras entidades da CON não concordaram com a estratégia adotada. “Se querem nos calar no grito, no golpe, na rasteira, nós temos que dizer não”, apontou Lurdinha Rodrigues, da Rede Mulher e Mídia. A reunião foi tensa, e diversas entidades se manifestaram. Bia Barbosa, integrante do Intervozes – Coletivo Brasil de Comunicação Social, defendeu que “a sociedade civil tem que se unir para derrubar esse quórum sensível nos GTs, porque essa medida impedirá que aprovemos as propostas construídas até agora”.
A sociedade civil terminou o primeiro dia da Confecom com muitas incertezas e tendo na pauta do dia seguinte a aprovação do regulamento interno e o início dos trabalhos nos grupos. Vale destacar que apesar da postura dos representantes do poder público na CON, há diversos setores desse segmento abertos ao diálogo progressista. Também entre os empresários encontram-se companheiros de veículos alternativos dispostos a construir avanços. Em meio ao caos, existem possíveis caminhos – o risco está sempre presente, mas o êxito depende de um tênue equilíbrio entre coerência e articulação. Há de se roer a corda.
Saímos da Bolívia no último dia permitido pelo nosso visto. Depois de três meses em terras bolivianas, entraríamos num país de cultura similar, porém atualmente numa direção política oposta: enquanto a Bolívia bate de frente com o sistema neoliberal em busca de um alternativa, o Peru se esforça por cair nas graças do sedutor desenvolvimento capitalista. Miséria e riqueza mais evidentes na meca do turismo sulamericano.
A cidade branca

Úrsula no terraço de sua casa em Arequipa. Ao fundo, o vulcão Misti.
De Copacabana, ao norte da Bolívia, atravessamos a fronteira rumo a Arequipa, conhecida como “a cidade branca”. Ficamos na casa de Úrsula, que conheci no Estágio Interdisciplinar de Vivência em Áreas de Reforma Agrária de Minas Gerais (EIV - MG) em janeiro de 2006. Uns dias depois de nós chegaram Luciana, amiga chilena que visitamos em Valparaíso e que também esteve no EIV, mais duas amigas suas. E do Brasil veio o mineiro Lucas, outro participante do estágio.
Lotamos a casa da família de Úrsula, que deu uma aula de boa vontade. Sua mãe e ela, que estudava gastronomia, preparavam pratos típicos. Seu pai contava das tradições incaicas e até comprou dois porongos de cañazo, a cachaça produzida no Peru, para os brasileiros que chegariam em sua casa. Eles inclusive nos levaram para conhecer o mar peruano; fomos a Mollendo. Não achei muito bonito, mas foi divertido e, principalmente, diferente - uma praia rodeada por deserto.

A chilena Luciana e o mineiro Lucas: nos encontrando pelo caminho.
O centro de Arequipa é de fato todo branco, e margeado por três vulcões, com seus cumes nevados brilhando ao sol . A catedral imponente, com um diabo impressionante talhado no púlpito, derrama a sombra de suas torres na praça central tipicamente espanhola, rodeada por arcos e tomada por turistas, vendedores e pedintes.
Passamos cerca de duas semanas em Arequipa. As vendas de artesanato iam bem, mas como não pagávamos alojamento, aproveitamos e tiramos uns dias para produzir tranquilos. Durante esse período, as meninas chilenas e o mineiro foram conhecer o canion do Vale do Colca. Na volta, nos disseram que valia a pena ir lá. Resolvemos seguir a dica.

Local de venda de artesanto no centro de Arequipa: viajantes de diversos países em convivência. Foto de Thiago Martins.
Um vale de conto de fadas
O Vale do Colca foi reconhecido como canion não faz muito tempo - a exploração turística é recente. Assim que colocamos o pé em Chivay, uma das cidadezinhas do vale, apareceu um cara anunciando hotel - “dez soles”, ofereceu ele (sim, a moeda peruana é o Sol). “Por cabeça?”, perguntou Thiago, achando caro. “Não, os dois”, respondeu o peruano. Negócio fechado.
Ele nos levou ao local; seu filho abriu o portão. O negociante era o dono e sua família morava lá mesmo. O jardim estava bem cuidado, com flores; o quarto bem ajeitadinho, com banheiro privado e ducha a gás, bem quentinha - o melhor banho desde o início da viagem. Tudo isso pela menor diária que chegamos a pagar no Peru.
As senhoras de lá usam umas roupas lindas, todas bordadas, um artesanato típico da região. O mercado local não tinha aquela confusão da maioria dos mercados que conheci no Peru e na Bolívia, e a comida era muito boa e barata. E sim, opções sem carne eram possíveis! Mas o melhor é a paisagem: céu estupidamente azul, sol, montanhas, friozinho - o retrato da tranquilidade.
No hotel, conhecemos um psicólogo belga que vive há longa data na Holanda. Desde muito tempo ele trabalha por uns cinco anos e junta uma grana. Depois, vende tudo, inclusive o consultório, e sai de viagem. Ele estava com sua filha e o namorado dela, ambos de 18 ou 19 anos. Acompanhamos eles até Madrigal, um povoadinho a três horas de kombi de Chivay. Tanto na Bolívia quanto no Peru os ônibus são usados para transporte interurbano: dentro das cidades e pelos caminhos do interior, a kombi impera. O bom é que costuma ser barato e o dinheiro não vai para uma grande empresa de transportes, mas fica com os motoristas-proprietários. Mas sempre tem um lado ruim: como não há fiscalização, e até nem sei se existe uma regulamentação, as kombis costumam circular completamente lotadas. E dessa vez também foi assim.
Saímos antes do sol nascer, e mesmo assim não havia lugar para todos sentarem, nem para as milhares de bagagens que as pessoas sempre levam de um lado para o outro. Sacas de alimentos, animais, tapetes - vi de tudo ser carregado nas viagens pelos Andes, e em grande quantidade. Tinha até gente “semi-em-pé”, pois a altura da kombi não comporta uma pessoa em pé. Mas é impressionante, o pessoal da região ia bem, conversando, melhor que nós, gringos almofadinhas sentados e enjoados pelo sacolejo - os gringuitos, como eles nos chamaram.
Era sábado, primeiro dia do carnaval do vilarejo. Nos indicaram uma caminhada para chegar à entrada do canion, onde se pode ver os condores planando com exclusividade. Andamos pela estradinha, eu, Thiago, e os europeus, cruzando os pequenos sítios; ao longe se viam os montes nevados. O Vale do Colca é muito frio e alto, mas o sol é bastante forte. O resultado dessa equação é: durante o dia, faz frio na sombra e calor ao sol; à noite, um frio de fazer tremer os ossos. Caminhamos mais de uma hora e chegamos ao início da subida para chegar à tal entrada do canion: um zigue-zague assustador desenhado na montanha. Não tive dúvida. “Thiago, sinto muito, não tô afim de subir isso aí, tô pensando em curtir o dia, a festa, vou ver o canion depois do mesmo jeito, então se você quiser ir, boa sorte”. Já tínhamos planejado ir ao cruce del condor, a “encruzilhada do condor”, onde se tem uma bela vista e os turistas vão para ver o pássaro - ou seja, um bom lugar para vender e apreciar a paisagem.
Thiago seguiu subida, eu me dispersei dos outros e sentei na beirada de um riozinho, onde parecia que as montanhas faziam um portal, abaixo de uns buracos altos na rocha que fui descobrir serem antigas catacumbas. Voltei andando sozinha por esse caminho lindo, parando para descansar entre os “sobes e desces”. De volta ao centrinho, até tentei vender alguma coisa, mas vi que não teria muita saída. Ouvi uma música vindo do terreno de uma casa: a festa começava ali. Havia homens vestidos de mulher e outros de mineiro, com a cara pintada de carvão (los negritos, o povo dizia), além de muita chicha, uma bebida alcoolica fermentada caseira que achei simplesmente horrível, com um tremendo gosto de azedo.
Na festa encontrei Thiago, o senhor belga (que também havia subido o monte) e os dois jovens europeus. Os moradores nos ofereceram comida, chicha, nos tiraram para dançar, pintaram a holandesa de carvão e não queriam que fôssemos embora. Até nos ofereceram um cantinho em sua casa. “Eu quero que vocês se sintam bem, fico feliz que estejam aqui, porque todos somos irmãos. Meu filho foi para o Chile e lá o tratam muito mal, e isso está errado. Não importa de onde viemos, somos todos iguais”, disse a anfitriã, já meio embriagada na alegria da festa. Há uma grande rivalidade entre chilenos e peruanos, que remonta à Guerra do Pacífico, vencida pelo Chile.
Bolívia e Peru versus Chile e Inglaterra
A Guerra do Pacífico ocorreu de 1879 a 1883, envolvendo Chile, Peru e Bolívia. O motivo foi o guano, espécie de esterco de ave acumulado ao longo dos séculos no litoral peruano, e principalmente o salitre, substância semelhante ao sal porém com maior teor de sódio. São ambos fertilizantes, que se encontravam em território peruano e boliviano. Naquela época ainda não existiam fertilizantes químicos. Por isso, esses produtos eram bastante cobiçados na Europa, onde o solo estava exaurido e a população crescia vertiginosamente.
A exportação do salitre era um negócio peruano e, principalmente, chileno. Quando o governo boliviano resolveu cobrar impostos pelo produto, o Chile, apoiado pela Inglaterra (para quem os chilenos repassavam a mercadoria), invadiu a Bolívia, dominando o território de Antofagasta, onde se encontrava grande quantidade da substância. Em seguida, o Peru teve as regiões de Arica e Iquique abocanhadas pelo Estado chileno. Essa guerra deixou profundas marcas: para os chilenos, ficou o orgulho da vitória e a sensação de superioridade perante seus vizinhos derrotados; já os peruanos odeiam os chilenos, afinal seu país terminou a guerra dilacerado; e a Bolívia até hoje exige de volta sua saída para o mar, perdida na guerra, e ficou o rancor contra os chilenos.
Condores e flashes
Apesar dos convites para ficar em Madrigal, voltamos a Chivay. Devíamos partir em breve: nosso dinheiro estava acabando, as vendas não iam bem e não havia caixa automático para sacar (a essa altura já havia recuperado o cartão - minha mãe enviou um novo via correio para Arequipa). Tivemos sorte de pegar a kombi vazia.
No dia seguinte fomos ao cruce del condor. Havia mamitas vendendo roupas de lã de alpaca - um animal semelhante à lhama, porém mais peludo. O lugar era realmente muito bonito, e cheio de turistas. Quando a estrela da festa, o condor, apareceu, houve o maior rebuliço: turistas correndo com máquina fotográfica na mão para registrar a imagem da majestosa ave. Eu, me sentindo meio boba no meio daquele súbito alvoroço, segui a leva de turistas para ver o condor - afinal, nunca tinha visto um. O passáro símbolo da liberdade distraidamente deu o seu espetáculo.
Vendemos somente o suficiente para pagar o transporte de ida e volta ao cruzamento. Tínhamos a grana certa para a passagem até Arequipa; faltava acertar a última diária do hotel. Explicamos a situação para a mulher do negociante, também dona do hotel, deixamos uns brinquinhos e uma pulseira e ficou tudo bem.
Voltamos para Arequipa, parada obrigatória entre o Vale do Colca e Cusco. Essa noite me senti mal e tive febre. Mal sabia eu que era só o começo.
Cusco para quem pode pagar
Um sujeiro vestido de inca falando ao celular - ganha a vida posando para fotos. Uma mamita tenta vender a todo custo os cintos que produz. Um anunciante de rua me aborda - “TATUAGENS, PIERCINGS, marihuana, cocaína, ópio, heroína…”, alardeia, diminuindo a voz à medida que vai falando. Turistas bêbados com os “free drinks fisga cliente” a cada esquina. Mendigos por todos os lados. Milhares de taxis buzinando o tempo todo. Cusco, o ponto alto do turismo na América do Sul, a cidade plastificada onde igrejas foram construídas sobre templos incaicos.
Foram vinte dias de fraqueza, dor de barriga, tontura, vômito e diarréia. O motivo é um mistério: fui ao posto de saúde local, fiz exames, mas nada foi diagnosticado. Quando saía para tomar um ar, voltava ainda pior. A falsidade de Cusco me sufocou. Tudo ao seu alcance, se você puder pagar.
Texto escrito em 2006, parte do livro Viajeros.
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