Parte do coletivo Soylocoporti

Olhares de (apenas) uma latino-americana

Arquivo do assunto ‘comunidades tradicionais’

quarta-feira, 2 de setembro de 2009

Kundun Balê em Curitiba – 11/09 – Cancelado!

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Infelizmente, a apresentação foi cancelada devido à gripe suína (ainda?!). Nova data será informada.

A Companhia de Dança Afro Kundun Balê apresentará o “Encanto das Três Raças” no Canal da Música, dia 11 de setembro. O espetáculo, elaborado em parceria com o Grupo Artístico Mandorová, de Guarapuva, e ASSEMA (Associação Espiritualista Mensageiros de Aruanda), de Curitiba, é inspirado na umbanda e suas origens brancas, negras e índias.

Veja mais sobre o espetáculo aqui e aqui.

dsc 0197 1024x680 Kundun Balê em Curitiba   11/09   Cancelado!

ENCANTO DAS TRÊS RAÇAS

11 de setembro – 20h

Canal da Música

Rua Julio Perneta 695 – Mercês (prédio da TV Educativa)

A Entrada é franca, sendo pedido apenas a título de doação 1 kg de alimentos não perecíveis (não obrigatório). Este alimento será revertido a Comunidade Quilombola Paiol de Telha, de Guarapuava, PR, onde moram os bailarinos e percussionistas do Kundun Balê.

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terça-feira, 30 de junho de 2009

Kundun Balê: resistência, sincretismo e resgate

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O espetáculo “Encanto das Três Raças”, resultado do trabalho cultural desenvolvido na comunidade quilombola Paiol de Telha, é exemplo de como a arte pode contribuir para emancipar povos e construir identidades.

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Camiseta do Kundun Balê - tranças e guias.

Sexta-feira, 19 de junho, 06h30 da manhã. Atrás da catedral da Praça Tiradentes, sentada em cima da minha mochila, comia um salgado que comprei numa lanchonete chinesa, um dos poucos estabelecimentos abertos a essas horas – todos chineses. Eu havia recebido um convite para assistir à estréia do Encanto das três raças e passar o fim de semana no Paiol de Telha, em Guarapuava.

Lendo o email-convite, enviado para a lista de associados do Soylocoporti, me perguntei: “mas será que eu entro nessa história que nem sei qual é?”. Nessas horas sempre me lembro que várias vezes me fiz essa pergunta, geralmente cedi e nunca me arrependi, pelo contrário, agradeci à vida por me ter dado coragem de vencer o medo e ter ousado ver o novo. E lá estava eu, sozinha, antes do dia nascer, esperando um ônibus de desconhecidos para viver um pouco mais da cultura do meu país, por tanto tempo esquecida, abandonada, e pior, discriminada e até criminalizada.

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Mandorová, Assema e Kundun Balê se unem para formar o espetáculo.

Foi então que surgiu um homem que perguntou se eu era a menina que iria com eles. Era Marco Boeing, de quem o Amarelo, do Soylocoporti, havia recebido o convite. Entrei no ônibus, já ocupado em parte por crianças e adultos, que desde o início me receberam muito bem. Marco, dirigente da Assema – Associação Espiritualista Mensageiros de Aruanda, me explicou que havia conhecido Orlando Silva, diretor do espetáculo, e integrantes do Kundun Balê numa comemoração dos cem anos da umbanda realizado pela associação em Curitiba. Orlando estudou com os jovens e crianças da comunidade diversas religiões, e a Assema auxiliou na introdução da umbanda, uma religião afro-brasileira formada do sincretismo religioso entre os três povos que, majoritariamente, formam o Brasil: europeu, africano e indígena.

O poder da cultura e da arte

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Sincretismo cultural.

Estudos espirituais, culturais, dança e música. Esses são os pilares do trabalho desenvolvido pelo educador e percussionista Orlando Silva junto às crianças e jovens da comunidade quilombola. Trabalho esse que vem colaborando para que os jovens conheçam e desenvolvam suas origens, que tenham consciência de seus direitos e saibam disputá-los, levando para todos a força e a riqueza de sua cultura.

A meu ver, a iniciativa traduz o que os estudos culturais latino-americanos apontam. Néstor García Canclini, em A socialização da arte – teoria e prática na América Latina, encara a arte não meramente como um objeto de absorção lúdica, mas enxerga sua capacidade de intervenção na realidade, forjando identidades e explorando visões múltiplas, aliadas inevitavelmente ao contexto histórico, social e cultural das obras.

Segundo Canclini, “está ocorrendo, em nosso século, uma transformação tão substancial na concepção da arte, quanto a que ocorreu no Renascimento. Nessa época, passou-se da estética clássica (canônica, artesanal, intelectualista) à concepção moderna (caracterizada pela livre invenção de formas, pela “genialidade” individual dos artistas, pela autonomia das obras e sua contemplação “desinteressada”).

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Mães de jovens da companhia se aliam à iniciativa.

Nas últimas décadas, a concepção moderna ou liberal é questionada pelas vanguardas artísticas e por críticas sócio-políticas: de acordo com as mudanças econômicas e sociais que procuram a democratização e o desenvolvimento da participação popular, novas tendências artísticas tratam de substituir o individualismo pela criação coletiva, vêem a obra não mais como o fruto excepcional de um gênio, mas como produto das condições materiais e culturais de cada sociedade, e pedem ao público, em lugar de uma contemplação irracional e passiva, sua participação criadora.”

O autor sugere que “talvez, uma das funções da arte seja, como disseram os surrealistas, manifestar no real o maravilhoso. Mas, pensamos também, que uma das tarefas básicas da arte latino-americana atual é descobrir no maravilhoso o real”.

Encanto das Três Raças

Chegamos à comunidade no final da manhã, almoçamos e fomos direto ao auditório onde daria-se a apresentação. A tarde foi de intensa movimentação – montagem do cenário, ajustes de som e luz, marcação de cena e a junção das coregrafias do Kundun com as da Assema, somando-se ainda o trabalho cênico do Grupo Mandorová, de Guarapuava.

Muitas trançinhas no cabelo, ensaios e correrias. Na hora do show, com a platéia lotada, a ansiedade imperava. Fez-se uma roda no camarim, momento no qual todo o árduo trabalho foi recordado pelo grupo e pediu-se a benção aos orixás.

O espetáculo iniciou com um canto que pede licença à terra para plantar nela a vida, que geralmente encerra os trabalhos de umbanda. Diversas entidades desta religião afro-brasileira foram homenageadas – não aquela homenagem distante, mas incorporada, resultado da busca pela compreensão das vibrações da natureza. A percursão enérgica ditava a sintonia do espetáculo, transmitindo ritmo aos corpos – negros, mulatos, mamelucos, brancos, indígenas, altos, magros, gordos, baixos, jovens, crianças e velhos – transcendendo padrões estéticos artificiais e valorizando a individualidade em sintonia com o coletivo.

dsc 0502 230x345 Kundun Balê: resistência, sincretismo e resgate

Alegria ao final do show.

Ao final do espetáculo, o auditório, lotado devido à apresentação, emanava satisfação e emoção. No palco, a energia era transbordante, desaguando em euforia e abraços consecutivos, até que artistas e público eram uma coisa só. Uma experiência intensa, autêntica, no sentido de que não é apenas um produto cultural – é o reconhecimento da história de uma gente formada por vários povos, da mistura de nuances, da valorização daquilo que somos e escolhemos ser.

Veja mais sobre a comunidade quilombola e o espetáculo nesta matéria, publicada no blog oficial do Soylocoporti. Veja também mais fotos do show e dos ensaios.

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terça-feira, 30 de junho de 2009

Encanto

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Estréia do espetáculo “Encanto das três raças”, do Instituto Afro Brasileiro Belmiro de Miranda. Guarapuava, junho de 2009.

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terça-feira, 30 de junho de 2009

Últimos toques

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Ensaios do espetáculo “Encanto das três raças”, do Instituto Afro Brasileiro Belmiro de Miranda. Guarapuava, junho de 2009.

 Últimos toques

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quinta-feira, 31 de julho de 2008

Donde Miras – Tenonde Porã

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 Donde Miras   Tenonde Porã

 Donde Miras   Tenonde Porã

 Donde Miras   Tenonde Porã

 Donde Miras   Tenonde Porã

 Donde Miras   Tenonde Porã

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quarta-feira, 16 de julho de 2008

Donde Miras – Urucum

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 Donde Miras   Urucum

 Donde Miras   Urucum

 Donde Miras   Urucum

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quarta-feira, 16 de julho de 2008

Donde Miras – Questão guarani

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Ao passar por aldeias guaranis, algumas questões inevitavelmente vêm à tona. Eles vivem praticamente isolados, em territórios determinados e protegidos – uma grande prisão para que tenham a possibilidade de conservar sua cultura.

Os guaranis, nativos de grande parte do território brasileiro, foram mortos, escravizados, roubados e hoje vivem de cestas básicas do governo. Com valores completamente diversos daqueles vigentes em nossa sociedade capitalista, foram banidos desse tempo. Vivem à margem da sociedade, atrás de cercas, para que não tomem o pouco que lhes sobrou.

 Donde Miras   Questão guarani

Menino na Aldeia Rio Branco, Itanhaém.

Martim Afonso, o primeiro escravagista do Brasil, é tido como herói e tem seu nome em ruas e instituições públicas. Já os índios mortos foram esquecidos. Pouco sabemos da cultura indígena. No dia do índio as crianças colocam cocares como o fariam com qualquer fantasia de carnaval. A sociedade “branca” nega suas origens.

Os jesuítas também têm seus nomes em ruas e são lembrados como nobres homens que trouxeram a palavra de Deus aos índios selvagens. Padre Anchieta conta com milhares de devotos. Mas que direito o homem branco tinha de trazer sua verdade como A Verdade? Que Deus é esse que priva o homem de sua cultura, de suas crenças, de sua vida? Ouvi uma história de um guarani que virou crente e chorava desesperadamente porque acreditava que todos os seus antepassados estavam no inferno.

Os guaranis nos mostraram sua receptividade, seu sorriso fácil, sua harmonia com a natureza e a capacidade física natural do homem, que o povo da urbes esqueceu sentado no sofá em frente à TV. Também nos mostraram as imensas dificuldades que enfrentam, a pobreza, o alcoolismo e a falta de identidade cultural daqueles que não são nem rurais nem urbanos, no limbo entre sua ancestralidade guarani e a civilização atual. A sociedade enterrou o índio, mas ele está vivo, sufocando. Seus gritos são ouvidos, vindos debaixo da terra. É hora de descavar.

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quarta-feira, 16 de julho de 2008

Donde Miras – Fazendo biju

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 Donde Miras   Fazendo biju

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quinta-feira, 10 de julho de 2008

Donde Miras guarani

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Percorrer a América Latina a pé promovendo a cultura. Esse é o objetivo da Expedición Donde Miras, um grupo de mais de 50 pessoas envolvidas direta ou indiretamente com arte. A expedição partiu no dia quatro de julho de São Paulo no segundo trecho de sua caminhada cultural, de São Paulo a Cananéia, contornando o litoral sul paulista. A primeira etapa ocorreu em janeiro deste ano e foi desde São Paulo até Curitiba pelo interior.

 Donde Miras guarani

Aldeia Tenonde Porã.

O ponto de partida da segunda etapa foi a aldeia guarani Tenonde Porã, situada no bairro paulistano Parelheiros. O aspecto, porém, é de cidadezinha do interior – nem vestígios do ar da metrópole.
O grupo foi recebido com biju, mandioca, milho e batata doce, e recebeu a proteção guarani no ritual na Casa de Reza, entre dança, cantos e fumaça.

 Donde Miras guarani

Milho na brasa.

A trilha
No dia seguinte, integrantes da aldeia guiaram a expedição numa trilha no meio da mata até a aldeia guarani Rio Branco, a trinta quilômetros de distância. Foram doze horas de caminhada passando por ruas de chão batido, trilho de trem e a decida da Serra do Mar em plena Mata Atlântica.

 Donde Miras guarani

Trilho do trem.

A noite caiu e a trilha não acabava. Um grupo encontrou outra aldeia guarani na qual a maioria dos habitantes não fala português. As crianças se divertiram com os numerosos viajantes, apesar de não se comunicarem no mesmo idioma. Os adultos se mostraram mais cautelosos, mas permitiram que se acendesse uma fogueira até a chegada dos retardatários.

Com todos reunidos novamente, era hora de atravessar o rio, último obstáculo para chegar ao próximo destino, a aldeia Rio Branco, já no município de Itanhaém. O rio estava baixo. Uma corda foi estendida de ponta a ponta e, sob a luz das lanternas, os caminhantes cruzaram as águas e, exaustos, chegaram à aldeia. Apesar do cansaço, um breve sarau foi realizado à noite.

 Donde Miras guarani

Integrantes da expedição descendo a serra.

Muitas dores nos pés, pernas e coluna – menos para os guaranis. Eles descem a serra correndo, demonstrando imensa intimidade com a mata nativa. Contaram que, em ritmo acelerado, realizam o mesmo percurso em quatro horas, um terço do tempo que levamos.

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Dois de nossos guias guaranis.

A trilha percorrida integra o Peabirú, caminho guarani que permitia a comunicação entre diversas aldeias desde o Atlântico até o Pacífico, e posteriormente foi utilizado pelos jesuítas e bandeirantes. O Peabirú parte de São Vicente e passa por Paraguai, Argentina, Bolívia e Peru.

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