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Olhares de (apenas) uma latino americana

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segunda-feira, 23 de abril de 2012

Poema tipo fichário de informações

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Sou um pouco de tudo,
um pouco de nada.
Tenho asas, guelras,
terras e constelações.

Se já amei?
Mil vezes amei
Mil vezes desamei.

Sei que ando pelas ruas
como todos andam pelas ruas.
Sei que tenho náuseas e espanto.
Sei que tenho óleo
boiando sujo no lago da memória,
degraus cheios de pássaros mortos,
diálogos barrados
no limiar da hora do encontro,
cloacas envernizadas do nada mais que o social.

Oh! como dar mãos
a quem não tem mãos de dar,
não me encostem à parede
todas as vezes
em que venho para ficar em silêncio
em silêncio
mesmo que isto seja difícil,

deixem-me calado na dor e no amor,
deixem a alvorada levantar
com meus olhos pregados à janela,
deixem a solidão fundir-se
como chumbo se funde
ao fogo da vida,

deixem em paz minha desordem,
meu canto rouco,
meu viver interior,
meu delírio, meu submundo,
as águas de minha incerteza constante,

deixem em paz a ferrugem de meus planos abandonados,
o quadro negro de meu existir traçado a giz,
meu nascimento nos lugares mais doidos,

não queiram que eu chegue a um ponto determinado
(detesto pontos mesmo os mais longínquos),

não me ensinem códigos,
não me ponham sininhos no pescoço:

Eu quero ter a certeza de ser livre.

 

Lindolf Bell

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segunda-feira, 2 de agosto de 2010

Do portão da casa

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Abri o portão
O coração rangeu.
Rangeu
dentro de mim
e eu sorri
como um lavrador sorri
com seu rosto de terra
e a boca rasgada de riso
diante da terra lavrada.

Abri o portão partido. Partiu-me
em dois horizontes.
Em dois gomos de um fruto fugaz.
Igual e desigual.

Abri o portão da minha casa.
E a ferrugem (ou seria orvalho?)
desatou o nó da palavra
pendurada por um fio
no fundo da garganta.

Abri o portão da casa de minha infância.
Mapa dobrado dentro de mim
desdobrado,
mapa mudo
onde afundei
em areia movediça
palavra por palavra.

Abri o portão da casa.
A boca do jardim, a travessia
do mundo.
O tempo fendeu
dentro e fora de onde vim
e espatifou as asas de papel
que vesti em mim.

Manchei roupa, amor e ávidos tatos
em polpa de fruto proibido.

Puiu-se a pele nova na vivência,
no corpo dividido.
Entre sonhos, frêmitos, tristuras
e o real vivido.

Pois ainda que sonhe o tempo todo
ter o tempo de encontrar a verdade
em minhas mãos,
nada sei de mim
além de fotografias estampadas no jornal.
E pouca coisa mais saberei
ainda que acredite o contrário a cada instante
e que meu campo de batalha comigo mesmo
dure a vida inteira deste sonho
como dura o sonho a vida inteira
e, muitas vezes, se projete
além do horizonte aberto
do portão,
pouco mais ou nada mais
saberei.

A caixa vazia
de um velho relógio colonial
desliza sobre as águas do rio Itajaí-Açu
entre a lua cheia partida
e a nuvem veloz.

E todas estas palavras
e outras tantas nem escritas nem ditas
(esfacelada luz de uma estrela sem face nem foice)
fazem parte da minha biografia transparente.
Nada menos
nada mais.

Lindolf Bell, poeta catarinense pouco conhecido fora de suas terras, apesar de sua densa obra.

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segunda-feira, 26 de outubro de 2009

Livra o nome de inúteis sons

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Livra o nome
de inúteis sons
de letras a mais
ou a menos

Livra o destino
do nome gravado
Do nome escrito
em areia do tempo,
no imutável tempo
do nome

Livra a alma
de escudos, estrelas demais
De tudo supérfluo,
de toda superfície,
do aluamento do ser

Livra a liberdade
de todo lastro
De qualquer lustro
De vocábulos insólitos, grandiloqüentes,
feitos de nada,
vocábulos de enfeite, confeitos

Livra-te do palmo de terra
que te cabe
De panfletos do sentimentalismo
Dos improvisos da paixão

Livra-te de ti
antes de tudo
Livra-te a fio de navalha
Livra-te a fio de idéia
que da dor faz palha

Livra-te de idéias fixas
Porque a dor alheia
também é nossa

Lindolf Bell

Poeta catarinense, pouco conhecido fora de suas terras, apesar de sua densa obra. O primeiro de alguns poemas dele que disponibilizarei aqui.

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