Parte do coletivo Soylocoporti

Olhares de (apenas) uma latino-americana

Arquivo do assunto ‘poesia’

sábado, 7 de julho de 2012

Subvida

Ele rolava no chão. No meio da praça, bem pelo caminho que as pessoas passam. Um péssimo lugar pra deitar. Mas ele estava ali. Virava pra um lado, virava pro outro, tentava se levantar, caía, deitava feito feto, vontade de não ser, não conseguia, virava pra um lado, virava pro outro, cabeça balançando em delírio-pesadelo.

Ele ali, a Praça movimentada – a vida, pra todos, segue. É tragédia a cada esquina, se parar em cada uma não se anda. Será que tento ajudar? Mas ele tá locão, como vou ajudar. Ele pode estar morrendo, será que eu chamo o SAMU?

O que será que ele tomou? Ele fumou pedra? O que faz ficar assim? “Deve estar há uns três dias bebendo e fumando pedra”. Qual será a história dele?

O cara pode estar morrendo, ali na frente, “mas o que podemos fazer?”. Não é? Temos nossos compromissos e não podemos carregar o mundo em nossas costas. Não é?

E se fala em solidariedade. Amor. Falta em todos nós.

A vida desumana da humanidade segue.

 

Dois homens o tiram do meio da praça e o colocam deitado num banco. Ligam pra alguém. Espero que pra unidade de saúde, não pra polícia.

E o que pega nas entranhas é a culpa, mais que a compaixão. O egoísmo fede. Às vezes parece que manter uma boa imagem de si mesmo fala mais alto ao instinto que ajudar ao próximo. Fomos condicionados ou serei assim tão mesquinha? Isso faz parte de mim e eu tenho que arrancar de dentro ou é um crosta que me impuseram? Já não faz mais diferença, é uma falsa dualidade. Como costumam ser as dualidades.

 

O que aconteceu com ele?

Tive medo de ajudar.

Denúncia explícita de uma subvida.

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quarta-feira, 6 de junho de 2012

Curitiba

No meu agradável bairro de mentira

o único negro é o vigia.

Aqui tem muitas árvores,

as ruas são tranquilas

- na Vila Torres, não.

 

O tiro é o grito. A pedra é o gozo.

 

Não me venha falar de mentes medianas.

Um diploma não dá sabedoria,

muito menos dignidade.

“É que nós somos a exceção”,

a ilusão da “classe esclarecida”.

Acostumados com sucrilhos no prato.

 

Se todos fossem iguais a você,

tudo seria a mesma merda.

Ou pior.

 

10 negros acorrentados por cada piá de bosta

que se crê esclarecido.

Quer ensinar aos outros como se muda o mundo,

porque “é tão simples”.

 

Senta. Ouve. Vê.

A sabedoria está em quem tem tudo pra ser fodido

mas consegue se libertar.

 

Ouvir. Dialogar.

Falar dos conflitos mais profundos

de modo que os outros possam entender.

E se ver.

 

Isso não se aprende na academia.

 

A minha cidade se diz modelo.

Modelo de segregação.

Modelo do pó-de-arroz.

Modelo da sustentabilidade de fachada.

 

Minha cidade colou sua propaganda no espelho e não consegue mais se ver.

 

Enquanto isso, na Cruz Machado.

Enquanto isso, no Guadalupe.

Enquanto isso, na Cidade Industrial.

Enquanto isso, no Uberaba.

A cara desfigurada e real de Curitiba.

 

Mas de dentro da universidade pouco se vê.

E o Pão de Açúcar se preocupa com a sustentabilidade e com você.

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segunda-feira, 23 de abril de 2012

Poema tipo fichário de informações

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Sou um pouco de tudo,
um pouco de nada.
Tenho asas, guelras,
terras e constelações.

Se já amei?
Mil vezes amei.
Mil vezes desamei.

Sei que ando pelas ruas
como todos andam pelas ruas.
Sei que tenho náuseas e espanto.

Sei que tenho o adeus de todos os deuses
em todos meus sonhos sonhados.
Sei que tenho óleo boiando sujo no lago da memória,
degraus cheios de pássaros mortos,
diálogos meus barrados no limiar da hora do Encontro,
cloacas envernizadas do nada mais que o social.

Oh! como dar mãos a quem não tem mãos de dar,
não me encostem à parede todas as vezes
em que venho para ficar em silêncio,
em silêncio mesmo que isto seja difícil,

deixem-me calado na dor e no amor,
deixem a alvorada levantar
com meus olhos pregados à janela,
deixem a solidão fundir-se como chumbo
ao fogo da Vida,

deixem em paz minha desordem,
meu canto rouco,
meu viver interior,
meu delírio, meu submundo,
as águas de minha incerteza constante,

deixem em paz a ferrugem de meus planos abandonados,
o quadro negro de meu existir traçado a giz,
meu nascimento nos lugares mais doidos,
minhas presenças inesperadas,

não queiram que eu chegue a um ponto determinado
(detesto pontos mesmo os mais longínquos),

não me ensinem códigos,
não me ponham sininhos no pescoço,

eu quero ter a certeza de ser livre.

 

Lindolf Bell

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terça-feira, 3 de abril de 2012

Talvez emo

tenho o sol no coração mas só costumo mostrar a face da lua.
acho que morri mesmo aquela noite que passou.

não sei porque mas choro e me emociono e nem sou emo.
se eu fosse homem talvez fosse como O Idiota.
mas sou mulher e tenho instinto de mulher e praticidade de mulher e sinto a terra sob os meus pés.
no meu ventre.

e não sei falar o que acho que deve ser dito. talvez escrever.
quase só sei chorar sozinha. e sou tímida e me sinto observada no mundo.

por fora, contemplação; por dentro, um turbilhão.
o turbilhão é a outra face da contemplação?

é impossível ser feliz sozinho?
mas no fundo no fundo não tá todo mundo sozinho?
apesar de junto?

do que todo mundo tem mais medo? da morte ou da solidão?
as duas certezas da vida.

tão sensível e tão insensível.
a sensibilidade é tão relativa.
tantas coisas desse mundo que não me comovem.
e tantas coisas talvez pequenas mas tão grandes,
tão grandes que impalpáveis – simbólicas, matizes –
que me acertam em cheio.
de dentro pra fora.

não sei fazer cara de paisagem. tudo está na cara.

insisto em supor que existo. eu sinto.
por que pra onde como pra que. não sei.
sinto e existo. e vou.

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quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012

ver ou não ver

e o dia vai nascer feliz?
não estarei aqui pra ver.

talvez o amanhecer seja um milagre
e eu não vou ver.

a lua agora penetra os vales
e eu não tenho olhos de ver.

quantos cometas já passaram por mim?
não sei o que é pior: a ânsia ou a incapacidade de ver.

apaga a luz.

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quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012

poeminha da madrugada

não busco a novidade constante,
a inovação da forma.

como alguém que eu um dia já fui,
não acredito na sorte nem no azar.

minto. na sorte eu acredito.

escrevo não porque preciso –
precisamente, o que é preciso?
escrevo porque quero,
pra em letrinhas me entender.

mas nem precisa ter porquê.

penso logo insisto, vivo logo morro.
será esse poema o meu grito de socorro?

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sexta-feira, 11 de março de 2011

Dos meus anseios

Pra onde o vento me levar…
Mundo, vasto mundo.

A vida é muito dura,
a vida é muito linda,
a vida é muito.

Chuto o balde, mudo tudo,
só pra seguir meu coração (discreto e inquieto).
Sei que sou nada, sei que sou tudo,
sei que às vezes nem sei quem sou.

Mas vou.
Dando meus passos tortos, expelindo meus poemas baratos.
Na fluidez.

Deixei minhas certezas pra trás pra conseguir ver melhor de longe.
Com a certeza de que não há certezas.

Onde vou parar?
Vou parar?

A vida só é viva se em movimento.
Por que insistem em algemá-la?
Medi-la
Pesá-la
Classificá-la
Programá-la.

Até não ser mais vida.

Vou fazer uma sopa desse quebra-cabeças.
As peças não se encaixam. Não são de encaixar.

Um pouco mais de
Tolerância
Vontade
Confiança
Criatividade.
Amor.

Capacidade de enxergar que as coisas sempre mudam,
o eterno movimento,
os ciclos evolutivos.

Não só pode ser diferente como vai ser diferente.
Mas diferente como?

O mundo depende (um pouco) de mim.
Eu, pequenino microorganismo do cosmos.
Eu dependo (um muito) do mundo.
O mundo, pequena célula do todo.

E é lindo. É foda mas é lindo.

E quem disse que ia ser fácil?

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segunda-feira, 15 de novembro de 2010

Singelo

Meu grito ecoa, corre, voa
se evade de mim sem pedir passagem.

Pareço tão forte, dispenso ajuda
mas ainda sou aquela que aponta com o dedo a flor lilás.

Sozinha com minhas contemplações, me emociono:
cores de fim de tarde,
estrela brilhando forte abaixo do pálido riso amarelo.

Não preciso de muito dinheiro, graças à Pacha
só um pouco de diversão, silêncio e poesia.

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domingo, 22 de agosto de 2010

Viajeros – Vilarejo

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internet2 Viajeros   Vilarejo

Sítio Arco-íris. O por do sol daqui é lindo – nuvens de algodão doce de Rondônia amareladas e rosadas. O fiel súdito vento anuncia a chuva, dando uma noção prévia do seu poder, trazendo consigo nuvens densas e promessas de vida. Ela, a Majestade, vem pelo lago – do outro lado as árvores já estão envoltas numa espécie de névoa aquática. Quando todos estão preparados para recebê-la, a chuva chega – momento de paz e quietude.

Porto Velho estava um saco. A paradoxal cidade amazônica onde não há árvores. Muito trabalho, pouco dinheiro. No auge do tédio, escrevi um poema-desabafo:

O tédio me envolve
com paredes de azulejos brancos,
conversa de novela vindo da sala de um hotel barato,
vestígio de goteira,
cheiro de mofo.

O tédio amarra meus pés e mãos na cama,
hipnotiza minha cabeça para achar tudo um saco.

Porto velho, novo, morto e eterno.
Eterno tédio que se faz vapor,
calor, gotas de suor.

Calypso infernal amolece minhas pernas,
aborta a sede do novo,
me tranca num quarto com as mãos nos ouvidos.

O tédio me tece um ninho, me faz cafuné,
minha musa, meu carrasco,
meu bicho de pé.

Até que um dia, enquanto trabalhávamos, um menino veio falar conosco. O nome dele era Alan, disse que vivia num sítio e que seríamos muito bem-vindos lá. A história é a seguinte: Jackson, um cara que já foi artesão-viajante e percorreu muita estrada, sempre buscou algo, estudou várias religiões e linhas esotéricas, até que decidiu morar num sítio, primeiramente sozinho. internet3 Viajeros   VilarejoDepois de uns anos sua mulher, Cláudia, e seus filhos, que viviam na cidade, também foram para lá. Eles se sustentam com a cerâmica e os tapetes que produzem, e recebem quem quer que seja, é só contribuir com comida, colaborar nos afazeres e respeitar a harmonia do lugar. Também vivem lá o acreano Leandro, a argentina Veronica e Valéria, irmã de Cláudia. Há quatro ou cinco dias Valéria deu à luz a uma criança linda, o Ba’aruda, que trouxe mais alegria e paz ao sítio.

Nasce Ba’aruda

O Santo Daime

O pessoal do sítio freqüenta uma igreja do Santo Daime. Trata-se de uma corrente cristã que utiliza em seus rituais uma bebida elaborada a partir de plantas que altera a consciência e que, segundo Jackson, desbloqueia um mecanismo de censura do nosso cérebro. Essa bebida é conhecida no Peru e na Bolívia como ayahuasca, parte de uma tradição indígena, usada até hoje em rituais de auto-conhecimento e purificação física e espiritual. A bebida foi legalizada no Brasil depois de estudos comprovando que ela não oferece riscos à saúde.

“Sabe aquela sujeirinha debaixo do tapete, que só você sabe que tá lá? Vem tudo à tona”, me disse um maluco brasileiro no Peru sobre a experiência com o ayahuasca. Jackson e Alan dizem que o Daime aponta um caminho, faz compreender os processos que ocorrem na vida e leva além desse mundo físico espacial-temporal que conhecemos.

Ao contrário do que algumas pessoas podem pensar, a igreja do Santo Daime é bem careta – eles usam farda, uma roupa cerimonial que mais parece roupa social, e os homens têm que estar com cabelo cortado e barba feita. Nas cerimônias eles cantam os hinos, que falam de Deus, do Daime, do Mestre Irineu – o fundador do Santo Daime -, entre outras coisas.

O Daime é feito do jagube, que é plantado por membros da igreja, num processo de muito cuidado desde o plantio até a preparação. Os fardados elaboram a bebida na cerimônia do feitio.

Retiro espiritual

internet31 Viajeros   Vilarejo
Valéria nos últimos dias de gravidez

Aqui no sítio encontrei sossego, pessoas tranqüilas que trilham um caminho de aperfeiçoamento e ar puro. É um lugar lindo, repleto de árvores, às margens de um lago. O único infortúnio foi o desenvolvimento de uma doença no meu pé. Uma bactéria, o estafilocócus, se instalou em feridas de picada de insetos, creio que no fétido hotel em Porto Velho. Thiago também está infectado, mas em menor proporção. Aprendi a usar a necessidade de não poder me movimentar muito a meu favor aproveitando para ler, pensar e aprender bastante.

Depois de quinze dias tentando tratar minhas feridas de forma natural, o que exigia toda uma rotina diária de cuidados, me rendi à alopatia: tomei um “pics” de benzetacil no bumbum. Agora é esperar melhorar e seguir caminho – a estrada chama.

 

Esse texto faz parte do livro Viajeros, que foi publicado em posts nesse blog.

Veja o próximo post.

Veja o post anterior.

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quinta-feira, 19 de agosto de 2010

A Flor e a Náusea

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Preso à minha classe e a algumas roupas,
vou de branco pela rua cinzenta.
Melancolias, mercadorias espreitam-me.
Devo seguir até o enjôo?
Posso, sem armas, revoltar-me?

Olhos sujos no relógio da torre:
não, o tempo não chegou de completa justiça.
O tempo é ainda de fezes, maus poemas, alucinações e espera.

O tempo pobre, o poeta pobre
fundem-se no mesmo impasse.

Em vão me tento explicar, os muros são surdos.
Sob a pele das palavras há cifras e códigos.
O sol consola os doentes e não os renova.
As coisas. Que tristes são as coisas, consideradas sem ênfase.
Uma flor nasceu na rua!

Vomitar esse tédio sobre a cidade.
Quarenta anos e nenhum problema
resolvido, sequer colocado.
Nenhuma carta escrita nem recebida.
Todos os homens voltam para casa.
Estão menos livres mas levam jornais
e soletram o mundo, sabendo que o perdem.

Crimes da terra, como perdoá-los?
Tomei parte em muitos, outros escondi.
Alguns achei belos, foram publicados.
Crimes suaves, que ajudam a viver.
Ração diária de erro, distribuída em casa.
Os ferozes padeiros do mal.
Os ferozes leiteiros do mal.

Pôr fogo em tudo, inclusive em mim.
Ao menino de 1918 chamavam anarquista.
Porém meu ódio é o melhor de mim.
Com ele me salvo
e dou a poucos uma esperança mínima.

Passem de longe, bondes, ônibus, rio de aço do tráfego.
Uma flor ainda desbotada
Ilude a polícia, rompe o asfalto.
Façam completo silêncio, paralisem os negócios
garanto que uma flor nasceu.

Sua cor não se percebe.
Suas pétalas não se abrem.
Seu nome não está nos livros.
É feia. Mas é realmente uma flor.

Sento-me no chão da capital do país às cinco horas da tarde
e lentamente passo a mão nessa forma insegura.
Do lado das montanhas, nuvens maciças avolumam-se.
Pequenos pontos brancos movem-se no mar, galinhas em pânico.
É feia. Mas é uma flor. Furou o asfalto, o tédio, o nojo e o ódio.

Carlos Drummond de Andrade

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