quarta-feira, 6 de junho de 2012

Curitiba

No meu agradável bairro de mentira

o único negro é o vigia.

Aqui tem muitas árvores,

as ruas são tranquilas

– na Vila Torres, não.

 

O tiro é o grito. A pedra é o gozo.

 

Não me venha falar de mentes medianas.

Um diploma não dá sabedoria,

muito menos dignidade.

“É que nós somos a exceção”,

a ilusão da “classe esclarecida”.

Acostumados com sucrilhos no prato.

 

Se todos fossem iguais a você,

tudo seria a mesma merda.

Ou pior.

 

10 negros acorrentados por cada piá de bosta

que se crê esclarecido.

Quer ensinar aos outros como se muda o mundo,

porque “é tão simples”.

 

Senta. Ouve. Vê.

A sabedoria está em quem tem tudo pra ser fodido

mas consegue se libertar.

 

Ouvir. Dialogar.

Falar dos conflitos mais profundos

de modo que os outros possam entender.

E se ver.

 

Isso não se aprende na academia.

 

A minha cidade se diz modelo.

Modelo de segregação.

Modelo do pó-de-arroz.

Modelo da sustentabilidade de fachada.

 

Minha cidade colou sua propaganda no espelho e não consegue mais se ver.

 

Enquanto isso, na Cruz Machado.

Enquanto isso, no Guadalupe.

Enquanto isso, na Cidade Industrial.

Enquanto isso, no Uberaba.

A cara desfigurada e real de Curitiba.

 

Mas de dentro da universidade pouco se vê.

E o Pão de Açúcar se preocupa com a sustentabilidade e com você.

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domingo, 27 de maio de 2012

Jardim Catalão

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Meu amigo gato. Barcelona, março de 2011.

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segunda-feira, 23 de abril de 2012

Poema tipo fichário de informações

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Sou um pouco de tudo,
um pouco de nada.
Tenho asas, guelras,
terras e constelações.

Se já amei?
Mil vezes amei.
Mil vezes desamei.

Sei que ando pelas ruas
como todos andam pelas ruas.
Sei que tenho náuseas e espanto.

Sei que tenho o adeus de todos os deuses
em todos meus sonhos sonhados.
Sei que tenho óleo boiando sujo no lago da memória,
degraus cheios de pássaros mortos,
diálogos meus barrados no limiar da hora do Encontro,
cloacas envernizadas do nada mais que o social.

Oh! como dar mãos a quem não tem mãos de dar,
não me encostem à parede todas as vezes
em que venho para ficar em silêncio,
em silêncio mesmo que isto seja difícil,

deixem-me calado na dor e no amor,
deixem a alvorada levantar
com meus olhos pregados à janela,
deixem a solidão fundir-se como chumbo
ao fogo da Vida,

deixem em paz minha desordem,
meu canto rouco,
meu viver interior,
meu delírio, meu submundo,
as águas de minha incerteza constante,

deixem em paz a ferrugem de meus planos abandonados,
o quadro negro de meu existir traçado a giz,
meu nascimento nos lugares mais doidos,
minhas presenças inesperadas,

não queiram que eu chegue a um ponto determinado
(detesto pontos mesmo os mais longínquos),

não me ensinem códigos,
não me ponham sininhos no pescoço,

eu quero ter a certeza de ser livre.

 

Lindolf Bell

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quarta-feira, 11 de abril de 2012

Senegal

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Dacar, fevereiro de 2011. Aquecimento para o Fórum Social Mundial.

Clique em cima das fotos para ver melhor.

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terça-feira, 3 de abril de 2012

Talvez emo

tenho o sol no coração mas só costumo mostrar a face da lua.
acho que morri mesmo aquela noite que passou.

não sei porque mas choro e me emociono e nem sou emo.
se eu fosse homem talvez fosse como O Idiota.
mas sou mulher e tenho instinto de mulher e praticidade de mulher e sinto a terra sob os meus pés.
no meu ventre.

e não sei falar o que acho que deve ser dito. talvez escrever.
quase só sei chorar sozinha. e sou tímida e me sinto observada no mundo.

por fora, contemplação; por dentro, um turbilhão.
o turbilhão é a outra face da contemplação?

é impossível ser feliz sozinho?
mas no fundo no fundo não tá todo mundo sozinho?
apesar de junto?

do que todo mundo tem mais medo? da morte ou da solidão?
as duas certezas da vida.

tão sensível e tão insensível.
a sensibilidade é tão relativa.
tantas coisas desse mundo que não me comovem.
e tantas coisas talvez pequenas mas tão grandes,
tão grandes que impalpáveis – simbólicas, matizes –
que me acertam em cheio.
de dentro pra fora.

não sei fazer cara de paisagem. tudo está na cara.

insisto em supor que existo. eu sinto.
por que pra onde como pra que. não sei.
sinto e existo. e vou.

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quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012

ver ou não ver

e o dia vai nascer feliz?
não estarei aqui pra ver.

talvez o amanhecer seja um milagre
e eu não vou ver.

a lua agora penetra os vales
e eu não tenho olhos de ver.

quantos cometas já passaram por mim?
não sei o que é pior: a ânsia ou a incapacidade de ver.

apaga a luz.

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quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012

poeminha da madrugada

não busco a novidade constante,
a inovação da forma.

como alguém que eu um dia já fui,
não acredito na sorte nem no azar.

minto. na sorte eu acredito.

escrevo não porque preciso –
precisamente, o que é preciso?
escrevo porque quero,
pra em letrinhas me entender.

mas nem precisa ter porquê.

penso logo insisto, vivo logo morro.
será esse poema o meu grito de socorro?

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terça-feira, 10 de janeiro de 2012

Viajeros – Aquela tal malandragem não existe mais?

Às vezes queria ter nascido em outras épocas. Poder explorar o mundo como o alucinado Jack Kerouac, desbravando Méxicos, Marrocos, Europas e sinistros rincões do Tio Sam na sua vagabundagem evolutiva. Aldous Huxley, Humboldt, Mário de Andrade, eles sim sabiam o que era o choque de culturas, o inesperado, novo, rico, e acima de tudo, a troca. Agora não. Os postos de fronteira decidem quem entra e quem fica, determinam um prazo limite de permanência no país. Isso sem falar da Interpol. Ninguém merece. Um organismo internacional que perde seu tempo na caça de inofensivos artesãos que só querem ter o direito de trabalhar em paz enquanto as quadrilhas de tráfico internacional e os criminosos de colarinho branco continuam alvoroçando o mundo.

O turismo deturpou as culturas, transformando-as em produtos embalados segundo as tendências do mercado. Os dólares são gastos pelos turistas, disputados pelos nativos miseráveis e a troca já era. O nativo não tem nada para falar com o turista playboy e o turista se sente explorado pelo exótico nativo. Dois mundos se cruzam, porém não interagem para além do comércio. Business.

Aí surgem os rótulos: boliviano preguiçoso, argentino petulante, peruano trambiqueiro, brasileiro folgado. Ninguém se entende e nem quer se entender. As coisas são simples e resumíveis a rótulos.

É, às vezes parece que o tempo do mochileiro livre acabou. Os caminhoneiros não podem mais dar carona, seus caminhões são controlados por satélite e cada porta aberta é monitorada. O medo se infiltra em cada ângulo das situações sociais. Terrorismo, narcotráfico, homicídios, assaltos – e o viajante no meio desse cenário caótico recebendo olhares desconfiados.

Mas ainda é possível. Tem que ter jogo de cintura, mas a experiência ensina. Há muito o que conhecer, apesar de a globalização impor seus padrões em nome de um pretenso desenvolvimento. O sol ainda nasce no Atlântico e se põe no Pacífico. Os argentinos tomam mate e os bolivianos mastigam coca. Ainda há resquícios de originalidade, e a dinâmica global se adapta de diferentes formas aos contextos locais. Nem precisa procurar muito – é uma questão de abrir (ou fechar) os olhos.

Jack Kerouac, no final da década de 50, nos anos pós-guerra da radiante aurora da sociedade do bem-estar, viu o final do vagabundo – o verdadeiro vagabundo, não o vadio. “Malandro é malandro e mané é mané”, já dizia Bezerra da Silva. Chico Buarque eternizou a decadência da malandragem. Já não existe mais. A polícia, o padre, a família, o mercado de trabalho, tudo isso matou o malandro de Chico e o vagabundo de Kerouac, que subvertiam os valores predominantes.

É cada vez mais difícil acordar da Matrix – os programas se refinam mais e mais. O vagabundo vê que nada disso faz sentido. “Eu queria ser burro, não sofria tanto”, lamentou Raul Seixas. Mas se fosse burro não seria genial. A mudança dói. Mas a dor é inerente à metamorfose, e acaba virando serenidade, apontando novos caminhos. O covarde dá meia volta. O viajante vai.

 

Esse é o último texto do livro que apresentei como TCC em 2007: Viajeros – nos fluxos da América do Sul. Revisei o livro nesse blog por meio de posts. Essa vida de estrada é muito viva. Dá saudade.

Veja o post anterior.

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terça-feira, 22 de novembro de 2011

Una tranquilla cittadina d’Italia

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Fulvio – meu amigo de couchsurfing – me levou pra sua cidade natal, Sondrio, a umas duas horas de Milão.

Abril de 2011. Filme. Qual não interessa, rs.

– clique em cima pra ver como slide

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terça-feira, 15 de novembro de 2011

Mercado de Dakar

Essas foram tiradas com meu xodó, minha Nikon FM2, no mercado de Dakar. Old school, en película.

Fevereiro de 2011.

– Clique nas fotos para ver em modo de slide.

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